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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Luís da Silva Campos

Numa Conferência que proferi em 1999, intitulada “Cultura científica – aprender, inovar, divulgar, cooperar”, no âmbito de uma “Semana da Ciência e Tecnologia”, que irei republicar proximamente neste blogue, referia que toda a minha atividade científica teve como origem a forma “universitária” de estudar, de ler, de discutir, de equacionar e de resolver questões, de refletir e de me autocriticar que, ao longo de três ou quatro décadas me foi ensinada por mestres, por colegas e por discípulos, citando seguidamente alguns desses meus mestres: José Régio, Fernando Dias Agudo, Luís de Almeida Alves, João José Fraústo da Silva, Luís da Silva Campos, Pedro Manso Lefèvre e Isidoro Costa Netto.
Destaco aqui hoje um deles: Luís da Silva Campos. Para além de meu mestre, apenas dois anos mais velho que eu, foi um grande amigo meu… desde os meus 15 anos de idade até ao seu prematuro falecimento em Novembro de 2000.

Tratou-se de uma fascinante figura, que muito bem conheci. Posso hoje orgulhar-me de ter conhecido um “génio”, talvez incompreendido por muitos, como normalmente acontece com todos os génios…

Licenciado em Química pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, iniciou a sua atividade profissional em 1968, no Centro Nacional de Estudos Vitivinícolas, em Dois Portos, organismo que antecedeu a ex - Estação Vitivinícola Nacional, tendo aqui sido pioneiro em Portugal na aplicação da Cromatografia Gasosa na análise de vinhos, lançando as bases do que é hoje esta área do saber no nosso país. Esteve neste organismo pouco mais de um ano, tendo eu tido a sorte e o privilégio de lhe suceder nessa atividade, muito tendo beneficiado dos seus ensinamentos. Na prática, foi o orientador do meu estágio de Licenciatura em Engenharia Química (Instituto Superior Técnico).

Doutorou-se em Ciências (Química Orgânica) pela mesma Universidade. Desenvolveu toda a sua atividade académica no Instituto Superior de Agronomia (Universidade Técnica de Lisboa), onde foi Professor Catedrático de Bioquímica e Química Orgânica, desde 1987. Publicou, nestas áreas científicas, muitas dezenas de artigos científicos e quatro livros de texto: Manual de Bioquímica (1984), Guia dos compostos orgânicos e bioquímicos (1987), Entender a Bioquímica (1998) e Nomenclatura dos compostos orgânicos (1999, com colaboração de Prof. Miguel Mourato).

Trata-se de importantes e históricas obras, no seio da literatura científica em língua portuguesa. Será fácil de imaginar a dificuldade existente em adaptar nomenclaturas pensadas e estruturadas em línguas anglo-saxónicas (como as da IUPAC e da IUB) a línguas latinas (designadamente a portuguesa). É pois necessário possuir elevados conhecimentos da língua portuguesa, da língua inglesa e, neste caso, de Bioquímica e de Química Orgânica. Em todas estas áreas, os conhecimentos de Luís Campos eram excelentes e muitíssimo acima do normal. Isso explica a qualidade dessas obras e a importância que tiveram e ainda claramente têm no meio científico português. É um fato certamente reconhecido pelos milhares de estudantes e de cientistas, de língua portuguesa, que com essas obras aprenderam e que a elas frequentemente recorreram e recorrem.

Em todos esses livros, ressaltam igualmente as enormes capacidades de escritor do seu autor… Há passagens e até capítulos dessas obras, eminentemente obras científicas, que dão o prazer de ler, como se lê um romance…Veja-se por exemplo a Introdução do livro Entender a Bioquímica, sobre “A Ciência e a Vida”. E compreenda-se assim o interesse que uma obra deste tipo poderá ter para o meio estudantil, conduzindo-o a gostar de aprender. Que enorme foi pois, e em conclusão, o papel de Luís Campos, enquanto académico e pedagogo!

As capacidades de escritor de Luís Campos estenderam-se a muitos outros géneros.

Foi um dos maiores e mais conhecidos escritores portugueses de livros policiais, desde o início dos anos 60 (no início, com o pseudónimo de Frank Gold). Eis alguns títulos, que cito de memória: Gata em noite de chuva, Fogo, A morte indecente de Mónica B, As aventuras de Barney o aldrabão, Caso de morte, O estripador de Lisboa, As donzelas da noite.

Mais tarde, cerca de vinte anos depois, inicia a publicação de obras de crítica social e de humor sarcástico sobre a vida na sociedade atual.

Nesta sua faceta de escritor, um dos livros que maior sucesso teve (best-seller em 1983, ano do seu lançamento, com duas edições só nesse ano) foi o celebérrimo Viver sem trabalhar num país à beira-mar, posteriormente continuado por outro livro (Viver sem trabalhar... continua!). Eis as palavras de dedicatória do autor: "Este livro é dedicado a todos os políticos corruptos e incompetentes, prostitutas sem razão, prostitutos, chulos, comerciantes e intermediários sem escrúpulos, contrabandistas, falsificadores, mixordeiros, vadios e ociosos, carteiristas, especuladores, habitués das “caixas”, construtores de areia e cal, estudantes que não estudam, industriais exploradores, ricaços inúteis, “playboys” e meninas “bem”, homens e mulheres “bem casados”, trabalhadores que não trabalham, intelectuais sem valor, batoteiros, oportunistas e mangas-de-alpaca. Com toda a admiração que deve merecer essa elite deste País, porque, nos finais do século vinte e perante o desafio do futuro, tem a coragem de enfrentá-lo, e ao presente, com um ideal elevado: viver o melhor que pode fazendo o menos possível - isto é, à custa dos outros."

Um ano depois (1984) publica o Bêabá da malandragem, muito divulgado como “dicionário de calão” e continuação de outros dicionários, estudos e desenvolvimentos do calão na língua portuguesa (como os de Albino Lapa, prefaciado por Aquilino Ribeiro, de Eduardo Nobre, de Dinis Machado, de Mário Zambujal, de Mário Henriques Leiria…, citados pelo autor). Mas, referindo-se a este seu livro, é o próprio autor que nos diz: "Dicionário de calão também não é, em primeiro lugar porque a gíria da malandragem não é só por si o calão, e depois porque o “meio” só admite os códigos que ele próprio elaborou e não suporta dicionários que qualquer turista produza. Será um glossário da língua que falam os malandros (os bons e os maus), oficiais do gamanço, traficantes, prostitutas e prostitutos, ou consumidores de droga (esses poetas do outro lado da vida que, quer queiram quer não, fazem parte do “meio” sendo embora os únicos que dele não levam nada".

Em 1994, publicou o seu primeiro romance (e penso que o único): O Jardim das Plantas, obra de ficção baseada na sua experiência de professor universitário. Pela primeira vez num romance, a Universidade é o cenário e os que nela vivem são as personagens verídicas – é assim que o livro é apresentado. Bem elucidativa é a dedicatória do autor “Aos meus colegas, aos nossos alunos”, tal como é o que refere na apresentação do livro: “aqui se lembra também uma verdade por muitos esquecida – são os alunos que a povoam a própria razão de a Escola existir – por isso este livro lhes é em boa parte dedicado”. Pelo muito contato que tive com Luís Campos, sei bem a sua grande dedicação aos seus alunos. A enorme manifestação de pesar da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Agronomia, no seu funeral, demonstrou bem como esta dedicação era recíproca.

Em 1998, cerca de dois anos antes da sua morte, publica Luís Campos, em colaboração com Isabel Campos (sua mulher) o Dicionário de Gestão & Negócios Inglês - Português e Português – Inglês, com Glossário de Gestão (edição da Clássica Editora), incursão do autor em outro género de escrita.

A par de toda esta atividade, foi Luís Campos colaborador de programas de rádio, autor de uma série para a RTP e autor de um fundo musical para um filme português. Aliás, na música, foi um excelente pianista, quase autodidata; ainda muito jovem, quase para sobreviver, integrou uma orquestra de bar, em Londres.
Desde 1989 até praticamente à sua morte, mostrou a sua criatividade na pintura (óleo, guache e aguarela), com exposições em Portugal e na Bélgica. O sucesso dessas exposições foi enorme; poucas horas depois da abertura das exposições, todos os quadros estavam vendidos! Um desses quadros está hoje num dos espaços mais nobres da ex-Estação Vitivinícola Nacional, adquirido e oferecido ao organismo por um grupo de seus funcionários, como homenagem à sua profunda ligação com esta figura da Ciência, das Letras e das Artes. Está ainda na memória de muitos a enorme criatividade de muitos dos seus quadros, designadamente os que retratam a sua interpretação própria de quadros célebres dos mais famosos autores (apresentados na Exposição "De Vermeer a Renoir - uma viagem pela pintura").

Foi esta figura de invulgar capacidade de trabalho, de grande valor como professor, como pedagogo, como cientista, como escritor, como músico, como pintor e sobretudo como Homem que tive o privilégio de conhecer profundamente durante décadas. Contribuiu de forma indelével para a minha formação científica e sobretudo para minha formação de cidadania.

Foi no fundo um enorme comunicador, seja nas suas aulas e conferências, seja com as palavras escritas na língua que tanto dignificou, seja com as cores nos seus quadros, seja com os sons nas suas músicas. O seu objetivo foi sempre as pessoas…

A última vez que esteve no meu e seu organismo (a ex-Estação Vitivinícola Nacional) foi em 26 de Novembro de 1998, num Colóquio integrado na Semana da Ciência e Tecnologia, onde mais uma vez todos maravilhou com a sua pujança científica e o seu demolidor espírito crítico.

Faleceu em 1 de Novembro de 2000.

2 comentários:

  1. Qual foi a causa da morte prematura?

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  2. Resposta a Anónimo: a causa foi um cancro no pulmão.

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