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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

João Tavares – de aguarelista a cartonista... e as Tapeçarias de Portalegre

João Tavares, de seu nome completo João Augusto da Silveira Tavares, foi meu professor de Desenho, durante todo o meu curso liceal (de 1955/1956 a 1961/1962), no Liceu Nacional de Portalegre. Tal como eu, também ele próprio era natural de Portalegre (nascido em 1908) e também ele foi aluno deste Liceu (então Liceu Mouzinho da Silveira, designação a ser novamente adotada após o 25 de Abril). Fez toda a sua carreira docente neste Liceu, desde 1932 até à sua aposentação, tendo sido Vice-Reitor desde 1963.
Recordo designadamente as suas cativantes e muitíssimo bem estruturadas aulas dos dois últimos anos do curso, onde a disciplina de Desenho era fundamentalmente Geometria Descritiva, matéria em que as suas enormes qualidades docentes mais se manifestaram, tendo criado uma inovadora metodologia de ensino. Um quadrante construído a 3 dimensões, com duas placas de corticite, onde a charneira era a “linha de terra” (LT); uns alfinetes, uns arames, umas pequenas esferas, umas superfícies e uns sólidos de determinadas formas geométricas e, finalmente, uma fonte luminosa para a definição das sombras próprias e das sombras projetadas. E assim decorreu este curso de dois anos de Geometria Descritiva. Foi talvez a única disciplina do meu curso liceal em que nunca estudei em casa e foi certamente a disciplina em que fui melhor aluno (entre todas as outras). Todos os meus colegas, especialmente os que seguiram cursos superiores de Engenharia partilham certamente comigo esta minha opinião.

Alguns anos mais tarde, quando eu próprio estive um ano a lecionar esta matéria, entre diversas outras, num Colégio em Elvas (assunto que abordarei aqui proximamente), apliquei essa sua metodologia e aprendi o seguinte: se a metodologia funcionava em pleno na aprendizagem, era também a melhor para quem ensina! Durante a vida, tive ensejo de verificar como esta verdade é um dado universal, para tudo!

Mas o que ficou de João Tavares foi a sua enorme obra de pintor e de desenhador. Quantas obras o vi fazer em tantas das suas aulas, sobretudo nos primeiros anos (onde as aulas de desenho eram sobretudo os chamados “desenho à vista” e “desenho de repetição”).

Como aguarelista, a sua obra é extremamente vasta e valiosa. Os seus temas preferidos foram sempre os aspetos típicos das cidades e vilas. Numa procura essencialmente realista, duas cidades portuguesas captaram a sua atenção: Portalegre (como seria evidente) e o Porto! Muito conhecida é também a coleção de interiores da casa do poeta José Régio (seu colega, como professor, no Liceu de Portalegre, e também meu professor durante cinco anos – a esta ímpar figura me referirei proximamente).

Segundo Guy Fino, seu biógrafo, João Tavares, foi representante de Portugal na Exposição Internacional de Aguarelas em 1947, 1.ª medalha do Salão do Estoril, 1.ª medalha da Sociedade Nacional de Belas Artes, 1.º e 2º prémios Roque Gameiro.

A instalação da Manufatura de Tapeçarias de Portalegre fez com que o aguarelista João Tavares se transformasse em poucos anos em puro cartonista, conforme ainda Guy Fino, industrial de Portalegre, criador desta Manufatura, com Manuel Peixeiro, nos meados do século XX.

Ouçamos ainda Guy Fino: “Diria então que a disciplina requerida para a feitura de cartões para tapeçaria é antagónica à liberdade da aguarela. João Tavares fez o primeiro cartão - Diana - que viria a ser interpretado, dando origem à primeira tapeçaria portuguesa no ano de 1948. Nos muitos cartões que depois se lhe seguiram João Tavares é sempre um figurativo, que sabe melhorar a sua expressão estética, adaptando-se progressivamente às exigências da tapeçaria e acabando por obter por simplificação de formas, perspetiva plana, o enquadramento para o emprego da sua paleta característica. Numerosas tapeçarias em edifícios públicos, empresas privadas e coleções particulares atestam a sua atividade como cartonista. Mas o seu trabalho não ficou só na realização desses cartões; o professor mostra-se sempre quer no entusiasmo e cuidado que põe no seguir dos seus trabalhos, nas várias fases de execução, quer na criação de uma escola de aperfeiçoamento para as desenhadoras, na Manufatura”.

É hoje bem conhecida, em todo o Mundo, esta ímpar escola artística portuguesa (“Tapeçarias de Portalegre”). Entre tantos autores, nacionais e estrangeiros, que têm feito tapeçaria em Portalegre, destacamos: Almada Negreiros, Guilherme Camarinha, Maria Keil, Júlio Pomar, Vieira da Silva, Maria Velez, Costa Pinheiro, Sá Nogueira, Lurdes de Castro, Eduardo Nery, Menez, Graça Morais, José de Guimarães, Jean Lurçat, Le Corbusier. E o primeiro cartão foi de João Tavares, como muitos outros depois. Em algumas aulas suas, tive o privilégio de assistir a algumas dessas suas criações artísticas!

2 comentários:

  1. Conheci o seu blogue através da M.J.Falcão ( filha do dr. Feliciano Falcão), a qual também me delicia com o seu “falcão de jade. blogspot.com”.
    A si conheço-o, pois ainda nos cruzámos alguns anos nos interiores do Liceu e nas ruas de Portalegre. Sou do mesmo ano do irmão do Casanova Ribeiro, seu amigo.
    Sei que não me conhece. Sempre foi mais fácil aos mais novos lembrarem-se dos mais velhos.
    Gosto do seu blogue.
    A não perder.

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  2. tudo o que António garcia deixa escrito atrás é por mim corroborado e tb o muito que ensinei de geometria descritiva ao longo dos anos foi bebida nas aulas do dr. João Tavares .

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