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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A APLICAÇÃO DA CIÊNCIA QUE SE PRODUZ

Quantas vezes não são os Investigadores confrontados com questões como as seguintes. Qual o destino da investigação produzida? Como chegam os resultados do aumento de conhecimento obtido aos utilizadores últimos desse acréscimo de conhecimento? Como se processa a passagem dos resultados obtidos da Investigação para o setor produtivo? Os Investigadores, sobretudo fixados na publicação de papers científicos e no seu próprio curriculum, que fazem para que o resultado da sua atividade seja aplicado pela sociedade?
Parece-me evidente que muitas das críticas feitas aos Investigadores, neste sentido, são injustas e assentes num desconhecimento do que é a atividade de investigação e da forma como se deverá processar essa transferência de conhecimento. Muitos dos que tecem estes comentários acabam por confessar que não leem o que é escrito sobre essas temáticas e que nem sabem mesmo onde procurar essa informação. Critica-se por criticar, com o atrevimento de opinar sobre o que se desconhece.
Mas, por outro lado, deverá claramente caber aos Investigadores procurar as formas de fazer chegar aos potenciais utilizadores do aumento de conhecimento de que foram autores os resultados dessa sua atividade, para além da divulgação realizada pelos processos clássicos e insubstituíveis para essa divulgação (a publicação de artigos em revistas científicas e a apresentação de resultados em fora de natureza científica e técnica).
Em diversas ocasiões, em diversos locais, e por diferentes formas, tenho expresso quais as formas que, pela experiência que fui possuindo, me parecem as mais importantes e de maior eficácia, pelo menos nas áreas em que tenho exercido a minha atividade de investigador: o envolvimento do setor produtivo (empresas e associações de produtores) na conceção e execução de projetos de investigação e desenvolvimento tecnológico conjuntos, a realização de ações de divulgação e demonstração dos resultados de projetos e a inclusão de profissionais do setor produtivo nas equipas de trabalho dos projetos, numa ótica de formação profissional in loco.
Pessoalmente, reconheço que, de um ponto de vista profissional, sempre tive sorte na vida. E, no aspeto que temos vindo a falar, também: de Setembro de 1990 a Fevereiro de 1992 fui chamado a exercer funções de Vice-Presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), organismo de cúpula do setor vitivinícola português e, exatamente por isso, um dos principais destinatários da atividade de investigação que vinha desenvolvendo há cerca de duas décadas.
É essa minha atividade que irei seguidamente abordar.
Não foi fácil, para o então Presidente do IVV, meu grande amigo desde há muito, João Carvalho Ghira, convencer-me a aceitar este desafio, de ser Vice-Presidente do IVV. Tinha sérios receios de terminar aqui a minha carreira de investigador, para além das inevitáveis saudades que iria ter da minha casa-mãe, em Dois Portos. Para me decidir a aceitar, foram decisivas as palavras de um grande amigo, e que foi também uma enorme referência na minha atividade científica – Manuel Bravo Lima. Cito de memória essas palavras: “não pense que lhe facilite a tarefa, dizendo-lhe para não aceitar o lugar que lhe propõem; oiça quem quiser, mas decida só você!”. Segui o conselho. Ouvi muitos amigos e a minha família. Quase todos me incentivavam para não aceitar. Muito refleti, e decidi… aceitar! Para essa decisão, pesou talvez favoravelmente alguma atitude de discriminação de que estava a ser vítima na minha instituição.
Nunca me arrependi de ter aceitado. Foi um ano empolgante, de imensos desafios, procurando contribuir para transformar a realidade do setor vitivinícola português. Muito aprendi. Ao fim de ano e meio, saí consciente de ter feito muito mais do que imaginava que poderia fazer, mas muito menos do que gostaria de ter feito.
Nessas funções, tinha competência delegada para tutelar a Direção de Serviços de Administração, a Direção de Serviços de Controlo de Qualidade, a Câmara de Provadores e o Departamento de Vinhos de Qualidade. Que realização senti em poder transferir para a realidade vitivinícola portuguesa tantos resultados da atividade de investigação em que tinha estado diretamente envolvido. Essencialmente no âmbito das metodologias do controlo de qualidade dos vinhos e de outros produtos vitivinícolas. Mas também no novo enquadramento legal que então nascia para a caracterização das denominações de origem, desde a implementação das Comissões Vitivinícolas Regionais, a criação da denominação de “Aguardentes da Lourinhã” e das denominações, para vinhos alentejanos, de “Évora”, “Moura” e “Granja-Amareleja”, a implementação da categoria de “Vinhos Regionais” (particularmente “Terras do Sado” e “Alentejo”).
Ainda no exercício das funções de Vice-Presidente do IVV, tive a oportunidade de propor ao Governo a criação de uma Comissão Nacional do OIV (Office International de la Vigne et du Vin), o que veio quase de imediato a acontecer (em Fevereiro de 1991). Essa criação foi uma necessidade que sempre senti, desde que comecei a acompanhar a participação portuguesa junto dessa organização internacional. Nunca me conformei com a forma tão pouco profissional como esta problemática era encarada em Portugal, por parte das instituições com responsabilidades neste setor. O percurso da participação portuguesa nesta organização, nos últimos vinte anos, demonstra bem o que de positivo originou essa criação: a organização de quatro manifestações internacionais, entre as quais dois Congressos Mundiais, a eleição de um Presidente português, a eleição de cerca de dezena e meia de portugueses para funções diretivas no OIV, a apresentação de quase uma centena de comunicações, em Congressos e outras reuniões… Constituiu este fato uma enorme oportunidade para, quer eu próprio, quer diversos outros meus colegas portugueses, podermos levar o resultado das nossas atividades de investigação ao setor vitivinícola mundial. No meu caso pessoal, que sempre trabalhei no âmbito das metodologias analíticas aplicadas ao controlo de qualidade dos vinhos e de outros produtos vitivinícolas, foi esta oportunidade extremamente importante: a consagração de trabalhos realizados por equipas que integrei como metodologias reconhecidas internacionalmente, a contribuição de atividades científicas realizadas em Portugal para os compêndios internacionais de métodos de análise de mostos e vinhos, de álcoois e bebidas espirituosas e de vinagres de vinho (trabalho este quase exclusivamente de Portugal).
Duas palavras sobre a minha saída de Vice-Presidente do IVV: estava em missão oficial em Estrasburgo, quando soube, por uma notícia publicada num jornal de Lisboa, que me foi enviada por Fax para o hotel, que a Direção do IVV ia ser substituída, por não ser renovada a comissão de serviço do respetivo Presidente. Quando cheguei a Lisboa, de imediato apresentei ao Governo o pedido da cessação da minha comissão de serviço como Vice-Presidente, em solidariedade com o Presidente, recusando logicamente quaisquer eventuais indemnizações que eventualmente me seriam devidas. Para trás ficava um período muito rico da minha experiência profissional. Muitas grandes pessoas (na maioria, anónimas) conheci, e com elas muito aprendi.
Passei a conhecer o setor vitivinícola, para o qual sempre procurei contribuir, com outra compreensão, com outros olhos. Passei a ver a mesma realidade, de um outro ângulo. Por tudo isto, muito enriqueci a minha atividade de investigador. A principal riqueza deste período da minha vida profissional foi seguramente ter conseguido, por uma outra forma, fazer chegar os resultados da investigação ao setor produtivo, utilizadores últimos desse acréscimo de conhecimento.
É evidente que esta forma que me foi proporcionada de poder intervir na realidade deste setor produtivo com base nos conhecimentos adquiridos nas atividades de investigação em que participei foi enriquecedora e foi, para mim, extremamente importante. Mas reconheço que a oportunidade que me foi oferecida não é muito vulgar. Mas muitas vezes poderão surgir oportunidades deste tipo, embora evidentemente com contornos muito diferentes. Recomendo a todos os investigadores que me possam ler que, se estiverem perante oportunidades deste tipo, não as desperdicem… Verão como é gratificante assistir “em direto” a essa transferência de tecnologia e de conhecimento.
Mas, repito o que anteriormente referi: o envolvimento do setor produtivo na concepção e execução de projetos de investigação e de desenvolvimento tecnológico conjuntos, a realização de ações de divulgação e demonstração dos resultados de projetos e a inclusão de profissionais do setor produtivo nas equipas de trabalho dos projetos, numa ótica de formação profissional in loco, constituem processos de excelência para proceder à transferência de tecnologia da investigação para os seus utilizadores

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