Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt



terça-feira, 31 de agosto de 2010

CULTURA CIENTÍFICA - Aprender, Inovar, Divulgar, Cooperar




Conferência proferida no Colóquio XXI da Estação Vitivinícola Nacional, em 26 de Novembro de 1999, integrado na "Semana da Ciência e da Tecnologia" (A.S. Curvelo-Garcia)

A Conferência começa com a voz de Dulce Pontes, cantando o poema "Meu Alentejo"

Meu Alentejo
Eu não sei que tenho em Évora / Que de Évora me estou lembrando

Quando chego ao rio Tejo / As ondas me vão levando
Abalei do Alentejo / Olhei para trás chorando

Alentejo da minh’alma / Tão longe me vais ficando

Ceifeira que andas à calma / Ai, e à calma ceifando o trigo

Ceifa as penas da minh’alma / Ceifa-as e leva-as contigo
(Bento Caeiro / João Camilo)

Com este belo poema de Bento Caeiro, interpretado pela tão bela sonoridade da voz de Dulce Pontes, pretendi marcar, de uma forma muito intensa, uma das principais referências que a todos nos norteia em toda a nossa vida - as nossas origens. E quando digo todos, estou absolutamente convicto que somos todos, seja qual for a origem social, o acompanhamento familiar, as condições económicas ou o percurso profissional. E as mulheres e homens de Ciência são pessoas como as outras - nascem, vivem e morrem; têm pais, têm filhos, têm família, têm interesses de ordem cultural, social, religiosa, política. E têm origens...

Toda a obra scientífica de Schutzenberger se ressente da influência do meio em que viveu quando rapaz: ligação íntima da sciência pura e da técnica, diz-nos o Grande Mestre da Química Portuguesa Prof. Charles Lepierre, numa conferência proferida em 1930 sobre aquele eminente químico.
Abalei do Alentejo
Olhei para trás chorando
Alentejo da minh' alma
Tão longe me vais ficando

Também eu abalei do Alentejo, já lá vão 37 anos! E também, porque tão longe me vai ficando, olho para trás chorando. É uma origem (sociocultural) que nos marca para toda a vida, incluindo evidentemente a vida profissional. Isto, claro, se assumirmos efetivamente a condição de profissionais, seja a de construtores de Ciência seja outra qualquer. Parece-me evidente que este facto é uma realidade universal, tomando como exemplo a minha própria origem (de alentejano), e tão bem ilustrada por José Régio (que, curiosamente, não o era na origem) ou por Florbela Espanca. Tem paralelo com o do transmontano ("da pedra fazendo pão"), que povoa as imagens de Miguel Torga, com o do beirão (das planícies de Idanha e das serras) que deu alma a Aquilino Ribeiro, com o do minhoto (que soube criar uma cultura própria, próxima mas diferente da da Galiza) e que tão bem retratou Júlio Dinis, com o do ribatejano, senhor das campinas de Alves Redol, com o do algarvio, para quem a praia é apenas o princípio do mar e a poesia é Aleixo, com o da mulher e do homem da Estremadura, terra que me acolheu desde há cerca de 30 anos, e que tão penosamente tem há longo tempo arrastado as consequências, de natureza centrípeta e de cariz colonizador, da sua proximidade do grande centro urbano. Este facto é uma realidade para a mulher e para o homem dos Açores, permanentemente repartidos entre o isolamento do Atlântico, o medo e a ansiedade das catástrofes naturais e a saudade dos parentes da América: foi essa repartição de sentimentos que fez Vitorino Nemésio. Este facto é uma realidade para o madeirense, sobretudo para os de terras como Ponta do Sol ou Porto Moniz, que, ano após ano, século após século, resiste ao isolamento e à marginalização.

Este facto é também uma realidade para as mulheres e homens de todos os países, de todos os continentes. Por isso, deu-nos a Espanha Garcia Llorca e Rafael Alberti, Pablo Picasso e Salvador Dali; e Ramon y Cajal! E a França... E a Itália... E a Inglaterra... E a Alemanha ...E a Bélgica (que não é só a Rue de La Lois em Bruxelas, mas é muito mais: por exemplo, Jacques Brel).

Portugal é Fernando Pessoa! Sá Carneiro é o Mário (de Sá-Carneiro), elemento do "Orpheu" que abriu caminho ao modernismo. Salazar é Abel de Lima Salazar, médico e artista plástico, nascido em Guimarães, professor de histologia médica, escultor e pintor. O Chile não é Pinochet, nem mesmo Salvador Allende, é Pablo Neruda! A realidade do Brasil é a que nos fala Jorge Amado nos seus (e nossos) capitães da areia. André Malraux é o autor de "Condição Humana", o que só por isso coloca em plano secundário o ter sido membro da "Resistência", o ter combatido na Guerra Civil de Espanha ou o ter sido ministro e apoiante de De Gaulle. Que interessa que a rainha de Inglaterra seja Isabel II, se William Shakespeare escreveu a obra "Romeu e Julieta", uma das mais fascinantes criações do espírito humano? O que de mais importante a cidade italiana de Pisa deu ao mundo, não foi o desafio da sua turisticamente célebre torre, desafio às leis da gravidade e aos mais elementares princípios da construção civil, mas sim Galileu Galilei, que revolucionou o mundo por ter revolucionado a Ciência, por ter questionado "tudo o que era sabido", por ter criado os princípios da Ciência moderna.

Um dos múltiplos aspetos com que hoje se caracteriza uma sociedade dita moderna do final do milénio é a assunção da "cultura científica" por ela própria: a cultura científica, tal como as artes e as letras, já não é um património de alguns para o bem do poder instituído, nem sequer para o bem de todos. É um património de todos, é construído por todos. É evidente que isto pressupõe uma sociedade e uma vivência democráticas. Só por isso, seria impensável, entre nós, há três décadas atrás. Por isso, Egas Moniz não foi um Prémio Nobel de Portugal, foi um Prémio Nobel da restrita cultura científica então existente (o que em nada diminui a sua glória, antes pelo contrário a sublinha ainda mais). Por isso, meio Portugal (e julgo estar a ser otimista) o esquece e ignora hoje. Também por isso, todo o país, há um ano, exultou com o Prémio Nobel atribuído a José Saramago, considerando-o um pouco como seu. O que mudou, durante estas décadas? Não foram certamente os critérios da Comissão do Nobel, não foi a importância do Prémio, nem evidentemente foi a grandeza da obra produzida por quaisquer desses dois grandes expoentes da cultura portuguesa. O que mudou foi o país! O que mudou foi a forma como o nosso país cresceu culturalmente, como passou a rever-se na obra de alguns, assumindo-a também como sua (porque tomou consciência como para ela contribuía). Há 40 anos, se José Saramago já escrevesse e se fosse laureado com o Prémio Nobel, seria a notícia divulgada, por uns, como bandeira da luta contra a ditadura (com ténues referências na comunicação social da época, as únicas permitidas pela censura), e por outros referenciada como mais uma manobra dos "areópagos internacionais" para denegrir a imagem da nação lusa, premiando um inimigo da pátria. Por outro lado, e perdoem-me o desabafo, se o Prémio Nobel da Medicina fosse hoje atribuído a um cientista português (fossem quais fossem os seus ideais de cidadania), seria curioso observar como os diversos poderes públicos assumiriam a dianteira na defesa da importância da investigação científica para o desenvolvimento da sociedade.

Propositadamente, tomei como exemplos, os dois únicos prémios Nobel atribuídos a portugueses. Obviamente que não me esqueci dos recentes Prémios Nobel da Paz atribuídos a dois eminentes timorenses que, considerando embora a importância da cultura portuguesa na sua ação, entendo dever aqui separar, até pelo grande respeito que tenho por aquela outra pátria. Repito, tomei como exemplos os dois únicos prémios Nobel atribuídos a Portugueses. São casos cimeiros da nossa cultura. Recorri-me deles (ou antes, da sua enorme obra) para mais facilmente poder demonstrar a realidade que há pouco referi: a cultura científica, tal como as artes e as letras, já não é um património de alguns para o bem do poder instituído, nem sequer para o bem de todos, é um património coletivo, é construído por toda a sociedade, numa vivência democrática. Poderia ter recorrido a factos e a exemplos de tantos outros homens do saber. Cito alguns (cuja vida e cuja obra, nossa contemporânea ou quase, bem espelham o que pretendi demonstrar): Fernando Pessoa, Bento de Jesus Caraça, Jaime Cortesão, Sebastião e Silva, Aquilino Ribeiro, Pulido Valente, António Sérgio, Reinaldo dos Santos, Miguel Torga, António Câmara, Fernando Namora, Mira Fernandes, Vergílio Ferreira, Branquinho da Fonseca, Luandino Vieira, Vieira Natividade, Almada Negreiros. E tantos, tantos outros...

Assim, neste mundo e nesta sociedade atual, onde as nossas origens tão vincadamente nos determinam a nossa ação, e onde a "cultura científica" constitui uma realidade global e coletiva, quais os parâmetros que norteiam (se quiserem, os parâmetros que, na minha ótica, deverão nortear, deverão orientar a ação dos "profissionais da construção da ciência")? E refiro "profissionais da construção da ciência", e não simplesmente "Investigadores", por diversas razões: para bem vincar o papel dinâmico que a ciência deverá ter (não há verdades absolutas, a verdade de hoje não será a de amanhã) e para referir que a ciência não se faz (ou constrói) só com os Investigadores (é cada vez mais importante o papel de todas as classes profissionais que com eles colaboram).

De forma simplista, e obviamente na minha ótica, interpretando o que tenho, ao longo da vida, aprendido com os meus "mestres", os parâmetros que deverão orientar a ação desses "profissionais da construção da ciência" são: aprender, inovar, divulgar e sobretudo cooperar.
Analisemos cada um deles.

Aprender
Aprender, durante todo o percurso profissional. Obviamente, na convivência com os Mestres, mas mais do que tudo com a sua leitura; com a leitura dos seus textos. E mais ainda: com a reflexão sobre os seus ensinamentos. Evidentemente, aprender muito com os nossos colegas, com os nossos pares científicos, com a sua experiência, com a sua visão (tão parcelar como é a nossa) sobre o objeto de reflexão e de entendimento. E aprender com os nossos colaboradores, com os nossos discípulos. E todos temos mestres, todos temos colegas, todos temos discípulos.

São princípios gerais, nascidos e praticados há séculos. Já assim era no ensino escolástico. Não vejo qualquer razão para que hoje não sejam os mesmos, pese embora a evolução e o rápido intercâmbio do conhecimento, ou o facto de ter a Ciência sido igualizada a qualquer outra atividade da vida social.

Pessoalmente, e disso muito me orgulho, estou intimamente convicto de que toda a minha atividade científica tem como origem a forma "universitária" de estudar, de ler, de discutir, de equacionar e de resolver questões, de refletir e de me autocriticar que, ao longo de três ou quatro décadas me foi ensinada por mestres, por colegas e por discípulos. Desses meus mestres, cito alguns: José Régio, Fernando Dias Agudo, Luís de Almeida Alves, João José Fraústo da Silva, Luís Campos, Pedro Manso Lefèvre, Isidoro Costa Netto. E tantos outros, incluindo os mestres dos meus mestres.

O que aprendi com os meus colegas foi o essencial do que consegui fazer ao longo da minha carreira: não cito nenhum, porque receio, julgo que fundadamente, que qualquer tentativa sempre originaria enormes faltas. Assim, é mais fácil e mais verdadeiro: foram todos! Contudo, não resisto a uma simples distinção, destacando os meus colegas da EVN (de hoje e de ontem): para além de me ensinarem, ajudámo-nos uns aos outros a construir uma Unidade de Investigação. Melhor ou pior, ela aí está.

Mas talvez o que de mais maravilhoso tenho aprendido tenha sido com os meus colaboradores diretos e com os meus alunos, com os meus discípulos (como anteriormente referia). Passando em revista todos os trabalhos que publiquei, desde que ascendi à "inconfortavelmente confortável" situação de sénior científico, não há nenhum que não tenha tido uma decisiva, crítica e muito intensa contribuição de colaboradores meus.

Mas "aprender" significa sobretudo, na ótica em que estamos a abordar esta temática, estudar e apreender o que nos interessa para o problema que temos para resolver. Significa atualizar o nosso conhecimento, nessa área científica: pesquisando a bibliografia, também cientificamente. No fundo, significa fazer o ponto da situação sobre o conhecimento existente, por forma a poder partir-se para a procura do novo conhecimento. Socorrendo-me de novo da minha experiência pessoal, é exatamente aqui que se cometem, hoje em dia, os grandes erros no desenvolvimento da metodologia científica: a pesquisa bibliográfica é apressada ou mal orientada (o que significa o mesmo), a atualização do conhecimento é incompleta e, por consequência, os planos do novo projeto de aumento desse conhecimento ficam comprometidos à partida. É um aspeto, que julgo fulcral, e que deixo à consideração e ponderação das estruturas com responsabilidades no financiamento de projetos de IDE. Por isso, protestei, tanto quanto pude, quando há algum tempo atrás me confrontei com um anúncio para financiamento de propostas de investigação onde nem sequer era prevista uma breve exposição sobre o state-of-art da matéria a propor. Penso que, cada vez mais, será um aspeto primordial a ter em consideração, na apresentação de propostas de projetos de IDE e na sua avaliação.

Os investigadores são hoje frequentemente criticados porque publicam pouco, embora os índices disponíveis revelem uma nítida tendência de progresso. Penso que deverá esta crítica passar a ter um importante complemento: serem criticados (e penalizados) por lerem pouco, quando evidentemente for esse o caso. Numa sociedade onde tudo se avalia e se põe em confronto, também este aspeto o poderá ser! Sugere-se, como metodologia, a análise crítica, por painéis experimentados e de diversificada composição, das exposições introdutórias sobre o estado atual de conhecimentos apresentados em projetos submetidos a financiamento. Otimizavam-se recursos, melhorava-se a qualidade da investigação produzida e aumentava-se a necessária especialização das equipas. É por pensar desta forma que tenho consciência de ser exatamente aqui que a minha exigência é maior na orientação dos meus alunos. E os que o foram ou o são bem o sabem. É também por esta razão, partilhada desde há muito com os Investigadores da minha Unidade, que ainda hoje na EVN, uma muito importante parcela do trabalho de um simples estagiário de fim de curso consiste na elaboração do protocolo do trabalho a desenvolver, alicerçado numa orientada e tão completa quanto possível pesquisa bibliográfica sobre a matéria.

É da aproximação de ideias, resultante da concorrência de leituras diversas que procede, frequentemente, a descoberta científica, diz-nos o notável matemático Prof. Mira Fernandes, em artigo publicado há mais de meio século (Fevereiro de 1948) , depois de considerar como banal o dizer-se que a leitura só é útil quando se "sabe ler", acrescentando que, para "saber ler" é necessário ter lido muito, precisamente porque, nesse "muito", se aprendeu a discriminar a utilidade do que se lê.

Aprender, ler, estudar o que está publicado, apreender o conhecimento já existente. São estas as palavras - chave deste capítulo, que termino com uma sugestão: o de lerem um artigo de um dos meus mestres (o Prof. Luís de Almeida Alves), publicado no número 288 da revista "Técnica", em Janeiro de 1959 (era diretor dessa revista J.J. Delgado Domingos e seu secretário Jorge Calado). O título do artigo é "A leitura de revistas técnicas". Começa o autor por citar uma afirmação dum artigo publicado na revista "Chemical Engineering": Para um Engenheiro, as coisas mais importantes que pode oferecer à empresa em que trabalha, são o nível de inteligência, os conhecimentos que já possui, a capacidade de absorver conhecimentos novos e o critério de decisão em face dos problemas técnicos que tem de resolver.

"Esta afirmação não é, em si, fundamentalmente profunda, mas tem um grande mérito - o de ser evidente": foi este o comentário do Prof. Luís de Almeida Alves, no seu artigo. Acrescentarei eu, com a salutar e costumada irreverência tida para com os mestres: é precisamente por ser evidente que a afirmação é fundamentalmente profunda.

Inovar
A atividade científica é, por natureza, essencialmente uma atividade criativa. Persegue a procura do “novo”. Alarga o conhecimento humano. Normalmente em pequenos passos, que se sucedem, que se multiplicam, que se completam, e sempre importantes se efetivamente atingem o “novo conhecimento”. Há por isso uma total indissolubilidade entre a atividade científica e a inovação. E essa atividade criadora terá necessariamente de ser de toda a equipa: citando novamente Luís de Almeida Alves , todo o indivíduo, como ser psicológico, tem as seguintes aspirações fundamentais, no exercício da sua actividade - ser útil como Homem e como profissional, não ser um elemento anónimo de uma estrutura e ter uma intervenção criadora nos resultados a atingir.

A permanente inovação, que determina o aspeto profundamente dinâmico da atividade científica, pressupõe necessariamente o erro. Em Ciência, não há verdades imutáveis: o que hoje é verdadeiro poderá não o ser amanhã, sem que isso signifique tratar-se de uma verdade levianamente obtida: efetivamente, hoje é verdade!

Demoremo-nos um pouco mais nesta análise, socorrendo-nos de outro grande mestre português deste século (Prof. Varennes e Mendonça), fazendo uma citação da Oração de Sapientia que proferiu na sessão inaugural do ano de 1955-56 da Universidade Técnica de Lisboa, e intitulada “Do erro científico na investigação e no ensino” : A matemática é a ciência exacta por excelência, os matemáticos os mais rigorosos dos cientistas. Porém, Maurice Lecat pôde encontrar na obra impressa dos grandes matemáticos erros em quantidade suficiente para encher um livro. Nele figuram, entre muitos outros, os nomes de Descartes, Galileu, Cauchy, Riemann, Leibnitz e d’Alembert. Mais adiante, refere o autor: O progresso das ciências da natureza está em grande parte dependente da criação e aperfeiçoamento dos níveis de observação. A cada nova técnica de observação corresponde o desmoronar do monte de ideias falsas que só a deficiente visão tinha permitido acumular. Quantos erros vieram destruir a arte de navegare a audácia dos nossos mareantes de Quinhentos, que vastos horizontes não abriu a descoberta do telescópio, quantas novas ciências nasceram com o aperfeiçoamento do microscópio.

Mais uma vez abusando de irreverência, permito-me acrescentar outros exemplos, mais recentes e nas áreas que mais conheço. Quantos constituintes caracterizadores de aromas dos vinhos não foram identificados com o desenvolvimento dos processos cromatográficos e de outras técnicas de instrumentação analítica! Como vieram as técnicas instrumentais de análise por ICP-MS, em poucos meses, completamente revolucionar o conhecimento existente (há cerca de dois anos) sobre os riscos para a saúde associados aos níveis da presença de metais pesados em vinhos! E tantos, tantos outros exemplos, actuais, extremamente recentes, que aqui poderiam ser citados!

E acrescenta ainda Varennes e Mendonça: E estes erros de pura observação talvez não sejam os mais frequentes. Não sei se poderão competir em quantidade com os do método experimental e de interpretação de resultados.

Terminando as citações que tenho vindo a fazer deste autor, não resisto a pedir-lhes que reflitam sobre a seguinte, que ainda por cima me vem ajudar a associar o capítulo que tenho vindo a tratar (“Inovar”) com o anterior (“Aprender”): os erros por deficiência de informação bibliográfica são muito frequentes em todo o mundo, o que é de lastimar porquanto, grandes embora as dificuldades criadas pela euforia produtiva que atravessamos, trata-se da causa de erro mais fácil de dominar - mediante apropriada organização biblioteconómica. Reflitam sobre esta afirmação, escrita há quase meio século: hoje, estes erros são muito mais frequentes.

E que não haja receio de, cientificamente, criticar o que entendermos que for criticável. Num artigo sobre as conexões finitas, o grande Mira Fernandes escreveu: Decerto por erro, o Prof. Einstein afirma …

Termino este capítulo sobre “o inovar” com um conselho para os mais jovens: não tenham nunca receio que as inovações produzidas pela vossa atividade científica se possam virar contra vós mesmos! Assegurada que seja a “paternidade” do trabalho desenvolvido (e hoje há regras bem definidas para isso), o criar conhecimento novo terá sempre reflexos para o futuro. Posso transmitir-lhes alguma coisa da minha experiência pessoal. Como sabem, sou químico analítico há 30 anos, sempre no âmbito da química enológica. Como também muitos sabem, tenho feito incidir, desde há mais de dez anos, a minha atividade para a automatização de métodos de análise. Depois do meu primeiro trabalho nesta área, tem-me sido muito mais fácil interessar neste campo outros elementos da minha Unidade, com evidentes resultados numa maior facilidade de captar recursos financeiros para o desenvolvimento de projetos. A propósito, não posso deixar de vos ler esta passagem de um discurso proferido por um dos meus mestres do Instituto Superior Técnico, o Prof. A. Herculano de Carvalho, em 1950, no “Congresso para o Progresso das Ciências”, sobre o estado de evolução e as tendências da Química Analítica : Basta folhear uma revista da especialidade para ver os esforços que se fazem para conseguir cada vez mais extensa e perfeita automatização. Esta posição era comentada em artigo recente de uma revista americana, com a seguinte observação justa: “aquele que trabalha em química analítica é uma das poucas criaturas cujo esforço é em grande parte consagrado a tornar-se a si próprio tão supérfluo quanto possível”.

Divulgar
Um dos parâmetros mais intrínsecos da atividade científica é a divulgação dos novos conhecimentos obtidos, devendo ter como primeiro e principal alvo a restante comunidade científica, e como principal meio a publicação desses novos conhecimentos em revistas científicas. Evidentemente que não excluem tais factos a importância da complementaridade com outros públicos-alvo (os utilizadores dos avanços da ciência e mesmo a comunidade em geral) e com outras formas de divulgação (outros tipos de publicações, o ensino, a apresentação de resultados em manifestações científicas e técnicas, colóquios). Mas hoje (e sempre foi assim), em Ciência, "resultados não divulgados em publicações científicas não existem !".

Faz hoje precisamente um ano que, no Colóquio XVIII realizado na EVN, se abordou exatamente este tema ("A divulgação dos resultados da Investigação; publicações científicas"). Foi um debate e uma reflexão, com eminentes figuras da investigação científica portuguesa, sobre a política de publicações de uma unidade de investigação: publicar o quê, como e onde; a que comunidade se deverá preferencialmente dirigir - à comunidade científica ou aos utilizadores dos avanços científicos. Foi uma reflexão sobre as formas de compatibilizar os objetivos de uma instituição de investigação com as necessidades do sector económico que deverá ser o seu suporte e com a criação científica dos seus membros, sujeitos a regras e exigências que ultrapassam mesmo as da própria instituição.

O objetivo do colóquio era o debater e refletir conjuntamente sobre a política de publicações científicas de uma unidade de investigação, sem a preocupação de obter conclusões ou de estabelecer consensos. Esse objetivo foi amplamente conseguido. Felizmente que não foram, de facto, estabelecidos consensos - sempre castradores da riqueza advinda da multiplicidade de opiniões. Mas, por outro lado, foi possível evidenciar também algumas conclusões ("também profundas, porque evidentes”): o local onde se deverá publicar deve estar sempre em ligação com o público alvo que se pretende atingir, sendo a língua utilizada consequência desse facto, a necessidade de se imprimir o máximo rigor em toda a atividade científica e portanto na divulgação dos seus resultados, a necessidade de combater e isolar a desonestidade, a indispensabilidade de não fazer depender a avaliação dos investigadores e das instituições unicamente das publicações científicas, mesmo reconhecendo que são essas as formas privilegiadas para avaliar o impacto científico e social da sua atividade.

No que à EVN diz respeito, acrescento ainda dois factos que associo também a esse colóquio, embora outras causas não sejam a eles estranhos. Penso não serem simplesmente obra do acaso (em Ciência, mesmo a intervenção do acaso é medida e interpretada à luz de metodologias científicas):
- Durante o ano que passou, o número de artigos científicos submetidos, provenientes do pessoal da EVN (ou com colaboração deste), sofreu um nítido incremento relativamente aos anos anteriores, sendo inclusivamente invertida a preocupante tendência que se vinha verificando na diminuição do ratio "artigos científicos/comunicações em manifestações científicas";
- Também durante o ano que passou, e no que se refere à revista científica editada pela EVN (Ciência e Técnica Vitivinícola), verificou-se um nítido incremento da sua procura para publicação por parte da comunidade científica, o que naturalmente originou um também nítido incremento dos parâmetros de exigência; os resultados começam a ser visíveis - aumenta a internacionalização da revista, aumenta o número de leitores e assinantes, parece aumentar o nível da sua referenciação externa. E ainda, como consequência, garante-se a sua periodicidade e o seu financiamento.

Para finalizar este capítulo (Divulgar), não posso deixar de referir ainda alguns aspectos correlacionados com esta temática, dando sobretudo alguma ênfase em conselhos aos investigadores mais jovens (fazendo uso da minha experiência de 30 anos como profissional da Ciência):

- A necessidade de, perante a nossa instituição, perante a nossa equipa e perante nós próprios, tomarmos as necessárias medidas para salvaguardar quer a originalidade dos resultados conseguidos quer a sua eventual adulteração: e o caminho eficaz é a sua publicação em revistas credenciadas (que não é exatamente o mesmo que "revistas com elevado poder de impacto"). A elevada competitividade existente no mundo científico abre caminho à possibilidade de meios menos claros ou mesmo eivados de desonestidade profissional. Não é um problema de hoje, mas de sempre. Cito-vos de novo Mira Fernandes, a propósito agora da obra de Galileu : "Galileo não imprimia os seus trabalhos por falta de meios, mas facilitava as suas descobertas a toda a gente. Daí as pretensões de usurpação de que a sua obra foi vítima".

- A permanente noção de que se publica a "nossa verdade de hoje", que eventualmente estará (muito possivelmente estará) afetada de erro, mas não de mentira. Ainda, e mais uma vez, me socorro de Varennes e Mendonça : "O errado opõe-se ao verdadeiro. Todavia, à verdade também se opõe a mentira. Quem mente não erra: procura induzir os outros em erro, o que é bem diferente. Quantas vezes, porém, à força de a repetir, acaba o mentiroso por acreditar na veracidade da sua mentira. Perguntar que é o erro equivale a perguntar: -Que é a verdade?"

- Continuando a basear-me no mesmo texto deste autor, insisto ainda na necessidade de clareza dos textos científicos publicados (e despidos de toda a informação dispensável à sua interpretação) e na criteriosa escolha do meio de divulgação dos resultados. Refere o autor: " quantas vezes não são os inovadores, pela maneira obscura como se exprimem, pela inacessibilidade dos seus trabalhos, publicados em revistas de pequena tiragem, em parte responsáveis pelas desfavoráveis reações?"

Mas, em suma, o cerne, a importância da atividade científica desenvolvida advém da publicação dos resultados obtidos, da produção científica, a única que afinal conta e fica, conforme Charles Lepierre , em 1928, explicitamente o refere a propósito da obra de Agostinho Vicente Lourenço, que ele classifica como primeiro químico português.

Tenho, propositadamente, vindo a citar diversos artigos de nomes cimeiros da Cultura e da Ciência portuguesas deste século, publicados, desde os anos 20, numa revista tecnico-científica editada pela Associação de Estudantes da escola que me formou. A escola é o IST e a revista é a "Técnica". Face à profundidade e à perenidade dos excertos que vos li, entre tantos outros possíveis, foi a forma que me pareceu mais evidente de demonstrar como é insubstituível que o pensamento científico fique registado (fique escrito) para poder ser património de todos, e portanto das gerações vindouras.

E vinco esta afirmação, com outra citação, novamente de Mira Fernandes, em artigo publicado na "Técnica", em 1948 : "A memória dos mestres, dos seus ensinamentos, do seu método, do brilho da sua exposição, do rigor do seu raciocínio, do encanto do seu trato, da pujança do seu talento, da sua devoção profissional e do seu poder de convicção, não pode ter a mesma perdurabilidade. As gerações que o ouviram e mais duas ou três que, por tradição, engrandecem e celebram as suas virtudes e o seu engenho, levam para o túmulo a lembrança da sua passagem no mundo. O que deles fica é o que deixaram escrito, como criação, ou como comentário: uma ideia nova, uma síntese feliz, uma afirmação de génio, ou um clamor de humanidade! Se não fora a devoção solícita e diligente de Platão, pouco restaria hoje da memória de Sócrates. Mas isso não quer dizer que a majestosa sumptuosidade espiritual dos "Diálogos" seja, sem desluzimento, a rigorosa expressão das suas lições".

Cooperar
"Cooperar" será (ou deverá ser) hoje o principal parâmetro orientador da atividade científica. É uma exigência dessa atividade. A Ciência é, em absoluto, uma atividade de equipa, é mesmo a resultante da complementaridade do trabalho de equipas. Hoje, pretender fazer "investigação científica" sem ter sempre presente esta realidade revela, não só uma monstruosa ignorância das leis que regem a metodologia científica, como também uma insensata forma de realização profissional. Um projeto científico, para ser isso mesmo, necessitará sempre de contribuições multidisciplinares. Que terríveis erros não se têm cometido por ignorar esta simples e evidente realidade!

Imagine-se como poderá o impacto dos resultados de um projeto científico ficar seriamente prejudicado, por se ignorar a colaboração de um estatístico; e não somos todos especializados em estatística (se bem que, melhor ou pior, todos tenhamos algumas bases dessa disciplina)!

Imagine-se que enormes erros de interpretação de dados de análise química se não cometem quando se prescinde da colaboração, num projeto, de um químico analista (mesmo considerando que temos uma base mínima de preparação nesta área do saber)!

E, inversamente, que erros de base, que ingenuidades não cometem os químicos, quando desenvolvem trabalho no âmbito de espécies biológicas, sem qualquer apoio de biólogos ou de bioquímicos, interpretando a biologia apenas à luz da reatividade das espécies químicas envolvidas em determinado processo!

Evidentemente que me refiro à cooperação interdisciplinar, na mesma Unidade de Investigação e à cooperação interinstitucional. Evidentemente que essa cooperação é hoje uma regra profundamente universal. Evidentemente que todos os "construtores de ciência", todos os investigadores a praticam.

Evidentemente. Mas será assim tão evidente? Não será também evidente que todos nós, alguma vez (ou mesmo muitas vezes) ignorámos esta realidade? Por ignorância, por impossibilidade de recurso a outros ou a outras equipas, por uma deficiente ou incompleta avaliação do know-how da equipa de um projeto, até por desleixo. São razões que julgo aceitáveis. As mulheres e os homens de ciência são como as outras mulheres e os outros homens. São humanos. Já é muito bom que reconheçam essas faltas e essas deficiências, e as procurem corrigir no futuro.

Mas, não estando em causa condicionalismos, superiormente definidos, de segurança ou de confidencialidade no desenvolvimento dos projetos, se as razões que possam levar a essas faltas tiverem como origem apenas a competitividade interinstitucional ou entre equipas ou mesmo entre profissionais da ciência, e casos há em que isso acontece (e todos conhecemos alguns)? Nesses casos, as razões são absolutamente inaceitáveis e inadmissíveis. Ferem os mais elementares deveres de ordem deontológica. Atingem a credibilidade da Ciência. Entravam o desenvolvimento da sua grande riqueza - a procura do "novo" e do desconhecido, o alargamento do conhecimento humano.

Após estas reflexões sobre os quatro parâmetros (aprender, inovar, divulgar e cooperar) que, na minha ótica, deverão ser o alicerce da atividade científica, da atividade dos "profissionais da construção da ciência", complementá-las-ia com algumas considerações de ordem genérica, ainda a propósito da atividade desses profissionais.

Gostaria de transmitir, sobretudo aos mais jovens, a importância que tem, na atividade científica, a tenacidade, que deverá sempre constituir o suporte fundamental na procura do "conhecimento novo" - o não desistir face às dificuldades surgidas, face às primeiras incompreensões dos fenómenos observados, face mesmo às incompreemsões dos outros, dos nossos parceiros. Cito-lhes, e mais uma vez, o matemático Mira Fernandes, a propósito da obra de Galileu : "em Galileo há sobretudo que admirar a sublime tenacidade da sua fé! Tão grande como a sua fé, só o seu desinteresse. E são esses, para nós, os maiores ensinamentos da sua obra".

Gostaria de lhes transmitir igualmente que, pese embora a inevitável e absolutamente necessária especialização de cada um, se deverá a todo o custo evitar a perda de uma permanente visão de conjunto de toda a realidade: que, na procura de tudo sabermos sobre quase nada, nos afastarmos irremediavelmente de nada sabermos sobre tudo.

Aos que venham a ter funções de direção e de chefia, gostaria de os aconselhar a cultivarem permanentemente as atitudes de exigência, começando por vós mesmos, lutando sobretudo contra as forças de inércia sempre associadas a qualquer estrutura: "(...) a ação diretiva tem de se fazer sentir principalmente no aspeto dinâmico das forças de inércia que andam associadas ao trabalho de criação" .

Concluindo: no fundo, todas estas considerações, de ordem pessoal, que vos tenho vindo a expor, são supostamente aplicáveis aos "construtores de Ciência" de hoje, mas têm como "pano de fundo" uma necessidade, hoje felizmente assente numa realidade: a "cultura científica" da sociedade. Dessa necessidade, nos fala Almeida Alves, há meio século, num artigo sobre o "conceito de equilíbrio na preparação cientifico-técnica" .

Dessa realidade, vos falei no início. Referi que um dos múltiplos aspetos com que hoje se caracteriza uma sociedade dita moderna do final do milénio é a assunção da "cultura científica" por ela própria, entendida não como património de alguns para o bem do poder instituído, nem sequer para o bem de todos, mas como património de todos, e construído por todos. Admito que me contradigam, que no fundo a Ciência continua ao serviço do poder (como sempre esteve, com honrosas exceções) ou antes, ao serviço dos poderes (que são múltiplos). Admito que a visão de uma "cultura científica", assumida e partilhada pela sociedade, que aqui lhes pretendo apresentar como realidade, é uma visão utópica. Admito mesmo que seja efetivamente uma utopia. Mas, no fundo o que é a utopia? Segundo os dicionários, é a "realidade imaginária". Portanto, é uma realidade. E mais, tem uma génese imaginária. Com a segurança que me dá o facto desta "realidade imaginária" ser partilhada, hoje, com tantas mulheres e homens do nosso país e da nossa Europa, poderei também contrapor com outra ideia-força: quais os avanços que a humanidade teve que não tivessem a utopia como origem e como base? Não será que o cristianismo foi uma utopia? Não será que o marxismo foi (e é) uma utopia? Não será que era uma utopia a independência dos povos colonizados, na primeira metade deste século? Até a independência de Timor Lorosae o era há um ano atrás! Há pouco mais de uma década, era utópico imaginar-se uma Rússia pluripartidária ou uma África do Sul com um Presidente negro. Tal como era também uma utopia, e regressando ao nosso tema, o nosso país ter um Ministério da Ciência e da Tecnologia! Com estes exemplos, apenas pretendi demonstrar, de uma forma que me parece muito clara, como a utopia, essa tal "realidade imaginária", poderá sê-lo mesmo, se o imaginário do homem for suficientemente forte para a transformar numa "efetiva realidade". De facto, “sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança…”, como nos disse António Gedeão.

Termino, socorrendo-me de novo de sons e de imagem.

O som que lhes deixo é uma interpretação de uma criação de Johann Strauss Jr., a famosa valsa Wein, Weib und Gesang (Wine, Women and Song; Vinho, Mulher e Canção), curiosamente traduzida pelos franceses por Aimer, Boire et Chanter. É a forma que escolhi para vos deixar uma múltipla mensagem (com uma enorme carga de esperança), e que já um outro meu mestre, o Prof. Jorge Calado, escolheu para ilustrar a sua conferência de abertura do XXIII Congresso Mundial da Vinha e do Vinho (Lisboa, 1998):

- O desenvolvimento científico é hoje uma manifestação do desenvolvimento cultural dos povos, tal como o desenvolvimento das artes e das letras: sublinho-o com uma notável criação artística no âmbito musical.

- Qualquer criação do espírito humano, património de todos, terá de encontrar as convenientes formas de registo que a façam perdurar na memória coletiva - por isso, nos podemos deliciar hoje a ouvir uma obra escrita em 1869!

- A génese e o alvo de toda a criação artística (incluindo a científica) é o ser humano. Qualquer obra de arte, qualquer avanço científico é uma festa da criação humana! É o belo que sai sempre reforçado. Por isso, também esta homenagem à mulher!

- Uma valsa vienense (século XIX) constitui, por si só, um dos múltiplos símbolos que poderão definir como, mesmo após um século de exaltação de outros valores (o século XX), a nossa cultura europeia ainda hoje é a grande referência da cultura do milénio que agora termina.

- Associar a música ao vinho, já no século XIX, isto é associar a arte à vida dos povos desta nossa Europa, constitui um enorme conforto para quem, como nós, há décadas pretendemos, num espírito de cultura europeia, desenvolver a ciência nesta área do saber.

A imagem vem-nos de uma das regiões mais pobres desta nossa Europa, de uma aldeia de uma pequena ilha da República da Irlanda. É uma imagem de profunda ternura e que nos faz interrogarmo-nos perante o futuro que estamos a construir, e que poderia ter origem nos campos da Sicília, numa aldeia das montanhas das Astúrias, em Trás-os-Montes, no Alentejo ou nos Açores, ou numa qualquer grande cidade. É uma imagem que nos apela para a nossa contribuição na construção de uma Europa das gentes e das comunidades. É nessa construção que acredito. Mesmo considerando que sou utópico.

No fundo, são sons e imagem que se completam! É o que vos deixo.


 
A Conferência termina com uma projecção de uma criança de uma aldeia da República da Irlanda, e com a audição da famosa valsa Wein, Weib und Gesang, de Johann Strauss Jr.

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