Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

SUMÁRIO (atualizado em 2014-01-06)

Ciência e o sector vitivinícola
Uma Administração Pública sem Memória! (Artigo nº 54)
Investigação Agrária do Estado – um serviço descentralizado em Portugal!
Como as autarquias envolvidas encaram esta realidade (Artigo nº 53)
Makers of scientific papers (Artigo nº 49)
Portugal, país das uvas... (Artigo nº 48)
Investigação Agrária (Artigo nº 44)
A OIV e a sua Comissão Nacional - quatro décadas de evolução (Artigo nº 39)
Cultura na Ciência (Artigo nº 36)
Como vai a nossa Universidade (Artigo nº 35)
Como o vinho é visto e falado (Artigo nº 26)
A Investigação Científica não é uma despesa, é um investimento! (Artigo nº 22)
Geração após geração, cresce a Ciência e o conhecimento do Mundo! (Artigo nº 20)
Os vinhos DOC da zona de Lisboa (Artigo nº 16)
A aplicação da Ciência que se produz (Artigo nº 8)
Relação da Ciência com os poderes (Artigo nº 4)
Cultura científica – Aprender, inovar, divulgar, cooperar (Artigo nº 2)


As cidades da minha vida
Cape Town (Artigo nº 52)
Londres (Artigo nº 45)
Santiago do Chile (Artigo nº 42)
Jerusalém, Istambul e Cairo - a História milenar às portas da Europa... (Artigo nº 41)
Buenos Aires (Artigo nº 37)
Rio de Janeiro (Artigo nº 32)
De Atenas às ilhas gregas do Mediterrâneo (Artigo n° 31)
Belo Horizonte... Minas Gerais (Artigo nº 28)
Porto (Artigo nº 21)
Paris (Artigo nº 19)
Lisboa (Artigo nº 15)
Portalegre (Artigo n º 14)
Elvas (Artigo nº 13)
As cidades da minha vida (Artigo nº 12)


Figuras
Nelson Mandela (Artigo nº 51)
Os Homens e as Mulheres da Cultura na Ditadura de Salazar e Caetano (Artigo nº 47)
Xanana Gusmão (Artigo nº 43)
Zeca Afonso (Artigo nº 40)
Chico Xavier (Artigo nº 33)
Portugueses que me fazem sentir orgulho de ser português - Aristides de Sousa Mendes e Alípio de Freitas(Artigo n° 30)
Charlie Chaplin (Artigo nº 27)
De Cunhal a Soares e a Sá Carneiro (Artigo nº 23)
O Homem Novo (Artigo nº 18)
Alguns amigos especiais (Artigo nº 11)
José Régio (Artigo nº 6)
João Tavares – de aguarelista a cartonista… e as tapeçarias de Portalegre (Artigo nº 3)
Luís da Silva Campos (Artigo nº 1)


Opções de cidadania
A Democracia defende-se em todas as situações da vida (Artigo nº 55)
Uns e os outros na crise económica (Artigo nº 50)
Lutemos pelo Serviço Nacional de Saúde (Artigo nº 46)
O acordo ortográfico (Artigo nº 38)
A arte existe porque a vida só não basta (Artigo nº 34)
Saber ler (Artigo nº 29)
Apelido COMPETÊNCIA, nome MULHER (Artigo nº 25)
O Serviço Nacional de Saúde (Artigo nº 24)
A importância da Cultura na Vida. O papel do AMICITIA-Grupo Cultural de Portalegre (Artigo nº 17)
Felizmente havia luar... (Artigo nº 10)
Do fim da ditadura ao princípio da Democracia (Artigo nº 9)
Viva a República (Artigo nº 7)
Não podemos ficar indiferentes (Artigo nº 5)

A DEMOCRACIA DEFENDE-SE EM TODAS AS SITUAÇÕES DA VIDA

Democracia é muito mais que o simples cumprimento da Constituição e das eleições para os órgãos de soberania. Democracia exige a satisfação das liberdades: liberdade de imprensa, liberdade de expressão de pensamento, liberdade de associação e de reunião… Democracia exige o direito ao trabalho, o direito à habitação, o direito à saúde, o direito à educação… Democracia exige a satisfação dos direitos, mas também exige o cumprimento de deveres…
Compete aos órgãos de soberania (Presidente da República, Assembleia da República, Governo, Autarquias, Tribunais) criar as condições e promover as medidas tendentes à satisfação dessas liberdades e desses direitos. Mas compete também aos cidadãos, em todas as ações da sua vida, zelar pelo cumprimento dessas liberdades e desses direitos.
Hoje, e felizmente, é habitual a existência de concursos para admissão de pessoal ou para regular a sua progressão na respetiva carreira profissional, por parte das diversas instituições., bem como para selecionar programas ou projetos diversos. E não se pense que esta situação, hoje normal, o foi sempre. Antes da instituição do regime democrático, a situação era bem diferente: frequentes os favores em concursos, frequentes os vetos da polícia política, frequente a ignorância das regras…
Fui estudante e iniciei a minha atividade profissional no tempo da Ditadura. Conheci bem essa realidade. Enquanto estudante, fui punido em processo disciplinar por manifestar o meu pensamento publicamente, na comunicação social académica. Já enquanto profissional, fui admitido na instituição de que fui funcionário durante quatro décadas, apenas após testemunhos (evidentemente falsos) da minha não oposição ao regime político vigente.
Contudo, exerci praticamente toda a minha atividade profissional durante o regime democrático. Entrei para a minha carreira de investigação mediante concurso, fui promovido a Investigador Principal mediante concurso e fui promovido a Investigador Coordenador mediante concurso de provas públicas. Para desenvolver a minha atividade profissional, concorri, no âmbito de diversas equipas, ao financiamento de diversos projetos de investigação: evidentemente, umas vezes ganhámos, outras perdemos. É assim a vida! É assim a Democracia!
Por outro lado, também diversas vezes integrei júris de avaliação de projetos: é o princípio da avaliação pelos pares, universalmente aceite e empregue.
Também, ao longo da minha carreira profissional e até depois de aposentado, integrei júris de concursos ou de avaliação de pessoal, como vogal ou como Presidente: 39 júris de natureza académica ou científica (agregação, doutoramento, mestrado, licenciatura, da carreira científica) e 15 júris de natureza técnica, para além da avaliação periódica da atividade científica de diversas dezenas de Investigadores e da avaliação do funcionamento de diversas licenciaturas de três Universidades portuguesas. Julgo ter pois alguma experiência nesta atividade de integrar júris de avaliação de pessoal.

Mas, na vida, há sempre mais qualquer coisa para vir, há sempre mais uma surpresa para acontecer…
Num dos últimos concursos de pessoal cujo júri integrei, deparei com uma situação que desconhecia quando do convite formal e que não me tinha sido dita: o concurso, para admissão de um Investigador num organismo de investigação, ignorava deliberadamente um princípio basilar do Estatuto da respetiva carreira, que designadamente referia (e refere): “Porque a atividade de investigação implica a realização de ações pluridisciplinares, desenvolvidas por um corpo de investigadores altamente qualificados e integrados na comunidade científica nacional e internacional, adota-se a modalidade de concurso externo como forma de recrutamento dos investigadores auxiliares, principais e coordenadores”. Pois esse concurso tinha, como universo a quem era dirigido, apenas funcionários com vínculo definitivo à administração pública. Estava pois ferido de ilegalidade insanável. Protestei, por diversas formas, quanto a esta ilegalidade, mesmo considerando pareceres de gabinetes de membros do governo que me eram apresentados e que evidentemente não podiam contrariar princípios fundamentais de um Estatuto de carreira, aprovado por um Decreto-Lei, e mais tarde até ratificado por uma Lei da Assembleia da República. Votei vencido na sessão de júri a que assisti, até por detetar outra irregularidade: o desenho de um perfil correspondente ao que é denominado na gíria como “concurso com fotografia”, perfil aliás não definido pelo Conselho Científico da instituição, como o deveria ter sido à face da lei. Entretanto outras duas graves irregularidades aconteceram nesse concurso: foram largamente ultrapassados os prazos definidos na lei sobre as diferentes fases do concurso e o concurso decorreu após alteração da composição do júri. Tais factos levaram a que eu próprio tivesse de tomar a decisão de solicitar a minha escusa em continuar a participar nesse júri, posição aliás secundada por outro elemento do júri… E, curiosamente, o processo foi correndo como se nada se passasse (50% dos elementos do júri foram substituídos, durante o percurso do procedimento concursal…).

São situações destas a que importa estar atento, para salvaguarda dos princípios democráticos que deverão conformar a nossa sociedade. Por isso, saí desse júri a tempo de não ficar envolvido em atos que, em minha consciência, estão feridos de ilegalidades e injustiças. Aparentemente não ganhei nada… Mas ganhei sim: ficar de bem com a minha consciência, o que já é bem significativo, e apontar um exemplo aos que me ouvem, designadamente aos mais jovens, dizendo-lhes que, na vida, nem todos os meios são justificáveis, e que compete a cada um de nós defender a verdade e a justiça, mesmo em condições adversas!
E hoje, que tanto se fala em combater a corrupção, situações e factos como o que descrevi constituem férteis embriões para a corrupção!


domingo, 16 de junho de 2013

UMA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA SEM MEMÓRIA

Há alguns meses, fiquei profundamente chocado quando, ao entrar nas instalações do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), em Lisboa, deparei com uma autodenominada Feira do Livro do setor vitivinícola, onde se encontrava à venda o livro de que sou autor (Controlo de Qualidade dos Vinhos) e que foi editado pelo próprio IVV, pelo preço de UM EURO! Para além do facto de se ter completamente ignorado o contrato que eu tinha assinado com o editor (IVV), quando da sua edição, contrato esse que assinei na boa fé, e que esta instituição não veio agora cumprir, este facto chocou-me por se colocar à venda por 1 euro, menos que um jornal diário ou um bilhete de Metro, e quase o mesmo que um expresso num café de bairro, um livro que foi o primeiro livro português premiado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho e que ainda hoje, 25 anos depois, continua a ser obra de referência na bibliografia indicada em múltiplos Cursos de Licenciatura e de Mestrado em diversas Universidades e Institutos Politécnicos portugueses e de outros países.
Por ser parte envolvida, não me alongo nestas considerações. E até porque hoje entendo as efetivas razões desta inadmissível ocorrência. Não se deveu a qualquer ação consciente dessa instituição contra mim. Aliás, muitas outras obras de autores portugueses, editadas ou patrocinadas pelo IVV se encontravam nessa "Feira de venda ao desbarato". Tratava-se simplesmente de uma ação de "limpeza" dos armazéns da instituição.
 
Certamente ninguém pensou que, ao limpar os armazéns, se estava a contribuir para uma realidade infelizmente muito típica do nosso país: limpar, melhor dizendo apagar a memória!
 
Por outro lado, relato um facto passado na instituição onde exerci funções, durante mais de quatro décadas e até me aposentar... Falo agora de uma instituição de investigação científica para o setor agrário: INIA, INIAP, INRB, INIAV... são as designações que os poderes dominantes lhe foram atribuindo ao longo dos últimos anos. Aqui, dois dos meus mais jovens colegas, após terem feito todo o seu percurso de formação científica, nessa instituição, incluindo o seu doutoramento e até tendo exercido atividade de pós-doutoramento, foram finalmente contratados como Investigadores... ao abrigo de um programa da Fundação para a Ciência e Tecnologia de auxílio a instituições de Ensino Superior e de Investigação, para rejuvenescimento dos seus quadros de pessoal científico. Note-se que estes dois meus colegas possuem hoje especialidades únicas no nosso país, com notável repercussão nacional e internacional.
Como se sabe, hoje todos os contratos na administração pública são a termo, podendo evidentemente ser prorrogados Pois tem sido muito reduzido o efetivo interesse demonstrado pela instituição na continuação desses contratos. Poderia apontar vários exemplos que demonstram bem esse alheamento da instituição relativamente a esses elementos, inclusivamente com a prestação de erróneas informações para o exterior, referindo que se tratava de elementos que não pertencem à instituição (quando efetivamente pertenciam) ou que já não pertenciam à instituição (quando se encontrava e até ainda se encontra pendente a prorrogação do seu contrato). E foram estas informações prestadas por elementos com responsabilidades na instituição! Esta é pois também uma forma de apagar a memória, deixando assim sem memória uma casa de investigação, conforme aliás um colega meu me disse, quando recentemente um destes exemplos se verificou.
 
Numa casa de investigação, isto é ainda mais grave!
Num artigo que escrevi para este meu blogue ("Geração após geração, cresce a Ciência e o conhecimento do Mundo"), procurei explicar como qualquer Investigador desenvolve a sua atividade, aprendendo sempre com os seus colegas, com os seus pares científicos, englobando aqui os seus colaboradores, os seus discípulos, os seus colegas, os seus mestres.
Daí a enorme importância de haver memória numa casa de investigação!
Muito do meu percurso de Investigador se deve à memória da instituição onde desenvolvi a minha atividade científica. Aprendi a conhecer, por dentro, a importância de uma publicação científica com os Engenheiros Acúrcio Rodrigues e Pedro Manso Lefèvre. Aprendi o sentido de exigência com o Prof. Pedro Amaro. Aprendi a nunca desistir daquilo em que se acredita com o Prof. Vaz Portugal e com o Engenheiro Soveral Dias. Aprendi a considerar como a Ciência Agrária se pode tornar a excelência da Ciência em Portugal com o Prof. Miguel Melo e Mota. Aprendi como é possível em Portugal fazer essa Ciência de excelência, e até com alegria e enorme envolvimento, com o Doutor Manuel Bravo Lima. Aprendi como se faz escola científica, para durar muitas gerações, com os discípulos dos Mestres António de Sousa da Câmara e Joaquim Vieira Natividade. Aprendi com muitos outros tudo o que foram os meus alicerces da atividade científica. Aprendi com os meus colegas da minha geração e da minha Unidade como nada poderá derrubar aquilo que coletivamente construímos.
 
Assim, alguém duvida de que é indispensável haver e preservar a memória, numa instituição de investigação? Mesmo em toda a Administração Pública (isto é, na administração daquilo que é público, daquilo que é nosso)? Mesmo em tudo no nosso País?
Neste sentido, um muito importante facto positivo foi a publicação, há alguns meses, por ocasião do 75º aniversário da criação da Estação Agronómica Nacional (dramaticamente extinta, contudo, antes de cumpridos esses 75 anos), do livro "História e Memórias da Estação Agronómica Nacional - 75 anos de atividade", editado pelo INIAV e pela INCM (Imprensa Nacional – Casa da Moeda).
 
Um país sem memória está sempre a começar do zero! Um organismo sem memória está também sempre a começar do zero! E pode até nem conseguir arranjar energias para começar de novo...
Daí, a principal gravidade dos factos que citei. Penso que são apenas resultantes de incompetências e do "exercício de pequenos (muito pequenos mesmo) poderes", mas poderes pagos pelo erário público!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Investigação Agrária do Estado – um serviço descentralizado em Portugal!. Como as autarquias envolvidas encaram esta realidade


Investigação Agrária do Estado – um serviço descentralizado em Portugal!

Como as autarquias envolvidas encaram esta realidade
 
A.S. Curvelo-Garcia
(in CRISOPA; abril de 2013) 

Será necessário conhecer bem a história do INIA para poder entender a estrutura que lhe deu corpo durante décadas e o disparate “criminoso” que foi a destruição dessa estrutura em 2007. A ideia INIA (Instituto Nacional de Investigação Agrária) nasceu em 1974, logo a seguir ao 25 de Abril. Procurou-se então reunir numa só instituição o que havia disperso por todo o país em matéria de investigação agrária. Foi um percurso de alguns anos, iniciado com a Presidência do Professor Pedro Pereira Amaro. Nesse percurso, houve alguns erros que se cometeram, como seja o de associar instituições cujo papel essencial não era a investigação, erros que foram posteriormente corrigidos, colocando essas instituições nas Direções Regionais de Agricultura ou em outras estruturas mais adaptadas ao seu perfil. E assim, anos mais tarde, nasceu o INIA de Estações… localizadas onde existia já e há muito atividade de investigação.

Em Oeiras, onde estava localizada a entidade mãe da investigação agrária em Portugal – a Estação Agronómica Nacional (EAN). A par do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, do Instituto Nacional de Investigação Industrial e da Junta de Energia Nuclear, a EAN foi percursora da investigação em Portugal, muito à frente das Universidades.

Em Santarém (Fonte Boa, Vale de Santarém) onde, sucedendo a diversos organismos de experimentação na área da produção animal, nasceu a Estação Zootécnica Nacional (EZN), exemplarmente desenvolvida pela equipa criada pelo Professor Apolinário Vaz Portugal.

Em Lisboa, na Tapada das Necessidades, há alguns anos transferida para Oeiras, a Estação Florestal Nacional (EFN).

Em Elvas, a Estação Nacional de Melhoramento de Plantas (ENMP), sucedendo no INIA à anterior Estação de Melhoramento de Plantas, criação e continuação da EAN.

Em Dois Portos (Concelho de Torres Vedras), a Estação Vitivinícola Nacional (EVN), sucedânea do anterior Centro Nacional de Estudos Vitivinícolas, aproveitando e desenvolvendo as diversas competências científicas, laboratoriais e tecnológicas já instaladas, no âmbito vitivinícola.

Em Alcobaça, a Estação Nacional de Fruticultura de Vieira Natividade (ENFVN), sucedânea do anterior Centro Nacional de Estudos e Fomento da Fruticultura, organismo profundamente marcado pela enorme personalidade científica do Professor Joaquim Vieira Natividade.

Constituíram ainda importantes Unidades desse INIA a Estação Nacional de Tecnologia dos Produtos Agrários (ENTPA), sediada em Oeiras e em 1993 integrada na EAN, por ação da voragem das reestruturações da instituição ocorridas ao longo do tempo, e o Laboratório Químico-Agrícola Rebelo da Silva (LQARS), muito prestigiado organismo nacional, teoricamente extinto em 1993 (situação que, na prática, nunca veio a acontecer, por força da ação dos investigadores do INIA e da importância reconhecida a essa Unidade). Este último caso é bem um exemplo de como o poder político é incompetente quando pretende legislar contra a natureza das coisas e o querer das pessoas.

Esta é a explicação muito sumária das razões porque a investigação agrária do Estado, em Portugal, se encontra localizada nos Concelhos de Lisboa, Oeiras, Santarém, Elvas, Torres Vedras e Alcobaça.

É também uma explicação para a inconsequência das ações tomadas pelo poder político, designadamente desde 2007. Por isso destinadas a redundantes insucessos, como se verificou! Associando essas ações a outras medidas complementares, como seja a de colocar grupos científicos afins em diferentes polos geográficos, para “disfarçar” os erros cometidos, só veio ampliar o erro fundamental! No fundo, o erro derivou do total desconhecimento da realidade e da história e razão de ser das realidades…

Temos pois uma instituição com Unidades de Investigação de âmbito nacional, localizadas em diferentes Concelhos. Estamos pois perante uma situação pouco vulgar no nosso país: organismos do Estado sediados em Concelhos que não em Lisboa ou em outras grandes cidades!

Vejamos como as autarquias desses Concelhos, para além de Lisboa (onde está sediado o LQARS) têm lidado com essa realidade.

Há algum tempo que a Câmara Municipal de Oeiras se apercebeu da mais-valia que poderia haver para a própria autarquia no estabelecimento de parcerias com a EAN, designadamente no âmbito do Vinho de Carcavelos (onde foi de excelência o pioneirismo do INIA, da EAN à EVN) e da Quinta do Marquês. Algumas iniciativas têm sido tomadas, algumas mesmo de elevado impacto.

A Câmara Municipal de Santarém igualmente se apercebeu da importância do facto de a EZN se encontrar sediada no seu Concelho, em especial quando do ataque do Ministério da Agricultura ao INIA de Estações, em 2007 e nos anos subsequentes.

Nunca foi digno de grandes registos a importância dedicada pela Câmara Municipal de Elvas à localização da ENMP no seu Concelho até 2007, ano dessa tão nefasta reestruturação do INIA. Nessa “designada” reestruturação, que mais não foi que um violento ataque à investigação agrária do Estado, era proposto Elvas como sede do próprio INIA, numa “cosmética” de cariz nitidamente política, destinada a procurar compensar aquele Concelho de valores que lhe tinham sido retirados. Este logro, para a Cidade de Elvas e para o INIA, foi de tal ordem que nunca tal decisão, até hoje, teve qualquer expressão prática.

A Câmara Municipal de Torres Vedras nunca deu qualquer importância digna e notoriedade efetiva ao facto da EVN estar localizada no seu Concelho. Eu próprio e diversos colegas meus, funcionários durante muitos anos e até dirigentes desta Unidade, alertámos a autarquia para a necessidade e importância de ser a EVN vista e acarinhada de forma diferente, enquanto entidade nacional ali sediada, sem qualquer sucesso…

Também a Câmara Municipal de Alcobaça não tem dado uma importância digna e uma notoriedade efetiva ao facto da ENFVN estar sediada no seu Concelho. É uma realidade que eu próprio observei diretamente, quando fui dirigente desta Unidade, de 2000 a 2008. Observei sim tentativas da autarquia em denegrir a atividade desta Unidade e em pretender ocupar os seus espaços com outros fins.

Assim, entre tantos ataques que a Investigação Agrária do Estado tem sido vítima ao longo dos anos, permanece uma importante realidade: é uma instituição descentralizada, com setores, de âmbito nacional, sediados em diversos Concelhos, facto muito pouco vulgar entre nós. Felizmente, algumas autarquias o entenderam… Infelizmente, nem todas…

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Cape Town

No meu artigo deste blogue A OIV e a sua Comissão Nacional - 4 décadas de evolução, refiro, como uma das maiores recordações que tenho da minha atividade naquela organização internacional, a do meu querido colega Andries Tromp (da África do Sul) a apresentar a candidatura deste país para acolher o Congresso do OIV de 1996, pouco tempo depois da queda do sistema do apartheid: ainda hoje tenho na memória aquele enorme homem de quase 2 m de altura, com as lágrimas nos olhos e a voz embargada dirigindo-se às delegações de todos os estados-membros, convidando-os para irem ao Congresso do OIV no seu país, que tinha ultrapassado a vergonha racista e onde agora todos os homens eram simplesmente homens!
E em 1996 lá estive, com enorme emoção, a participar no Congresso da OIV em Cape Town, o que me proporcionou visitar aquela enorme e grandiosa metrópole.
O Congresso foi aberto pela Ministra da Agricultura da República Sul-Africana, num discurso marcado pela emoção de um país que nascia para o Mundo! Vi lágrimas em muitos olhos dos delegados de todos os países presentes...
A Cidade do Cabo (Cape Town) é a segunda maior cidade da África do Sul. É a capital legislativa do país, onde o Parlamento Nacional e muitos escritórios do governo estão localizados. A Cidade do Cabo é famosa pelo seu porto natural, incluindo os marcos bem conhecidos, como a Tábua do Cabo (ou Montanha da Mesa) e a Baía da Mesa. É o segundo maior núcleo urbano, financeiro e cultural do país, depois de Joanesburgo, cidade que, nessa altura, não consegui visitar, por força de muito exigentes normas de segurança que me foram impostas: nessa região, apenas pude visitar a cidade de Nelspruit e o monumental Parque Nacional Kruger.
A cidade em si é uma típica cidade africana, com as cores e os sabores que as distinguem das cidades de todo o Mundo!
Vi a Cidade do Cabo como um lugar diferente do que seria se a tivesse visitado poucos anos antes. Já não havia transportes para negros e para brancos, o hotel onde estava hospedado era para brancos e negros...
Num dos mais famosos momentos que ditaram o final do Apartheid, Nelson Mandela fez o seu primeiro discurso público em décadas, no dia 11 de Fevereiro de 1990, da varanda principal do edifício da Câmara Municipal da Cidade do Cabo, horas depois de ter sido libertado da prisão na ilha Robben. O seu discurso foi início de uma nova Era para o país, e as primeiras eleições livres foram levadas a cabo quatro anos depois, em 1994, no dia 27 de Abril.
Foi esta Cidade do Cabo que eu tive a honra de visitar em 1996, dois anos depois!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nelson Mandela

Nelson Rolihlahla Mandela é o mais importante líder político da África do Sul, que lutou contra o sistema de apartheid no país. Nasceu em 18 de julho de 1918 na cidade de Qunu (África do Sul). Licenciado em direito, foi presidente da África do Sul entre os anos de 1994 e 1999.

Ainda estudante de Direito, Mandela começou sua luta contra o regime do apartheid. Em 1942, entrou efetivamente para a oposição, ingressando no Congresso Nacional Africano, movimento contra o apartheid. Em 1944, participou da fundação, junto com Oliver Tambo e Walter Sisulu, da Liga Jovem do CNA.

Durante toda a década de 1950, Nelson Mandela foi um dos principais membros do movimento anti-apartheid.

Mandela sempre defendeu a luta pacífica contra o apartheid. Porém, sua opinião mudou em 21 de marco de 1960. Neste dia, policiais sul-africanos atiraram contra manifestante negros, matando 69 pessoas. Este dia, conhecido como “O Massacre de Sharpeville”, fez com que Mandela passasse a defender a luta armada contra o sistema.

Em 1961, Mandela tornou-se comandante do braço armado do CNA, conhecido como "Lança da Nação". Em 1962, foi preso e condenado a cinco anos de prisão, por incentivo a greves e viagem ao exterior sem autorização. Em 1964, Mandela foi julgado novamente e condenado a prisão perpétua por planejar ações armadas.

Mandela permaneceu preso de 1964 a 1990. Neste 26 anos, tornou-se o símbolo da luta anti-apartheid na África do Sul. Mesmo na prisão, conseguiu enviar cartas para organizar e incentivar a luta pelo fim da segregação racial no país.

Com o aumento das pressões internacionais, o então presidente da África do Sul, Frederik de Klerk solicitou, em 11 de fevereiro de 1990, a libertação de Nelson Mandela e a retirada da ilegalidade do CNA (Congresso Nacional Africano). Em 1993, Nelson Mandela e o presidente Frederik de Klerk dividiram o Prémio Nobel da Paz, pelos esforços em acabar com a segregação racial na África do Sul.

Em 1994, Mandela tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul. Governou o país até 1999, sendo responsável pelo fim do regime segregacionista no país e também pela reconciliação de grupos internos.

Com o fim do mandato de presidente, Mandela afastou-se da política dedicando-se a causas de várias organizações sociais em prol dos direito humanos.
 
Trata-se certamente de uma das mais importantes figuras do século XX, em prol dos direitos humanos e da Liberdade!
É certamente uma das figuras, em todo o Mundo, que mais fizeram pelo Homem!
 
 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Uns e os outros, na crise económica...

Em consequência da crise económica e financeira que tem assolado o nosso país, temos assistido ultimamente a ataques de grupos de pessoas contra outros grupos...  Vemos os mais jovens criticando e combatendo os mais velhos por terem direito a pensões de aposentação que eles, segundo pensam, nunca virão a ter... vemos os mais velhos criticando e combatendo os mais novos por não terem ainda história suficiente para terem opinião... Vemos os funcionários públicos e os trabalhadores do setor privado acusando-se mutuamente de terem mais regalias ou de estarem a ser mais poupados às medidas devastadoras impostas pelo Governo... Vemos também os trabalhadores no ativo e os pensionistas e reformados acusarem-se também mutuamente de terem mais regalias...
A divergência destas posições tem vindo a ser "preparada", ao longo dos últimos anos, pelos poderes, pelo atual governo e pelos anteriores...
Seja por exemplo no que se refere a ir criando a ideia, na comunidade, de que os funcionários públicos ganham muito e trabalham pouco... mas falando sempre em "funcionários públicos", nunca discriminando de que se tratam dos médicos e enfermeiros que estão nos hospitais a tratar da saúde de todos, ou de que se tratam dos professores que estão nas escolas, ou dos polícias que zelam pela nossa segurança, etc. Refere-se sempre apenas "funcionários públicos" para lhes retirar aqueles atributos que leva a comunidade a sentir a sua importância: a professora do seu filho, a empregada da escola que lhe abre a porta todas as manhãs, o médico que consultou no Centro de Saúde, o enfermeiro que o atendeu na Urgência do Hospital, etc...
Outra das ideias que tem sido "fabricada" ao longo dos anos é a que o sistema de segurança está em processo de falência, face ao aumento da esperança de vida dos portugueses: quase que se culpa a população por viver mais tempo do que devia!
Mas muito pouco se tem dito sobre as sucessivas alterações e atualizações das fórmulas de cálculo das pensões, com base nos múltiplos estudos dos especialistas na matéria, que têm assim vindo a recuperar esse eventual processo de falência.
Ouvindo alguns comentários governamentais, parece também haver um fosso entre o sistema geral da segurança social e o sistema da CGA (aplicado aos funcionários públicos): mas nada dizem sobre o verdadeiro fosso existente - no primeiro caso, a entidade patronal cofinancia a segurança social, a par dos trabalhadores, enquanto que no segundo caso são inúmeras as situações em que esse cofinanciamento não existe (o Estado, a entidade empregadora dos funcionários públicos, não cofinancia a par dos descontos dos funcionários).
Mas, no fundo, o que se passa é que os ataques aos direitos fundamentais dos trabalhadores e o "roubo" dos salários e pensões tem sido para todos esses grupos... jovens e idosos, trabalhadores no ativo e reformados e pensionistas, trabalhadores do setor público e do setor privado!

 Mas nem todos os portugueses têm sido objeto deste "roubo"... alguns até têm sido beneficiários desta situação de crise...
Que são senão beneficiários os autores de falências fraudulentas, os homens que levaram às situações críticas do BPN e do BANIF, originando "buracos" de muitos milhares de milhões de euros, a pagar pelos contribuintes (todos,  jovens e idosos, trabalhadores no ativo e reformados e pensionistas, trabalhadores do setor público e do setor privado), por omissão de responsabilidades ou até por cumplicidade dos poderes governamentais!

Assim, se há interesses opostos, não é entre  jovens e idosos, trabalhadores no ativo e reformados e pensionistas, trabalhadores do setor público e do setor privado, mas sim entre todos estes e os outros, os homens do irracional e desumano mundo financeiro!
 
 São a contradição dos interesses de UNS e os OUTROS!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Makers of scientific papers


Para além de Cientista,
um Homem
Vi há algum tempo um artigo de António Mexia (O Ensino da Engenharia Agronómica - que futuro?) na revista Ingenium, órgão da Ordem dos Engenheiros (número de maio/junho de 2012).
 
Cito uma passagem desse artigo:
Conto-vos dois exemplos
Em novembro foi publicado um paper na "Science" que apresentava a sequenciação do aranhiço vermelho das culturas agrícolas. São 21 autores. Estes serão os biotecnólogos, os da proteómica e da genómica de amanhã. Mas foi preciso pedir a um taxonomista português que dissesse "preto no branco" que o que tinham sequenciado era Tetranychus urticae. Não é autor, não é coautor e nem teve sequer direito a um agradecimento. Isto é a ciência de hoje e será a do futuro. Mas os sequenciadores que sequenciam genes nestes termos, que é assim que o fazem, precisam dos outros que sabem outras coisas, daqueles que estão em vias de extinção.
Dou-vos outro exemplo do meu Instituto. Um doutoramento isolou, caraterizou e guardou estirpes de bactérias lácticas dos bons queijos portugueses. Para quê? Para arranjar iscos, arranjar fermentos, para fazer melhores queijos, para dar à indústria. Publicou dois papers e teve enormes dificuldades na defesa do doutoramento. Ao lado, um colega pegou naquelas coleções e caraterizou-as genotipicamente. Publicou papers nas melhores revistas e é considerado um cientista de topo. Conseguirá ele dar algum isco aos queijeiros? Mas aquele é um cientista. São só dois exemplos dos tempos modernos.
 
António Mexia é Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia (Universidade Técnica de Lisboa) e foi Diretor da Estação Agronómica Nacional, a mega-Estação do INIA num momento em que eu era Diretor da Estação Vitivinícola Nacional, a mini-Estação daquele INIA.

Estou à vontade para falar deste assunto pois, durante a minha carreira científica, cerca de um quarto das publicações de que fui autor ou coautor (cerca de 50 em 200) o foram em revistas internacionais com painel de avaliação, tendo eu próprio sido diretor duma revista científica internacional por mais de uma década e tendo sido elemento do painel de avaliação de diversas outras.
Por outro lado, sempre tenho defendido que o valor e a verdade da investigação científica terá de ser permanentemente demonstrado pela publicação dos resultados em revistas credíveis, validados no seu impacto junto do meio científico.
Para demonstrar esta minha posição, que julgo que nem seria necessário, a seguir cito dois excertos do artigo deste meu blogue Cultura científica - aprender, inovar, divulgar, cooperar

- Um dos parâmetros mais intrínsecos da atividade científica é a divulgação dos novos conhecimentos obtidos, devendo ter como primeiro e principal alvo a restante comunidade científica, e como principal meio a publicação desses novos conhecimentos em revistas científicas. Evidentemente que não excluem tais factos a importância da complementaridade com outros públicos-alvo (os utilizadores dos avanços da ciência e mesmo a comunidade em geral) e com outras formas de divulgação (outros tipos de publicações, o ensino, a apresentação de resultados em manifestações científicas e técnicas, colóquios). Mas hoje (e sempre foi assim), em Ciência, "resultados não divulgados em publicações científicas não existem !".

- A necessidade de, perante a nossa instituição, perante a nossa equipa e perante nós próprios, tomarmos as necessárias medidas para salvaguardar quer a originalidade dos resultados conseguidos quer a sua eventual adulteração: e o caminho eficaz é a sua publicação em revistas credenciadas (que não é exatamente o mesmo que "revistas com elevado poder de impacto"). A elevada competitividade existente no mundo científico abre caminho à possibilidade de meios menos claros ou mesmo eivados de desonestidade profissional.

Considero pois que um dos pilares essenciais em que assenta a atividade de investigação científica é o da publicação dos seus resultados em revistas credenciadas e avaliados pelos pares.
Mas isto não significa, não pode significar que a atividade científica se resuma a isso... 
O dever do investigador é fazer investigação, divulgando os resultados que vai alcançando... e divulgando-os para a sociedade, incluindo aqui o meio científico, os seus pares, portanto publicando em revistas científicas credenciadas.
Mas não deverá é fazer desses seus artigos científicos o exclusivo da sua atividade. Deverá também interagir com a sociedade civil, com o setor produtivo, no caminho da sua investigação. Deverá também partilhar o seu conhecimento com os seus alunos, com os seus pares, ensinando em partilha!
Que melhor prémio poderá um investigador ter do que ver o seu trabalho refletido na obtenção de um novo produto, de uma nova tecnologia, de uma nova metodologia? Certamente muito mais importante do que o seu CV recheado de inúmeros papers publicados em proeminentes revistas internacionais.