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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

José Régio




Tal como João Tavares, a quem já me referi neste blogue, José Régio foi também um dos meus professores do Liceu de Portalegre que mais me marcaram.
José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, foi um dos mais brilhantes homens de letras portugueses do século XX – poeta, crítico literário, romancista, dramaturgo. Nasceu em Vila do Conde, em 1901. Licenciou-se em Filologia Românica em Coimbra, com uma tese de licenciatura subordinada ao título As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, na qual apresenta já Fernando Pessoa, como nome cimeiro da poesia contemporânea, autor que, na altura, ainda não tinha sido editado em livro. Mais tarde, reformulou ainda esta sua tese.
Ensinou durante mais de 30 anos, no Liceu de Portalegre.
Em Coimbra, foi um dos fundadores da revista e do movimento literário Presença, com Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca (em 1927), órgão do segundo modernismo, tendo sido o seu principal animador.
Faleceu em 23 de Dezembro de 1969, na sua casa de Vila do Conde.
Foi um dos mais importantes poetas do chamado segundo modernismo português. Com o seu primeiro livro (Poemas de Deus e do Diabo, 1925), explanou Régio quase todos os temas que viria a desenvolver em obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, o recurso à solidão, a problemática da sinceridade.
Com Encruzilhadas de Deus, publicado em 1936, atinge os momentos mais altos da sua poesia torrencial e reflexiva, ao mesmo tempo lírica e dramática (in Dicionário de Literatura, Editores do Minho, Barcelos, 2º volume, 1971).

O essencial da sua obra:
Poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), Encruzilhadas de Deus (1935-1936) Fado (1941), Mas Deus é Grande (1945), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), Música Ligeira (1970), Colheita da Tarde (1971).
Ficção: Jogo da Cabra-Cega (1934), Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), A Velha Casa (1945-1966), Histórias de Mulheres (1946), Há Mais Mundos (1962).
Ensaio: Críticas e Criticados (1936), António Botto e o Amor (1938), Em Torno da Expressão Artística (1940), As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa (1952), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), Páginas de Doutrina e Crítica da Presença (1977).
Teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem-Mãe (1947), El-Rei Sebastião (1949), A Salvação do Mundo (1954), Três peças em um Acto (1957).
Benilde ou a Virgem-Mãe foi adaptado ao cinema em 1974, por Manoel de Oliveira, realizador com quem Régio manteve uma relação próxima.
A personalidade e a obra de José Régio encheram uma época e ocupam um importante espaço da vida cultural portuguesa, e só por si são um orgulho para a cultura do século XX português. O Padre Manuel Antunes, com a autoridade que se lhe reconhece, considerou mesmo Régio como "o escritor mais completo do século XX português". Foi um homem realizado em todos os aspetos em que aspirou realizar-se. Não se realizou a nível político, mas também não foi um político mas antes de tudo um homem religioso. Situá-lo numa época antes de mais política e conferir-lhe em função dessa época os atributos que revestiam a sua missão enquanto escritor é, pelo menos, anacrónico. Régio procurou acima de tudo ser um espírito religioso, no sentido positivo que a religião apresenta nos seus representantes proféticos, nos seus apóstolos, nos seus evangelizadores.
Depois dos seus intensos tempos de Coimbra, Portalegre era o isolamento - uma pequena cidade provinciana sem horizontes culturais, sem amigos. Aqui o autor de A Velha Casa leva a cabo uma obra literária notável pela sua profundidade, pelo seu volume e pela sua variedade.
A mudança para o Alentejo foi-lhe difícil. “Mas vencida a resistência dos primeiros tempos, acaba por cair numa habituação difícil mas profunda e a estranha casa da Boa Vista iria tornar-se o melhor ambiente de trabalho, a oficina onde a maior parte da sua obra seria elaborada À medida que vai criando amigos e raízes em Portalegre a vida solitária vai-se-lhe tornando menos difícil, às vezes quase aprazível. O tédio e o desespero tornam-se, também, promotores de criação; o autor assume e utiliza a solidão mas, no fundo, não se resigna a ela” (in: Luís Miguel Costa, Breve biobibliografia de José Régio, www.fe.up.pt).  
Grande parte da sua obra apresenta uma forte ligação a Portalegre, cidade onde viveu durante mais de três décadas. O seu poema Toada de Portalegre, imortalizado pela voz de João Villaret, é apenas um dos diversos exemplos que poderíamos aqui referir.
Régio foi também um apaixonado admirador e colecionador de arte popular e reuniu ao longo da sua vida um conjunto de peças de mobiliário, arte sacra, louças, pintura e escultura, que constituem hoje o acervo das suas duas Casas-Museu (de Vila do Conde e de Portalegre).
Como professor, sempre no Liceu de Portalegre, era muito meticuloso, distante e austero, com grande interesse pelas atividades dos estudantes, chegando mesmo a escrever e a ensaiar uma peça de teatro com os alunos (onde o ator Artur Semedo, então aluno deste Liceu, se estreou na profissão que viria a abraçar durante toda a vida).
Fui seu aluno de Português e de Francês, no Liceu de Portalegre, de 1955/1956 a 1959/1960. Julgo que terá muito a ver com o fato que, desde sempre, a língua estrangeira que melhor dominei e domino seja a francesa.
Mas tem sobretudo a ver com a forma como me expresso, na escrita da língua portuguesa, na pontuação, na utilização dos tempos dos verbos, na utilização criteriosa dos sinónimos, …
É por exemplo o caso da distinção do vocábulo se: o se reflexo ou o se sujeito. Pensemos um pouco: deverá dizer-se “vende-se casas” (o "se" sujeito) e não “vendem-se casas” (o "se" reflexo)! Será fácil compreender esta distinção se traduzirmos para uma outra língua latina (onde, por exemplo em francês, o "se" sujeito corresponde ao vocábulo "on"). Ao longo da minha vida profissional que dificuldade eu tive em explicar isto aos meus colegas (que me afirmavam que se deveria dizer “medem-se 100 mL de água” ou “mede-se 1 mL de água” e não, como é correto, dizer-se “mede-se 100 mL de água” ou “mede-se 1 mL de água”). Há algum tempo, vi Edite Estrela, linguista e reputada especialista em língua portuguesa, confirmar o que referi, admitindo contudo que, pelo uso e sendo a língua portuguesa uma língua viva, poderem ser admitidas as duas formas de expressão. É isto um exemplo, entre muitos outros, do que aprendi de expressão em língua portuguesa com o meu professor Dr. Reis Pereira, isto é, José Régio, o grande Homem da literatura portuguesa no século XX.
Anos mais tarde, nas tertúlias do Café Facha, ainda em Portalegre, na companhia de tantos outros nomes da cultura daquela pequena / grande Cidade (Feliciano Falcão, Ernesto de Oliveira, Arsénio da Ressureição, entre muitos outros), aprendi com ele muito mais – sobre Arte, sobre História, sobre Literatura, sobre Moral, sobre Política, sobre Teatro, sobre Cinema, sobre o gosto de conversar, de estudar, de ler, de ter amigos. Sinto um grande privilégio de ter sido seu aluno e seu amigo separando-nos quase meio século de idade. Trata-se, de fato, de um dos maiores nomes da cultura portuguesa do século XX.

Termino este artigo, com dois dos mais conhecidos poemas de Régio – Cântico Negro (declamado pela genial Maria Betânia) e Fado português (cantado por Amália Rodrigues)





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