A Ciência e o sector vitivinícola
A OIV e a sua Comissão Nacional - quatro décadas de evolução (Artigo nº 39)
Cultura na Ciência (Artigo nº 36)
Como vai a nossa Universidade (Artigo nº 35)
Como o vinho é visto e falado (Artigo nº 26)
A Investigação Científica não é uma despesa, é um investimento! (Artigo nº 22)
Geração após geração, cresce a Ciência e o conhecimento do Mundo! (Artigo nº 20)
Os vinhos DOC da zona de Lisboa (Artigo nº 16)
A aplicação da Ciência que se produz (Artigo nº 8)
Relação da Ciência com os poderes (Artigo nº 4)
Cultura científica – Aprender, inovar, divulgar, cooperar (Artigo nº 2)
As cidades da minha vida
Santiago do Chile (Artigo nº 42)
Jerusalém, Istambul e Cairo - a História milenar às portas da Europa... (Artigo nº 41)
Buenos Aires (Artigo nº 37)
Rio de Janeiro (Artigo nº 32)
De Atenas às ilhas gregas do Mediterrâneo (Artigo n° 31)
Belo Horizonte... Minas Gerais (Artigo nº 28)
Porto (Artigo nº 21)
Paris (Artigo nº 19)
Lisboa (Artigo nº 15)
Portalegre (Artigo n º 14)
Elvas (Artigo nº 13)
As cidades da minha vida (Artigo nº 12)
Figuras
Xanana Gusmão (Artigo nº 43)
Zeca Afonso (Artigo nº 40)
Chico Xavier (Artigo nº 33)
Portugueses que me fazem sentir orgulho de ser português - Aristides de Sousa Mendes e Alípio de Freitas(Artigo n° 30)
Charlie Chaplin (Artigo nº 27)
De Cunhal a Soares e a Sá Carneiro (Artigo nº 23)
O Homem Novo (Artigo nº 18)
Alguns amigos especiais (Artigo nº 11)
José Régio (Artigo nº 6)
João Tavares – de aguarelista a cartonista… e as tapeçarias de Portalegre (Artigo nº 3)
Luís da Silva Campos (Artigo nº 1)
Opiniões de cidadania
O acordo ortográfico (Artigo nº 38)
A arte existe porque a vida só não basta (Artigo nº 34)
Saber ler (Artigo nº 29)
Apelido COMPETÊNCIA, nome MULHER (Artigo nº 25)
O Serviço Nacional de Saúde (Artigo nº 24)
A importância da Cultura na Vida. O papel do AMICITIA-Grupo Cultural de Portalegre (Artigo nº 17)
Felizmente havia luar... (Artigo nº 10)
Do fim da ditadura ao princípio da Democracia (Artigo nº 9)
Viva a República (Artigo nº 7)
Não podemos ficar indiferentes (Artigo nº 5)
Curvelo-Garcia
Bem-vindo!
Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...
Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt
Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt
Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Xanana Gusmão
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| Xanana Gusmão |
Xanana Gusmão (José Alexandre Gusmão) nasceu em Laleia, Manatuto, Timor Leste (então colónia portuguesa) em 20 de junho de 1946. Frequentou um colégio jesuíta, nos arredores de Dili. Aos 15 anos saíu do colégio, por motivos financeiros familiares, continuando os estudos numa escola noturna e exercendo diversas profissões não qualificadas. Durante o governo português em Timor Leste, de 1966 a 1968, foi funcionário do Departamento de Silvicultura e Agricultura. Em 1968 foi encorporado no exército português, onde esteve durante três anos, conforme o que se passava na altura com todos os jovens em Portugal e nas suas colónias: Portugal mantinha a guerra colonial em diversas frentes!
Em 1971, ingressou numa organização nacionalista encabeçada por José Ramos-Horta; até 1974, esteve ativamente envolvido em protestos pacíficos dirigidos ao sistema colonial.
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| Fretilin na clandestinidade |
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| Timor Leste |
Em novembro de 1991, teve lugar em Dili o tristemente célebre massacre no cemitério de Santa Cruz, onde as tropas indonésias mataram mais de 200 jovens. O Comandante-em-chefe das forças armadas indonésias General Try Sutrisno acusou publicamente Xanana de ter sido o responsável por este massacre. Xanana tornou-se mesmo o alvo principal do governo indonésio. Em novembro de 1992, Xanana foi preso em Díli por militares indonésios, tendo sido condenado a prisão perpétua, em maio do ano seguinte, pelos tribunais indonésios em Díli. Poucos meses depois, o governo indonésio enviou Xanana para uma prisão política em Semarang (Java Central) e no final de 1993 para outra prisão política (prisão de Cipinang, em Jacarta).
No julgamento, ele próprio realizou a sua própria defesa... o que foi possibilitado por um extraordinário ato de heroísmo e de enorme inteligência: encenou um "falso arrependimento" por ter lutado por um Timor independente e contra a Indonésia, o que permitiu que, no julgamento, pudesse falar para todo o Mundo em nome dum Timor livre e independente, tendo como resultado um enorme impacto mediático internacional em favor da libertação e independência de Timor.
Em consequência, no início de 1994, depois de crescente pressão internacional, o presidente Suharto, da Indonésia, reduziu a sentença de Xanana para 20 anos de prisão. A Resistência timorense continuou a reconhecer Xanana como líder da Resistência, estando embora preso. Conduziu com sucesso a resistência dentro da prisão, tendo sido visitado por representantes das Nações Unidas e por diversas personalidades, como por exemplo Nelson Mandela.
Em 30 de agosto de 1999, foi realizado um referendo em Timor Leste, tendo uma esmagadora maioria votado pela independência. Os militares indonésios iniciaram então uma campanha de terror, de terríveis consequências. Como resultado duma esmagadora pressão diplomática das Nações Unidas, promovida por Portugal e também pelos Estados Unidos e pela Austrália, a ONU instalou uma força internacional de manutenção da paz (INTERFET), liderada pela Austrália. Xanana, após o retorno à sua terra natal, começou uma campanha de reconciliação e de reconstrução.
Xanana foi nomeado pela ONU para um papel primordial na administração internacional que governou Timor Leste até 20 de Maio de 2002. Durante esse tempo, sempre lutou pela unidade e paz dentro de Timor Leste, tendo sido universalmente considerado como o líder de facto deste novo país. As primeiras eleições foram realizadas no final de 2001 e Xanana, apoiado por nove partidos, mas não pela Fretilin, concorreu como independente e foi confortavelmente eleito líder. Como resultado, tornou-se no primeiro presidente de Timor Leste, quando se tornou formalmente independente em 20 de maio de 2002.
Em 2007, recusou-se a concorrer às eleições presidenciais para outro mandato, tendo sido eleito José Ramos-Horta. Em junho de 2007, Xanana foi primeiro nome da lista do CNRT (Congresso Nacional de Reconstrução Timorense) que obteve 24,1% dos votos, ingressando assim no Parlamento. O CNRT, aliado a outros partidos, constituíu uma maioria parlamentar, com mais deputados que a Fretilin. Xanana Gusmão tornar-se-ia primeiro-ministro em 8 de agosto, empossado pelo Presidente Ramos-Horta no palácio presidencial em Díli.
O seu percurso político foi ainda marcado, em 2008, por uma tentativa de golpe de estado, numa ação em que o Presidente Ramos-Horta ficou seriamente ferido.
No julgamento, ele próprio realizou a sua própria defesa... o que foi possibilitado por um extraordinário ato de heroísmo e de enorme inteligência: encenou um "falso arrependimento" por ter lutado por um Timor independente e contra a Indonésia, o que permitiu que, no julgamento, pudesse falar para todo o Mundo em nome dum Timor livre e independente, tendo como resultado um enorme impacto mediático internacional em favor da libertação e independência de Timor.
Em consequência, no início de 1994, depois de crescente pressão internacional, o presidente Suharto, da Indonésia, reduziu a sentença de Xanana para 20 anos de prisão. A Resistência timorense continuou a reconhecer Xanana como líder da Resistência, estando embora preso. Conduziu com sucesso a resistência dentro da prisão, tendo sido visitado por representantes das Nações Unidas e por diversas personalidades, como por exemplo Nelson Mandela.
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| Xanana, líder da Resistência Timorense |
Xanana foi nomeado pela ONU para um papel primordial na administração internacional que governou Timor Leste até 20 de Maio de 2002. Durante esse tempo, sempre lutou pela unidade e paz dentro de Timor Leste, tendo sido universalmente considerado como o líder de facto deste novo país. As primeiras eleições foram realizadas no final de 2001 e Xanana, apoiado por nove partidos, mas não pela Fretilin, concorreu como independente e foi confortavelmente eleito líder. Como resultado, tornou-se no primeiro presidente de Timor Leste, quando se tornou formalmente independente em 20 de maio de 2002.
Em 2007, recusou-se a concorrer às eleições presidenciais para outro mandato, tendo sido eleito José Ramos-Horta. Em junho de 2007, Xanana foi primeiro nome da lista do CNRT (Congresso Nacional de Reconstrução Timorense) que obteve 24,1% dos votos, ingressando assim no Parlamento. O CNRT, aliado a outros partidos, constituíu uma maioria parlamentar, com mais deputados que a Fretilin. Xanana Gusmão tornar-se-ia primeiro-ministro em 8 de agosto, empossado pelo Presidente Ramos-Horta no palácio presidencial em Díli.
O seu percurso político foi ainda marcado, em 2008, por uma tentativa de golpe de estado, numa ação em que o Presidente Ramos-Horta ficou seriamente ferido.
Em 1999, Gusmão foi galardoado com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento. Em 2000, foi premiado com o Nobel da Paz de Sydney, considerado como "líder corajoso e de princípios para a independência do povo timorense". Também em 2000, ganhou o primeiro Prémio Gwangju para os Direitos Humanos, criada para homenagear "os indivíduos, grupos ou instituições na Coreia e no exterior que têm contribuído na promoção e avanço dos direitos humanos, democracia e paz através de seu trabalho". Em 2002, foi galardoado com o Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa. Xanana Gusmão é ainda um eminente membro do Sérgio Vieira de Mello Foundation.
Foi esta enorme personalidade que guiou o povo timorense à independência, sempre com total respeito pelos direitos humanos, mesmo os dos seus inimigos, que decidi agora aqui homenagear.
Um dos aspetos que mais me tocou foi o de ter encenado uma cena de arrependimento por estar ligado aos movimentos de libertação de Timor, o que levou a que tivesse sido julgado sob grandes holofotes da comunicação social internacional, e aproveitando esse facto para alertar o Mundo para o sofrimento do povo timorense e a inevitabilidade da independência desta pátria.
Homenagear Xanana e a sua coragem é homenagear Timor e o seu grande e mártir povo!
Ouçamos a homenagem dos Trovante...
Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
Foi esta enorme personalidade que guiou o povo timorense à independência, sempre com total respeito pelos direitos humanos, mesmo os dos seus inimigos, que decidi agora aqui homenagear.
Um dos aspetos que mais me tocou foi o de ter encenado uma cena de arrependimento por estar ligado aos movimentos de libertação de Timor, o que levou a que tivesse sido julgado sob grandes holofotes da comunicação social internacional, e aproveitando esse facto para alertar o Mundo para o sofrimento do povo timorense e a inevitabilidade da independência desta pátria.
Homenagear Xanana e a sua coragem é homenagear Timor e o seu grande e mártir povo!
Ouçamos a homenagem dos Trovante...
Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Santiago do Chile
Visitei Santiago do Chile em 1997, num curto período de três dias. As suas ruas e praças são bem o tipo das de outras cidades da América do Sul, muito movimentadas e com um enorme ruído, mas um ruído que não nos incomoda e nos convida a partilhar aquela grande vida urbana...
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| Valparaíso |
Em Santiago, há duas grandes particularidades de cor e de paisagem... Uma é a permanente visão dos Andes, "aquele muro de milhares de quilómetros de altura" que divide o Chile do resto do continente. Outra é a enorme confusão de "amarelos" num trânsito automóvel que parece não parar durante as 24 horas do dia: os taxis e os autocarros urbanos são todos amarelos!
Do Chile, pouco mais conheci que Santiago... os milhares de quilómetros de norte a sul me impediram de conhecer mais em tão pouco tempo... mas a sua reduzida largura ainda me permitiu que fizesse uma breve visita ao Pacífico (Viña del Mar e Valparaiso).
Mas foi em Santiago onde mais demorei: teria que ver ao máximo a cidade tão bem descrita por Pablo Neruda e tão sacrificada nos tempos da ditadura de Pinochet!
Um dos dias que estive em Santiago coincidiu com a data do aniversário desse sanguinário ditador Augusto Pinochet, já fora do poder mas ainda vivo! Estava agendada uma manifestação de apoio, por parte de senhoras de família já saudosas dessa sinistra figura... E estavam igualmente agendadas manifestações contra o ditador, por parte de diversas organizações de esquerda e de defesa dos direitos humanos.
A certa altura, estava eu na rua, comecei a ouvir e posteriormente a ver uma fortíssima carga de polícia de choque, com petardos, cães-polícia e tiros, contra tudo o que mexesse!
Que recordações, pelas piores razões, do Portugal dos anos 60 e dos princípios dos anos 70!
Para sair daquela zona, meti-me num taxi... ao taxista apenas disse: leve-me daqui para qualquer lado. O taxista era brasileiro e recordo-me de o ouvir dizer: a ditadura, dizem, já terminou, mas eu acho que não... os militares e as figuras da ditadura continuam por aí, em cargos importantes! Era o povo que falava, mas sempre acertadamente.
Claro que tive de ir ver o tristemente célebre Palacio de la Moneda, em Santiago... onde, cobardemente, o regime legítimo de Salvador Allende, democraticamente eleito, foi sangretamente destruído pelo capital internacional e pelos "donos" das suas minas de cobre e de tantas riquezas deste país, sob o comando do então governo dos Estados Unidos e do beneplácito das ditas democracias europeias.
Vejamos duas fotos do Palacio de la Moneda, quando atingido pelo cobarde ataque em 1973 e quando o conheci, em 1997 (ainda bem decorado com as marcas dos projeteis de que foi alvo).
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Que recordações, pelas piores razões, do Portugal dos anos 60 e dos princípios dos anos 70!
Para sair daquela zona, meti-me num taxi... ao taxista apenas disse: leve-me daqui para qualquer lado. O taxista era brasileiro e recordo-me de o ouvir dizer: a ditadura, dizem, já terminou, mas eu acho que não... os militares e as figuras da ditadura continuam por aí, em cargos importantes! Era o povo que falava, mas sempre acertadamente.
Claro que tive de ir ver o tristemente célebre Palacio de la Moneda, em Santiago... onde, cobardemente, o regime legítimo de Salvador Allende, democraticamente eleito, foi sangretamente destruído pelo capital internacional e pelos "donos" das suas minas de cobre e de tantas riquezas deste país, sob o comando do então governo dos Estados Unidos e do beneplácito das ditas democracias europeias.
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| Palacio de la Moneda, sob o ataque, no golpe fascista (1973) |
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| Palacio de la Moneda, em 1997 |
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Foi este o Chile que eu adoro, e que queria aqui homenagear muito simplesmente... e homenagear de duas formas: com um poema de José Carlos Ary dos Santos e com uma carta, em vídeo de um grande chileno enviada aos americanos por ocasião do "segundo trágico 11 de Setembro"!
Aqui fica o poema de José Carlos Ary dos Santos, Homenagem ao Povo do Chile:
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro
Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.
Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro
Alguns traziam no rostoum rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro
Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso ps que ontém caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro
E a carta (em vídeo) de Pablo, aquele grande chileno, dirigida ao povo dos Estados Unidos, lembrando-lhes que o sofrimento do seu 11 de Setembro (de 2001) em Nova York não poderá esquecer o sofrimento do povo chileno, em outro 11 de Setembro, este em 1973, onde foi tão importante e decisivo o papel do então governo dos Estados Unidos...
Que nunca se esqueça,,,
Viva o Chile, os seus poetas e o seu Povo!
Que nunca se esqueça,,,
Viva o Chile, os seus poetas e o seu Povo!
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
Jerusalém, Istambul e Cairo - a História milenar às portas da Europa...
Jerusalém, Istambul e Cairo são certamente, das cidades que conheço, as que mais nos transmitem a magnificente História de culturas milenares.
Cidades não europeias, mas às portas da Europa, embora parte de Istambul esteja no continente europeu. É a Ásia e a África às portas da Europa, com uma profundíssima ligação à História da cultura europeia.
Evidentemente que, quando refiro as cidades me refiro também à sua envolvência geográfica e cultural... Quando me refiro a Jerusalém, falo também do Vale do rio Jordão, do lago Tiberíades e do Mar Morto, dos atuais Estados de Israel, do Líbano, da Síria, da Jordânia e da Palestina.
Quando falo de Istambul, estou também a referir-me a Bizancio e à antiga e nobre Constantinopla, à sede do antigo Império Otomano e à atual nação turca. Quando me refiro à cidade do Cairo, estou evidentemente a falar de toda a História das culturas que floresceram nas margens do grande rio Nilo.
Destas cidades, a primeira que visitei foi Jerusalém, em 1985. Percorri igualmente a costa mediterrânica, de Telaviv a Haifa, o lago de Tiberíades e o Vale do Jordão até ao Mar Morto. Estava no início a denominada intinfada, a "guerra das pedras".
O que mais retenho dessa viagem é o seguinte:
- O estilo de vida bem americano nas cidades nas margens do lago, com vista para os Montes Golan, na outra margem, e a tão curta distância da Síria e do Líbano, países em guerra quase permanente com Israel.
- A total ocupação por Israel do Estado Palestiniano, ainda não reconhecido internacionalmente nesses tempos (recordo, por exemplo, a escolta que tive nas "visitas turísticas" que fiz a cidades como Belém e Hebron, na altura anexadas a Israel).
- A disputa ao metro quadrado dos turistas nos principais locais religiosos, por parte dos judeus, dos muçulmanos e dos cristãos (católicos, protestantes, ortodoxos gregos, ortodoxos russos, ...): isto sobretudo em Jerusalém, centro das três grandes religiões Abrahamicas (monoteístas) do Mundo (Judaismo, Islamismo e Cristianismo), mas também em Nazareth e Belém.
- A completa e gradual mudança de paisagem, percorrendo o Jordão de norte para sul, desde os campos verdejantes e de avançada agricultura na região do lago Tiberíades aos desertos do sul. E o avanço da agicultura desenvolvida vai crescendo ano após ano, graças ao enorme investimento feito na investigação agrária como fator de progresso: como me tenho servido deste exemplo ao longo da minha carreira profissional, quando vejo como os poderes em Portugal têm desprezado esta realidade!
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| Belém |
Mas, de facto, é espetacular o que se aprende de História ao andar nestas paragens, especialmente deabulando pelas ruas de Jerusalém.
Jerusalém, a terceira cidade santa para o Islamismo. Jerusalém, a cidade santa do Cristianismo, onde Jesus Cristo foi crucificado em 33 DC, segundo o Novo Testamento. Para o Judaismo, de acordo com o Velho Testamento, Jerusalém é a cidade onde o Rei David estabeleceu o Reino Unido de Israel em 1000 AC e onde se construíu o "primeiro Templo": vem desta fortíssima impressão que tive em 1985 a principal razão do nome do meu filho nascido em 1988... David.
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| Istambul |
Quase duas décadas depois de ter visitado Jerusalém, em 2002 visitei Istambul, bem como diversas outras regiões e cidades da Turquia atual, mas o que mais retenho desta visita é certamente esta maravilhosa e muticultural cidade do estreito do Bósforo: a Bizâncio e a Constantinopla de tantos Impérios que moldaram a Europa e o Médio Oriente durante séculos! É uma maravilha atravessar, numa tarde de sol, o estreito do Bósforo, que divide a cidade mas que une a Europa e a Ásia (Anatólia).
Desta visita a Istambul e a toda a Turquia, recordo também o fascínio pela construção da República da Turquia moderna, com a obra do seu principal fundador Mustafa Kemal Ataturk, revolucionário, lider do movimento nacional turco para a independência e fundação da República moderna, com um programa de profundas reformas políticas, sociais, económicas e culturais; baseou a sua ação política na de um homem de elevada cultura e escritor. Foi o primeiro Presidente da República Turca moderna. O seu grandioso mausoléu, em Ankara, faz-nos refletir sobre como pode a força anímica dum homem de cultura transformar um poderoso Império e a História da Humanidade.
Outra das mais importantes recordações que retenho desta visita é a que resulta do que pude observar, em diversas ocasiões, duma tão íntima convivência entre culturas tão diversificadas... do Islão (claramente dominante) ao Judaismo e ao Cristianismo... Para verificar esta realidade, basta uma simples visita ao Grande Bazar de Istambul. Nunca tal intimidade vi nos países de cultura islâmica que conheci até hoje... nem, claro, em Israel ou nos diversos países de cultura cristã. Penso que será esta realidade que poderá vir a possibilitar um dia a adesão da Turquia à União Europeia, como tanto o povo turco deseja e como tanto me pediram para transmitir à Europa a que pertenço, como se eu tivesse alguma influência nessa matéria (em qualquer dos casos aqui fica esse apelo!!).
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| Mausoléu de Ataturk (Ankara) |
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| Istambul - Grande Bazar |
Em 2008, visitei o Cairo e todo o Vale do rio Nilo até Assuão. Certamente que a maior impressão que retenho é a de mais de 5 000 anos de História com que nos confrontamos permanentemente, chocando o reduzido cuidado colocado na sua conservação...
A par desta beleza milenar (ver o vídeo que apresento no final deste artigo), onde se fica absolutamente "abafado" com a grandiosidade das obras arquitetónicas e escultóricas (destaco, nesta ótica, as pirâmides de Gizeh, a Esfinge e Abu Simbel), é a beleza do rio Nilo, com os seus milhares de quilómetros serpenteando no deserto e com uma reduzida e incipiente agricultura nas suas margens: para além dumas centenas de metros da margem, é de novo o interminável deserto!
Estive no Egito em 2008, portanto bem antes da queda do regime de Mubarak.
| Policiamento permanente nos navios ancorados nas margens do Nilo |
Não presenciei grandes efeitos nas ruas desse regime ditatorial (aliás, as ditaduras escondem sempre esses efeitos aos estrangeiros... como acontecia no Portugal de Salazar, na Espanha de Franco ou no Brasil da ditadura militar). As principais exceções seriam a muita miséria visível nas ruas e o forte policiamento existente nos locais de maior concentração de turistas. Por exemplo, o navio em que fiz o cruzeiro ao longo do Nilo estava permanentemente guardado pela polícia e a viagem que fiz de Assuão - Abu Simbel - Assuão foi feita numa caravana automóvel de muitas dezenas de viaturas, fortemente escoltada pela polícia.
Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
Zeca Afonso
Não pretendo fazer aqui uma biografia de José Afonso, esta figura ímpar da música popular portuguesa!
Mas tinha evidentemente de o colocar nas "minhas FIGURAS" deste blogue: pertenço a uma geração que Zeca ensinou a lutar...
Não resisto contudo a transcrever esta "memória" a que tive acesso:
Mas tinha evidentemente de o colocar nas "minhas FIGURAS" deste blogue: pertenço a uma geração que Zeca ensinou a lutar...
Não resisto contudo a transcrever esta "memória" a que tive acesso:
Memórias de uma aula no Liceu de Setúbal
Barreiro, 4 de Outubro de 1967
Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar
beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram
3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com
saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar
e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser
mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém
de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º
34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é
o lugar dos mais altos.
Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos
um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal,
dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e
contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente
uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não
sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês
contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo
revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz
que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser
comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando
entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite
da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine
na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui
parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também
não vos vou chatear
Barreiro, 4 de Outubro de 1967
Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar
beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram
3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com
saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar
e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser
mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém
de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º
34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é
o lugar dos mais altos.
Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos
um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal,
dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e
contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente
uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não
sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês
contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo
revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz
que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser
comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando
entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite
da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine
na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui
parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também
não vos vou chatear
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada
com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as
primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam
a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que
já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o
rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes
não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um
homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter
uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das
primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto,
rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em
silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala,
impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar
uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo
conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma
algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer
professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas
ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se
importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto
esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se,
efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em
pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:
- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo
dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano
passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.
- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas
disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não
tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma
matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui
desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em
palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele
ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto,
calmo, simpático.
- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas
absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem
interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha
passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse,
como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de
pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de
falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que
nos governa é uma ditadura desumana e cruel.
com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as
primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam
a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que
já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o
rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes
não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um
homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter
uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das
primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto,
rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em
silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala,
impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar
uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo
conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma
algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer
professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas
ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se
importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto
esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se,
efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em
pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:
- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo
dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano
passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.
- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas
disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não
tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma
matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui
desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em
palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele
ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto,
calmo, simpático.
- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas
absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem
interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha
passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse,
como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de
pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de
falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que
nos governa é uma ditadura desumana e cruel.
Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o
sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e
nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que
ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as
devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se
sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo
branco, que se sente mas não se apalpa.
- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho
leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.
Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque,
no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º
ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um
onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria
e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que
lutar por um novo país.
Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,
basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale
nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida,
mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão
ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que
nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão,
educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os
privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela
nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país,
carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou
abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou
ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses
de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e
cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm
que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do
vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma
falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem
os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é
com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem
trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que
devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim
porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais
velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que
mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos
com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar
princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e
mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que
fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e
nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que
ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as
devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se
sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo
branco, que se sente mas não se apalpa.
- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho
leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.
Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque,
no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º
ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um
onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria
e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que
lutar por um novo país.
Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,
basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale
nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida,
mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão
ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que
nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão,
educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os
privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela
nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país,
carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou
abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou
ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses
de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e
cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm
que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do
vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma
falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem
os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é
com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem
trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que
devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim
porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais
velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que
mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos
com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar
princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e
mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que
fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de
Organização Política, chama-se Zeca Afonso.
(autor anónimo)
Organização Política, chama-se Zeca Afonso.
(autor anónimo)
Mas a melhor homenagem que poderia fazer aqui ao Zeca era contribuir para levar a sua música e a sua luta a ainda mais pessoas, se tal fosse possível...
Sobretudo aos jovens... de Portugal ou de qualquer outro país onde haja opressão (haverá algum país onde não haja?)
Sobretudo aos jovens... de Portugal ou de qualquer outro país onde haja opressão (haverá algum país onde não haja?)
Também hoje continuam os vampiros a sugar o sangue fresco da manada...
E como tudo isto é bem atual...
Também hoje, quando a corja topa da janela, como Zeca nos alertava, o que faz falta é avisar a malta|
Zeca que, com a sua Grândola, vila morena, imortalizou musicalmente a Revolução dos Cravos
Até sempre ZECA AFONSO
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
A OIV e a sua Comissão Nacional - 4 décadas de evolução
Tomei contacto com a atividade do OIV, organização intergovernamental sobre a Vinha e o Vinho (Office International de la Vigne et du Vin, mais recentemente Organisation Internationale de la Vigne et du Vin - www.oiv.int) em 1970, quando fui encarregue de preparar o relatório português ao Congresso da Argentina, sobre a aplicação das técnicas de Cromatografia Gasosa ao estudo dos aromas de mostos, vinhos e aguardentes: o texto foi posteriormente publicado (Curvelo Garcia A.S., Simões A.M., 1972. Utilização da cromatografia em fase gasosa no estudo dos aromas dos vinhos e das aguardentes, De Vinea et Vino Portugaliae Documenta, II – 6 (1): 1-25), pois a comunicação que escrevi foi apresentada com os nomes de outros autores (longe ainda estavam os princípios de decoro e de direitos de autoria e de uma salutar vivência no âmbito da participação de Portugal nesta organização).Década e meia depois, em 1984, integrei a delegação portuguesa à 64ª Assembleia Geral do OIV (Póvoa do Varzim, Portugal), onde me comecei a aperceber da necessidade de ter que se inverter o estado provinciano e amador como a representação nacional era assegurada nessa organização.
De então para cá, integrei diversas outras delegações portuguesas a Assembleias Gerais e Congressos do OIV, sempre com apresentação de Conferências nacionais ou convidadas e Comunicações, e já numa completamente diferente forma de se entender a participação de Portugal: 1992 (Madrid e La Rioja, Espanha), 1993 (San Francisco, California, USA), 1994 (Paris, França), 1995 (Punta del Este, Uruguai), 1996 (Cape Town, África do Sul), 1997 (Buenos Aires, Argentina), 1998 (Lisboa, Portugal, integrando a Comissão Organizadora e presidindo à respetiva Comissão Científica local), 1999 (Mainz, Alemanha), 2000 (Paris, França), 2001 (Adelaide, Austrália), 2002 (Bratislava, Eslováquia), 2003 (Paris, França), 2006 (Logroño, Espanha), 2008 (Verona, Itália), 2009 (Zagreb, Croácia) e 2011 (Porto, Portugal, presidindo à respetiva Comissão Científica).
De então para cá, integrei diversas outras delegações portuguesas a Assembleias Gerais e Congressos do OIV, sempre com apresentação de Conferências nacionais ou convidadas e Comunicações, e já numa completamente diferente forma de se entender a participação de Portugal: 1992 (Madrid e La Rioja, Espanha), 1993 (San Francisco, California, USA), 1994 (Paris, França), 1995 (Punta del Este, Uruguai), 1996 (Cape Town, África do Sul), 1997 (Buenos Aires, Argentina), 1998 (Lisboa, Portugal, integrando a Comissão Organizadora e presidindo à respetiva Comissão Científica local), 1999 (Mainz, Alemanha), 2000 (Paris, França), 2001 (Adelaide, Austrália), 2002 (Bratislava, Eslováquia), 2003 (Paris, França), 2006 (Logroño, Espanha), 2008 (Verona, Itália), 2009 (Zagreb, Croácia) e 2011 (Porto, Portugal, presidindo à respetiva Comissão Científica).
Contudo, a minha mais intensa atividade junto do OIV foi, como seria evidente e lógico, no âmbito da minha especialidade (Métodos de Análise de vinhos e outros produtos de origem vitícola). Participei assim em diversas das reuniões anuais da sua Subcomissão Convencional de Métodos de Análise e de Apreciação de Vinhos, em Paris, integrando a delegação portuguesa de 1982 a 1990 e presidindo à mesma de 1991 a 2003. Desempenhei as funções de 2º Vice-Presidente desta Subcomissão de 1992 a 1997 e de 1º Vice-Presidente de 1998 a 2003, integrando assim o Conselho Científico e Técnico desta organização internacional.
Durante este tempo, fui acompanhado nas atividades da representação portuguesa junto do OIV por diversos colegas, assistindo a um profundo aumento qualitativo dessa representação; num dado momento, chegou Portugal a estar representado por quatro elementos no Conselho Científico e Técnico (eu próprio, como já disse, Luís Carneiro, Secretário Científico da Comissão de Viticultura, Olga Laureano, Presidente do Grupo de Peritos de Formação e Luís Gusmão Rodrigues, Presidente do Grupo de Peritos de Mercados Vitivinícolas; mais tarde, também Amadeu Peixoto de Menezes, Presidente da Comissão de Nutrição e Saúde, Paulo Barros, ainda hoje Secretário Científico da Subcomissão de Métodos de Análise e Luís Peres de Sousa, também ainda hoje Presidente da Subcomissão de Produtos não Fermentados da Vinha.
Também esse enorme aumento qualitativo da representação portuguesa junto dessa organização intergovernamental conduziu a que, pela primeira e única vez, fosse eleito um Presidente português (Fernando Bianchi de Aguiar, 1997-1999) e que fossem universalmente considerados grandes sucessos os Congressos OIV de 1998 (Lisboa) e de 2011 (Porto).
Foi de facto enorme o salto qualitativo verificado na atividade da representação portuguesa junto do OIV, desde os primeiros tempos em que eu a conheci (décadas de 70 e 80) até à atualidade...
Foi um trabalho coletivo, iniciado com a reestruturação do Conselho Técnico e Científico da CNOIV (Comissão Nacional do OIV), pelo Despacho de 1991-02-20 do Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação, logo com a concretização do Forum sobre os vinhos licorosos portugueses (realizado em 1991, no Porto, na Régua e no Funchal). Posteriormente, foi esta estrutura melhorada e atualizada, com diversas medidas regulamentares (despacho de 1992-04-27 do Secretário de Estado dos Mercados Agrícolas e da Qualidade Alimentar; despacho de 1996-03-13 do Secretário de Estado da Produção Agroalimentar; despacho normativo nº 22/2009 de 2009-06-02 do Secretário de Estado Adjunto, da Agricultura e das Pescas).
Um aumento tão significativo verificado na presença portuguesa junto de uma organização intergovernamental de base científica, como é a OIV, resulta da junção de diversos fatores:
a) Uma conveniente e atempada preparação das posições a tomar, face aos projetos de resolução e a outros documentos em análise, bem como inclusivamente a iniciativas tomadas.
b) A oficialização de uma estrutura, inexistente até à década de 1990, com uma conveniente representatividade dos principais centros de investigação e de diversas unidades do setor produtivo nacional, possibilitando assim o referido em a).
c) Um intenso trabalho coletivo de muito competentes profissionais das instituições referidas em b).
Foi assim este conjunto de fatores que, em cerca de três décadas, inverteram completamente o papel de Portugal junto desta organização internacional, passando de tímido e quase invisível Estado-membro para um dos mais ativos e intervenientes...
Uma palavra final para aspetos que ficaram gravados na minha memória, relativamente ao que vivi no seio de uma organização internacional com a importância estratégica desta (recorde-se que o OIV, "nascido" em 1924, portanto mais de duas décadas antes da criação da ONU, tutela ainda hoje mundialmente o setor vitivinícola, ao contrário do que acontece para a generalidade dos outros setores agro-alimentares, completamente tutelados por organizações saídas da ONU: FAO, OMS, Codex Alimentarius, ...):
Presenciei inúmeras vezes a importãncia das discussões prévias, bi ou multilaterais entre os Estados-membros, para acerto de posições e consensos (no seio da UE, entre a UE e os USA e outros países, entre os Estados mais desenvolvidos e os Estados ditos em vias de desenvolvimento, entre os Estados mais proximos e mais afastados geograficamente, até entre os Estados de maior ou menor proximidade linguística).
Assisti ao vivo às implicações de profundas alterações sociais e políticas, a nível mundial, no seio da organização...
Recordo duas que, particularmente, me emocionaram:
A do meu querido colega Andries Tromp (da África do Sul) a apresentar a candidatura deste país para acolher o Congresso do OIV de 1996, pouco tempo depois da queda do sistema do apartheid: ainda hoje tenho na memória aquele enorme homem de quase 2 m de altura, com as lágrimas nos olhos e a voz embargada dirigindo-se às delegações de todos os estados-membros, convidando-os para irem ao Congresso do OIV no seu país, que tinha ultrapassado a vergonha racista e onde agora todos os homens eram simplesmente homens!
Recordo igualmente de, numa reunião em Paris, ter apresentado um ao outro dois colegas e amigos meus por quem nutria e nutro uma enorme admiração e respeito: Julij Nemanic (da Eslovénia) e Vladimir Kovac (da Sérvia), provenientes pois de dois Estados que saíram da antiga Jugoslávia e que estavam na altura com relações tensas, quase em guerra... Nenhum queria conhecer o outro, nem sequer lhe falar. Eu conhecia bem os dois... como grandes investigadores (o primeiro em análise sensorial, o segundo em polifenóis) e como amigos (Nemanic tinha sido meu colega de estágio em Bordeaux, Kovac tinha estado comigo diversos dias em Lisboa). Foi difícil convencê-los... mas lá consegui que tomássemos os três um café depois de um almoço. Ao princípio houve grande estranheza da sua parte... mas a conversa lá foi correndo... e tudo terminou bem: éramos agora três amigos. Nos dias seguintes, curiosamente, iam sempre os dois almoçar juntos. Um dia, chegámos até a sair os três à noite...
O que eu aprendi de vida com esta história: os homens podem sempre ultrapassar o que outros pretendem criar para os dividir!
Durante este tempo, fui acompanhado nas atividades da representação portuguesa junto do OIV por diversos colegas, assistindo a um profundo aumento qualitativo dessa representação; num dado momento, chegou Portugal a estar representado por quatro elementos no Conselho Científico e Técnico (eu próprio, como já disse, Luís Carneiro, Secretário Científico da Comissão de Viticultura, Olga Laureano, Presidente do Grupo de Peritos de Formação e Luís Gusmão Rodrigues, Presidente do Grupo de Peritos de Mercados Vitivinícolas; mais tarde, também Amadeu Peixoto de Menezes, Presidente da Comissão de Nutrição e Saúde, Paulo Barros, ainda hoje Secretário Científico da Subcomissão de Métodos de Análise e Luís Peres de Sousa, também ainda hoje Presidente da Subcomissão de Produtos não Fermentados da Vinha.
Também esse enorme aumento qualitativo da representação portuguesa junto dessa organização intergovernamental conduziu a que, pela primeira e única vez, fosse eleito um Presidente português (Fernando Bianchi de Aguiar, 1997-1999) e que fossem universalmente considerados grandes sucessos os Congressos OIV de 1998 (Lisboa) e de 2011 (Porto).
Foi de facto enorme o salto qualitativo verificado na atividade da representação portuguesa junto do OIV, desde os primeiros tempos em que eu a conheci (décadas de 70 e 80) até à atualidade...
Foi um trabalho coletivo, iniciado com a reestruturação do Conselho Técnico e Científico da CNOIV (Comissão Nacional do OIV), pelo Despacho de 1991-02-20 do Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação, logo com a concretização do Forum sobre os vinhos licorosos portugueses (realizado em 1991, no Porto, na Régua e no Funchal). Posteriormente, foi esta estrutura melhorada e atualizada, com diversas medidas regulamentares (despacho de 1992-04-27 do Secretário de Estado dos Mercados Agrícolas e da Qualidade Alimentar; despacho de 1996-03-13 do Secretário de Estado da Produção Agroalimentar; despacho normativo nº 22/2009 de 2009-06-02 do Secretário de Estado Adjunto, da Agricultura e das Pescas).
Um aumento tão significativo verificado na presença portuguesa junto de uma organização intergovernamental de base científica, como é a OIV, resulta da junção de diversos fatores:
a) Uma conveniente e atempada preparação das posições a tomar, face aos projetos de resolução e a outros documentos em análise, bem como inclusivamente a iniciativas tomadas.
b) A oficialização de uma estrutura, inexistente até à década de 1990, com uma conveniente representatividade dos principais centros de investigação e de diversas unidades do setor produtivo nacional, possibilitando assim o referido em a).
c) Um intenso trabalho coletivo de muito competentes profissionais das instituições referidas em b).
Foi assim este conjunto de fatores que, em cerca de três décadas, inverteram completamente o papel de Portugal junto desta organização internacional, passando de tímido e quase invisível Estado-membro para um dos mais ativos e intervenientes...
Uma palavra final para aspetos que ficaram gravados na minha memória, relativamente ao que vivi no seio de uma organização internacional com a importância estratégica desta (recorde-se que o OIV, "nascido" em 1924, portanto mais de duas décadas antes da criação da ONU, tutela ainda hoje mundialmente o setor vitivinícola, ao contrário do que acontece para a generalidade dos outros setores agro-alimentares, completamente tutelados por organizações saídas da ONU: FAO, OMS, Codex Alimentarius, ...):
Presenciei inúmeras vezes a importãncia das discussões prévias, bi ou multilaterais entre os Estados-membros, para acerto de posições e consensos (no seio da UE, entre a UE e os USA e outros países, entre os Estados mais desenvolvidos e os Estados ditos em vias de desenvolvimento, entre os Estados mais proximos e mais afastados geograficamente, até entre os Estados de maior ou menor proximidade linguística).
Assisti ao vivo às implicações de profundas alterações sociais e políticas, a nível mundial, no seio da organização...
Recordo duas que, particularmente, me emocionaram:
A do meu querido colega Andries Tromp (da África do Sul) a apresentar a candidatura deste país para acolher o Congresso do OIV de 1996, pouco tempo depois da queda do sistema do apartheid: ainda hoje tenho na memória aquele enorme homem de quase 2 m de altura, com as lágrimas nos olhos e a voz embargada dirigindo-se às delegações de todos os estados-membros, convidando-os para irem ao Congresso do OIV no seu país, que tinha ultrapassado a vergonha racista e onde agora todos os homens eram simplesmente homens!
Recordo igualmente de, numa reunião em Paris, ter apresentado um ao outro dois colegas e amigos meus por quem nutria e nutro uma enorme admiração e respeito: Julij Nemanic (da Eslovénia) e Vladimir Kovac (da Sérvia), provenientes pois de dois Estados que saíram da antiga Jugoslávia e que estavam na altura com relações tensas, quase em guerra... Nenhum queria conhecer o outro, nem sequer lhe falar. Eu conhecia bem os dois... como grandes investigadores (o primeiro em análise sensorial, o segundo em polifenóis) e como amigos (Nemanic tinha sido meu colega de estágio em Bordeaux, Kovac tinha estado comigo diversos dias em Lisboa). Foi difícil convencê-los... mas lá consegui que tomássemos os três um café depois de um almoço. Ao princípio houve grande estranheza da sua parte... mas a conversa lá foi correndo... e tudo terminou bem: éramos agora três amigos. Nos dias seguintes, curiosamente, iam sempre os dois almoçar juntos. Um dia, chegámos até a sair os três à noite...
O que eu aprendi de vida com esta história: os homens podem sempre ultrapassar o que outros pretendem criar para os dividir!
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
O acordo ortográfico
Como muitos amigos meus sabem, sou profundamente favorável à total implementação do atual e vigente Acordo Ortográfico entre os países de língua oficial portuguesa. Daí que este blogue, desde o seu início (há cerca de um ano e meio), seja escrito cumprindo as regras instituídas por este Acordo, daí que todos os textos que entretanto tenho escrito (dois capítulos de um livro, diversos artigos e comunicações científicas, ...) o tenham sido igualmente cumprindo essas regras.
Sei que é uma posição partilhada com muitos amigos meus e contrária à de outros também meus amigos.
Assim, optei por vir esclarecer publicamente as razões que me levaram a esta posição que tenho assumido.
- Não há uma língua de Portugal, uma língua do Brasil, uma língua de Angola, uma língua de Moçambique, uma língua de Cabo Verde, uma língua de S. Tomé e Principe, uma língua da Guiné-Bissau. Há apenas a língua portuguesa... a língua portuguesa que foi cantada pelo universalista Fernando Pessoa como a sua Pátria. A língua oficial de todos os países citados, a língua cooficial de Macau, de Timor Leste, a língua ainda falada em Goa e outras cidades indianas e até em algumas localidades do Uruguai. A língua que Miguel de Cervantes denominou de "doce". A língua que o escritor brasileiro Olavo Bilac poeticamente descreveu como a última flor do Latio, inculta e bela. É ainda a língua falada por 10 milhões de pessoas emigradas em outros países (designadamente 4,5 milhões de portugueses, 3 milhões de brasileiros e meio milhão de cabo verdeanos).
Uma língua que vem do ramo luso-galaico das línguas latinas, "adocicada" com a língua árabe... Uma língua que tem uma história, como todas as línguas vivas, atualmente faladas. Uma língua que, hoje, por ser viva, tem diferenças sobre o português escrito por Aquilino Ribeiro, por Fernando Pessoa, por Eça de Queiroz, por Almeida Garret, por Gil Vicente, por Camões... Uma língua que os portugueses levaram a outras terras (suas antigas colónias) e que, localmente, foram também sofrendo logicamente modificações. Uma língua que tem o seu Museu (Museu da Língua Portuguesa), desde 2006, em São Paulo, a cidade em todo o mundo onde mais gente se expressa na língua portuguesa (vídeo apresentado no final deste artigo).
Mas a língua de todos esses povos é a língua portuguesa!
- A língua portuguesa é pois a língua materna falada por mais de 250 milhões de cidadãos em todo o mundo. Daí a sua importância atual, sob múltiplos pontos de vista...
Um exemplo bem claro hoje, e de ordem prática, é a disponibilização em língua portuguesa de múltiplas bases de dados mundiais, de instruções de funcionamento de diversos equipamentos, de motores de busca na internet, etc.
- Parece pois claramente lógico, diria mesmo necessariamente evidente, a existência de regras ortográficas universalmente aceites por todas as comunidades que utilizam, para comunicar, a língua portuguesa. Notem que me refiro apenas à ortografia (único objeto do acordo) e não à pronúncia ou à forma de falar... essa continuará obviamente a distinguir sempre culturas diferentes... de Portugal, do Brasil ou de Angola. Continuaremos claramente a distinguir os diferentes dialetos nos diferentes países lusófonos: o alentejano, o nortenho, o micaelense ou o madeirense em Portugal, o baiano, o sertanejo ou o carioca no Brasil, o sulista ou o benguelense em Angola, ...
- Ao longo dos tempos, houve diversas alterações à ortografia em língua portuguesa (farmácia já foi pharmacia, fruto já foi fructo, ontém já foi hontém...): consequência de ser a língua portuguesa uma língua viva!
- Não sou linguista, mas apenas utilizador da língua portuguesa. Sei contudo o caminho percorrido, durante duas décadas, por conceituados linguistas (caso, por exemplo em Portugal, do ex-Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Malaça Casteleiro). Foi um processo que passou por diversas etapas, com recolha das opiniões, propostas e pareceres de quem o quis fazer.
- Uma das críticas que tenho ouvido ao Acordo é a de que não seria necessário haver uma uniformização ortográfica para a defesa da língua, apontando-se o caso da língua inglesa em Inglaterra e em diversos países ex-colónias deste país. Há que considerar que já houve acordos deste tipo entre estes países, embora muitas vezes com resultados um tanto tímidos, penso que resultantes da dificuldade do Reino Unido em aceitar alterações deste tipo (prefiro não fazer mais quaisquer comentários...). Por outro lado, veja-se o triste aspeto de, em tantas situações, termos de "traduzir" um texto americano ou australiano para um texto britânico!
- Já cheguei inclusivamente a ouvir que o Acordo atenta contra a identidade nacional, o que, em minha opinião, não tem qualquer sentido: o que está a mudar não é a língua portuguesa, mas sim alguns aspetos da sua grafia! Isto já aconteceu aliás diversas vezes ao longo do tempo (só no século XX, julgo que duas vezes), sem que a identidade nacional tivesse sido posta em causa.
- Um dos aspetos que mais é alterado, tem a ver com o deixar de se escrever as consoantes mudas, como por exemplo em palavras como dire(c)tor, a(c)tor, a(c)tiz... É isto consequência de uma simplificação da ortografia e da consciência que diferentes grafias não beneficiam uma língua portuguesa forte (Malaça Casteleiro, Diário de Notícias, 2012-01-02). Acrescenta ainda este linguista: "se pensarmos nas crianças que estão agora a aprender, para elas é muito mais fácil escrever sem consoantes não pronunciadas; não é nenhum atentado".
- Outras das críticas que frequentemente é feita, centra-se em afirmar que Portugal fez mais cedências que, por exemplo, o Brasil.
Contesto inteiramente esta crítica por diversas razões: (a) em termos quantitativos, o Brasil introduziu mais alterações, designadamente nas acentuações (e digo isto com conhecimento de causa, pelo conhecimento muito direto que tenho deste país desde há alguns anos); (b) Portugal não tem mais direitos sobre a língua portuguesa que qualquer outro país lusófono, a bem desta língua (e recuso-me a aceitar quaisquer influências de raiz colonialista, mesmo que de subliminar consciência).
- Outra das alterações do Acordo tem a ver com a escrita dos meses do ano e dos dias da semana se iniciarem com minúscula. Nada me choca esta alteração, conforme os princípios que aprendi nos meus primeiros anos de escolaridade sobre "nomes próprios".
- Ainda segundo Malaça Casteleiro (Diário de Notícias, 2012-01-02), ... "as pessoas reagem muito à mudança porque, quando aprendemos uma palavra, aprendemos três coisas: o significado, a pronúncia e a grafia correta, e esta última fixa-se na nossa mente, como uma imagem gráfica (...); quando escrevemos, fazemo-lo de uma forma mecânica (com base naquela imagem)".
É esta a minha opinião sobre esta questão, numa matéria que me é bem sensível, como bem sabem aqueles que melhor me conhecem (ver, neste blogue, os artigos José Régio / Figuras e Saber ler / Opções de Cidadania).
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico
Vejamos agora o Museu da Língua Portuguesa
E terminamos com a grande brasileira Maria Bethânia interpretando a Mensagem do grande português Fernando Pessoa. É esta a beleza da língua portuguesa...
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