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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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domingo, 31 de outubro de 2010

Do fim da Ditadura ao princípio da Democracia


21 de Junho de 1971
Em Agosto deste ano, faria quase dois anos que tinha iniciado a minha carreira de investigação científica, no então Centro Nacional de Estudos Vitivinícolas, em Dois Portos (concelho de Torres Vedras). Estava quase de partida para França onde, no Institut d'Oenologie de Bordeaux, iria preparar o meu Doutoramento, no Laboratório do Doutor Jean-Noel Boidron, sobre aromas de vinhos (tema em que trabalhava desde que iniciara a minha carreira científica). Tinha já tudo acertado nesse Laboratório, bem como na entidade que me tinha concedido uma bolsa (o então existente Instituto de Alta Cultura).
Nesse dia (21 de Junho de 1971) recebi a Notificação-postal da Polícia de Segurança Pública para me deslocar ao 4º Bairro Administrativo de Lisboa, para levantar as guias militares para me apresentar, em 12 de Julho, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, para frequência do 3º turno de 1971 do Curso de Oficiais Milicianos.
Com essa notificação, ficava para trás o meu projeto de doutoramento. Quantos milhares de projetos pessoais foram assim eliminados no nosso país... com um simples aviso-postal como este! Toda a minha geração foi assim "castrada". Seria o contraponto para uma geração que tinha tido o privilégio de ser contemporânea dos Beatles, de ter estado no Maio de 68 em França e de ter estado com o Zeca Afonso a iniciar a autêntica música portuguesa. Estávamos no tempo da Guerra Colonial e toda a juventude portuguesa era "empurrada" para as diversas frentes de combate em África... e não sabíamos (embora desejássemos e imaginávamos) que o fim da Ditadura (e da guerra colonial que dela decorria) estava próximo.
Pois em 12 de Julho de 1971, pelas 15 horas da tarde, atravessei o portão de entrada e o pátio da Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Começava então o meu percurso militar...
Integrei duas Companhias de Instrução: a 6ª e posteriormente a 1ª, após a minha reclassificação nos Serviços Auxiliares. Recordo um dos Comandantes que tive (Capitão Jónatas) que sempre me pareceu um oficial diferente, pela sua forma correta de tratar os inferiores hierárquicos, pelo seu humanismo e pelo seu nível cultural. Três anos depois, foi um dos oficiais do "Movimento das Forças Armadas" que terminou com a Ditadura. Foi figura mediática no processo de independência de Timor. Terminou a sua carreira militar, passando a integrar, como Técnico, um dos organismos do Ministério da Agricultura, onde eu próprio sempre exerci funções.
Durante todo o período que estive em Mafra, muitas lições recebi, que me foram de enorme utilidade em toda a minha vida: lições de camaradagem, de solidariedade, de sacrifício pelos outros...
Nos primeiros dias, em que não se podia sair do quartel, soube que iria ser pai (do meu primeiro filho). Nesses momentos, consegui resistir fechado no quartel, graças ao apoio de muitos e diversos amigos, que comigo se encontravam (alguns, já amigos de longa data, mas a maioria amigos desde há poucos dias). Logo que consegui sair do quartel, vim clandestinamente para Lisboa, protegido por alguns deles...
Em Setembro, soube que o estado de saúde do meu pai, internado num Hospital de Lisboa, tinha seriamente piorado. Estava entre Torres Vedras e o Bombarral, em exercícios de campo.  A muito custo, consegui telefonar à noite, num café do Bombarral (note-se que nesses tempos não havia telemóveis), iludindo todas as normas disciplinares e de segurança, com a cumplicidade de alguns amigos e de um oficial que me acompanhou.
São solidariedades deste tipo, tão simples, que nunca se esquecem até ao fim da vida!
Ao fim de três longos meses, foi-me atribuída a especialidade de "Artilharia Antiaérea - Radar".
Em 27 de Setembro, iniciei então o 2º ciclo do Curso de Oficiais Milicianos (nesta especialidade) no Centro de Instrução de Artilharia Antiaérea e de Costa, em Cascais, que terminei em 11 de Dezembro. Durante estes dois meses e meio em Cascais, num enquadramento logístico bem melhor que em Mafra, novos amigos conheci, fazendo mesmo alguns entre os Oficiais do Quadro. Um deles veio a ser, pouco tempo depois, um dos mais carismáticos elementos do "Movimento de Capitães", sendo inclusivamente membro do "Conselho da Revolução" (no pós-25 de Abril) - Capitão Sousa e Castro.
Contudo, fiquei sempre com a sensação de que nunca me perdoaram eu ter constituído, juntamente com três amigos e camaradas meus, um núcleo da organização de um "levantamento de rancho" que se verificou nesta Unidade de Cascais, levantamento de rancho este determinado não tanto pela qualidade da alimentação fornecida, mas visando sobretudo uma maior participação dos cadetes na vida institucional, nas ações de formação e até na reflexão conjunta sobre a vida militar e a participação na guerra colonial. Temas tabu nesses tempos! E, para oficiais do quadro, eram temas que não poderiam admitir ser tratados por simples cadetes, à frente de todos. Contudo, esta Unidade era um pouco especial, até pelo nível cultural de muitos dos seus oficiais. Não foi por acaso que daqui saíram diversos elementos do  "Movimento de Capitães" e que, sendo das mais pequenas Unidades da Região Militar de Lisboa, lhes foi confiada a muito importante missão de ocupação do Aeródromo de Tires, de 24 para 25 de Abril de 1974, aeródrmo que poderia ser usado na fuga de importantes figuras do regime.
Em 3 de Janeiro de 1972, apresentei-me no Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa (RAAF), em Queluz, já com o posto de Aspirante a Oficial miliciano. Fui de imediato nomeado Adjunto do Comandante da Bateria de Instrução (BI), funções que exerci sempre até Julho de 1974, data em que terminei o serviço militar, intervalando contudo, e por diversas ocasiões, com as funções de Comandante dessa Bateria (subunidade que chegava a ter, nos seus efetivos, cerca de 700 a 800 homens).
Considero hoje curioso como, em tempo de guerra, se poderia entregar a um simples oficial miliciano no início da sua carreira militar, ainda por cima com um já significativo "cadastro" em ações consideradas pelo regime como "subversivas", um tão elevado poder bélico! Quase um milhar de homens armados e com um muito significativo armamento de artilharia pesada...
Ao que levava a tão grande carência de oficiais nas Forças Armadas!
E como situações deste tipo, e foram muitíssimas, vieram a contribuir para o "25 de Abril"!
Recordo um dos primeiros dias das minhas funções de Adjunto do Comandante da BI. São 8 horas de uma fria manhã de Janeiro. Está toda a Bateria formada na parada. É ainda noite. Era o pagamento do pré aos soldados e recrutas. Oiço o Comandante da Unidade a berrar e a chamar por mim: "onde está o nosso Aspirante?" Apresento-me e continua aos berros: "Nosso Aspirante! O Comandante de uma subunidade tem de assistir e coordenar o pagamento do pré às praças! Para eles saberem bem quem é o seu Comandante, tal como os cães reconhecem o dono pelo que lhes dá a comida!"
Comecei então a perceber o que era a tropa que não era certamente a minha! Que semelhança de linguagem com uma frase que, algum tempo antes, tinha ouvido a um grande agrário alentejano, num café em Elvas: "Só acredito que os meus trabalhadores passem fome quando os vir a comer erva!"
Era o Fascismo em toda a sua plenitude!
Num campo diametralmente oposto, nesses tempos do RAAF, em Queluz, diversas outras recordações tenho: as de tantos amigos que fiz e de tanta solidariedade que presenciei. Cito, por exemplo, a que tenho do Capitão Henrique Maurício ("o capitão cenoura"), bastante tempo Comandante da tal BI, sendo eu seu Adjunto. Humano, culto, homem de causas... Era inevitável que ficássemos amigos!
E, no RAAF, o que eu aprendi com os homens da Escola de Recrutas de Clarins... escória da sociedade, homens provenientes do submundo da sociedade portuguesa, dos bairros limítrofes de Lisboa, de Setúbal e do Porto, cadastrados... Mas, até aí fiz amigos... Como o soldado que estava preso e que quis falar comigo, sendo eu Oficial de Dia, para eu o deixar sair, deixando um outro soldado como preso, como garantia de que voltaria... Como um outro que me contou uma trágica história da sua vida (entregar a sua mulher à prostituição para conseguir que a mãe tomasse a guarda do seu filho)... Como um outro ainda que, na data do seu aniversário, me quis oferecer uma cerveja, só para poder dizer aos outros que tinha festejado o seu aniversário com um oficial... Tantas histórias que partilhei com pessoas, com pessoas boas, simples mas muito boas...
Fui promovido a Alferes em 25 de Maio de 1973, quase um ano antes do 25 de Abril!
A Unidade onde estava (o RAAF) era uma espécie de "caixa de soldadinhos de chumbo": "guardas de honra" em Lisboa era com ela! Como oficial, participei em vinte e uma, para além dos aparatosos (e diários) renderes da guarda, com fanfarra e desfile frente ao Palácio de Queluz! Devo ter ficado em dezenas ou até centenas de fotos e filmes de turistas de diversas nacionalidades... visitantes deste Palácio e que aproveitavam para gravar estas manifestações trágico-cómico-militares!
De todas essas guardas de honra, recordo, pelos piores motivos, as que integrei em 14 e 19 de Maio de 1973, na chegada e partida do Presidente Médici (do Brasil), imagem de uma Ditadura do outro lado do Atlântico. Em 14 de Maio, na sua chegada, cerca de seis horas ao sol, em Alcântara, como Comandante de uma Bateria. Seis penosas horas, sob um sol abrazador... Muitos dos soldados que comandava se sentiram mal durante essas horas. Durante a noite seguinte, estava já eu de Oficial de Dia, um deles faleceu, por insolação... No registo do seu óbito, lia-se: "causa da morte - epilepsia, nunca anteriormente detectada". Assim, a família pouco ou nada viria a receber de qualquer indemnização do Estado.
Assisti, com impotência, a muitas outras mentiras como esta!
Tal como assisti, quase incrédulo, à reação do Comando da Unidade, na parada, ao denominado "Golpe das Caldas" (em 16 de Março de 1974);  a coluna militar que vinha das Caldas da Rainha rumo a Lisboa, iria atravessar a zona que, na quadrícula da defesa da Capital, estava sob a responsabilidade do RAAF; Dizia o Comandante da Unidade aos oficiais que sairiam para a rua: "a opção é persuadir a coluna que vem das Caldas a voltar para trás; se não conseguirem, deixem passar e alguém que os pare antes de chegarem ao Terreiro do Paço". Era este, e felizmente, o sentido militar e do alto comando, para a defesa do regime!
Estava em casa, na noite de 24 para 25 de Abril (de 1974), quando recebi uma chamada telefónica do meu amigo bairradino (de Aguim, Anadia) António Costa, Oficial de Dia da minha Unidade (o RAAF), encaminhando uma ordem do Comandante Coronel Torres de Magalhães, determinando a entrada imediata em prevenção, por estar em curso um golpe militar. Meia hora depois estava na Unidade, onde, conjuntamente com os cerca de vinte oficiais, torcia pelo sucesso do golpe! Estava a concretizar-se o alerta que, 48 horas antes, me tinha sido secretamente dado pelo meu já amigo "capitão cenoura" (Henrique Maurício).
O RAAF não era Unidade integrante do "Movimento de Capitães". Por isso tinha de sair para a rua, em defesa do regime. Havia que travar essa ação. Oficiais milicianos éramos vinte e dois. Para esta ação de "travagem", fomos vinte e um. Mas saiu mesmo uma coluna para a rua, com um major e um alferes!!! Simplesmente, não conseguiu passar da Amadora (e nós estávamos em Queluz!), porque o povo apenas os aclamavam, julgando tratar-se de tropas do Movimento. Foi também com centenas de fatos como estes que o "25 de Abril" triunfou.
Esse dia foi agitadíssimo, no interior da Unidade. Sem quase falarmos, nós os oficiais, os sargentos, os soldados estávamos a presenciar ao vivo a mudança da História do nosso país. Olhávamos uns para os outros atónitos, e ríamos, e chorávamos... Estávamos a assistir, em direto, ao fim do período mais negro da nossa pátria, dos últimos séculos!
Nesse dia, depois da leitura da primeira declaração da Junta de Salvação Nacional, na televisão, fui para o meu quarto improvisado no gabinete do Comando da minha Bateria. Eram cerca de 3 horas da manhã. Apaguei a luz. E pensei... hoje deve ter sido um dia muito importante na História do meu país. Vai ficar certamente na História! Que dia foi ontem? 25 de Abril de 1974!
Em 27 de Abril, o RAAF continuava a não se pronunciar sobre de que lado estava. Nesse dia de manhã, houve então uma reunião dos cerca de vinte Oficiais Milicianos que me encarregaram de propor ao Comandante que a nossa posição era claramente de apoio ao "Movimento de Capitães" e que me indicavam para comandar a primeira ação exterior da Unidade. Dois dias antes, esta minha ação teria como consequência certamente uma voz de prisão. Nesse dia, o Comandante ficou apreensivo, mandou-me sair do seu gabinete e... algumas horas depois... chamou-me, referiu-me que o Quartel General lhe tinha colocado o seguinte dilema: ou a Unidade se rendia ao "Movimento de Capitães" ou entraria em ação ao lado do movimento com uma Bateria na rua! Perguntou-me se eu seria mesmo voluntário para comandar essa Subunidade. Claro que respondi afirmativamente, colocando eu então condições: ser eu a escolher os oficiais e sargentos que me acompanhariam, designando eu um oficial da minha confiança para ficar na Unidade a controlar todos os movimentos internos e em ligação permanente comigo via rádio. Todas essas condições foram aceites.
Foi esta uma das maiores honras que tive em toda a minha vida. E que dificuldade tive em escolher os oficiais que me acompanhariam (um oficial meu adjunto de comando, um oficial de transmissões e quatro comandantes de pelotões): todos queriam sair comigo!
Assim, ao fim da tarde desse dia, saí para a rua a comandar a primeira Bateria do RAAF a sair para o exterior, com um efetivo de 7 oficiais, 12 sargentos e 130 praças, em cerca de 30 viaturas. Apresentei-me no Quartel General da Região Militar de Lisboa, em S. Sebastião da Pedreira. As missões que me foram atribuídas pelo Movimento foram: render os fuzileiros navais na Escola da ex-PIDE (em Sete Rios), reforçar as tropas que se encontravam no Quartel da GNR no Carmo, guardar as instalações das sedes da ex-Comissão de Censura e do ex-jornal do regime "A Época", ficando com um pelotão às minhas ordens no Batalhão de Caçadores 5 (BC5), na Rua Marquês Sá da Bandeira.
São indiscritíveis as cenas que presenciei nessa noite de 27 para 28 de Abril de 1974 e na manhã de dia 28. Populares, no portão do BC5, trazendo leite e sandes para os militares. O meu encontro, nesse BC5, com o meu ex-colega do Liceu de Portalegre, Capitão Camilo, um dos primeiros e mais determinados obreiros do "Movimento de Capitães", que comandava revolucionariamente a Unidade após ter prendido o respetivo comandante. A travessia de diversas artérias da cidade de Lisboa (Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade, Restauradores, Rossio, Chiado, Rua da Misericórdia), por entre uma multião entusiasmada e entusiasmante, vitoriando os militares, o povo e a Revolução. A triagem que tinha, rapidamente, de fazer com os cidadãos que populares me entregavam, denunciados como agentes da PIDE ou como legionários: enviá-los ou não aos delegados do "Movimento de Capitães" que se encontravam no Quartel do Carmo. A maioria saía em liberdade, mas alguns ficaram mesmo detidos.
E, por outro lado, que cenas divertidas presenciei: por exemplo, a distribuição do rancho em plena Rua da Misericórdia (por não ser permitida a distribuição de rações de combate, apenas destinada às frentes da guerra em África) ou a decisão das prostitutas do Bairro Alto (na zona das sedes da ex-Comissão de Censura e do jornal "A Época") em "isentarem" os militares, nesses dias, do pagamento dos seus "serviços".
Comandando o primeiro efetivo militar que entrou nos serviços da ex-Comissão de Censura, tive a oportunidade de ver ainda, ao vivo, como esses carrascos da cultura e do povo deixaram os seus gabinetes. Tive alguma dificuldade em evitar que muita dessa documentação fosse destruída: tinha consciência de que se tratava de importantíssima documentação com um interesse histórico futuro. O principal dessa documentação foi protegido por membros do Movimento. Contudo, trouxe comigo alguns desses documentos, provavelmente de importância secundária, documentos que há alguns anos doei ao Museu da República e da Resistência.
Ao terminar esta ação, recebi ainda ordem para ir ao Castelo de São Jorge, com toda a Bateria que comandava, desalojar uma Companhia da Legião que lá se encontrava. Não foi necessário qualquer ação bélica: os legionários retiraram sem qualquer reação!
A finalizar, recordo a emoção que tivemos ao regressar à nossa Unidade. Fomos rendidos por outra Bateria, agora (finalmente) comandada por um Capitão do Quadro Permanente: Capitão Lourenço. Começava a ficar "em ordem" a estrutura militar!
Em 1 e 2 de Maio seguintes, voltei de novo a comandar uma Bateria do RAAF, na rua. Os oficiais e sargentos que me acompanharam foram já outros, com exceção do meu Adjunto, que foi o mesmo, e evidentemente escolhido por mim: um Aspirante, natural do Minho, residente no Porto, que ficou muito meu amigo. Não me recordo do seu nome: era o Joca. Nunca mais o vi!
Recordo, por exemplo, uma situação vivida no quartel, três ou quatro dias depois do 25 de Abril. Estávamos ainda em situação de prevenção. Por isso, ao jantar, na Messe de Oficiais, estavam todos os oficiais da Unidade, incluindo o Comandante e o Segundo Comandante. A certa altura, o Joca (que estava de Oficial de Dia) andou de mesa em mesa, informando que tinha sabido que o Capitão Maurício (o "cenoura"), nessa altura já bem conhecido como membro do MFA, viria juntar-se a nós ao jantar. E ia dizendo: quando ele entrar na sala, levantamo-nos todos, colocamos a boina e fazemos-lhe a continência!
Seria a nossa pequena homenagem a um de nós que tudo arriscou (incluindo toda a sua carreira) no 25 de Abril.
E assim aconteceu!
Ainda hoje tenho nos ouvidos o "berro" do Comandante: "Sentem-se todos imediatamente! Nosso Aspirante (referindo-se ao Joca), espere por mim à porta do meu gabinete!"
Estávamos a assistir em direto à passagem de poder da Ditadura para a Democracia, sem o Comandante estar a dar por isso!
De seguida, tive a honra de, enquanto oficial miliciano mais antigo, na ausência de qualquer ação dos oficiais do quadro permanente e, ironicamente, já "experimentado" na "revolução na rua", ter conseguido demover o Comandante a aplicar qualquer castigo ao Joca! E, numa situação destas ("desrespeito pelo comando"), a pena seria certamente alguns dias de detenção...
Estava assim a terminar a minha carreira militar da melhor forma que poderia ter alguma vez imaginado! Terminei-a em 31 de Julho de 1974.
Três anos antes, tinha entrado para um exército que era (ou parecia ser) um dos principais pilares de uma Ditadura, com mais de cem mil militares em diversas frentes das guerras coloniais. Saio de um exército que derrubou a mais antiga Ditadura da Europa, que terminou com a guerra, que abriu as portas aos processos de independência das antigas colónias e que iniciou a Democracia com que hoje vivemos!



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