Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sábado, 2 de outubro de 2010

Viva a República!


Mandou-me procurar?
Passe, cidadão!

Nasci em 1945, ia a República portuguesa fazer 35 anos! Este ano, vai fazer 100 anos! Aos 65 anos de idade, julgo, tenho mesmo a certeza que sempre fui republicano. E vivi quase metade da minha vida, de 1945 a 1974, numa Ditadura (numa República, entre parêntesis) e a outra metade, desde 1974, em Democracia (em plena República).
Na Conferência que proferi em 1999, já publicada neste blogue, referia já que as principais referências que a todos nos norteiam em toda a nossa vida são as nossas origens. Neste caso, também este princípio se aplica inteiramente: sou republicano desde que nasci, porque foi, com esses princípios de “republicanismo”, que comecei a entender o Mundo, a vida e a organização da sociedade… com os meus pais, com os amigos dos meus pais, com os meus professores… E ainda hoje continuo a acreditar que, na sociedade atual, não existe uma alternativa minimamente credível à República.
Desde muito novo que me lembro de ver todos os dias, em minha casa, o jornal A República, assinado pelo meu pai (todos os dias, exceto naqueles em que, soube depois, o jornal estava suspenso pela censura). Também desde muito novo, me habituei a ver, à cabeceira do meu pai, livros de António Sérgio, Ferreira de Castro, Cunha Leal, Alexandre Herculano, D. António Bispo do Porto (e note-se que meu pai tinha apenas seis anos de escolaridade…).
Desde muito novo que, por intermédio da minha mãe, recebi fortes impulsos ao republicanismo, vindos (indiretamente) do meu avô materno António Rodrigues Curvelo e da sua cunhada (tia da minha mãe, que sempre marcou a sua vida) Vitória Pais Freire de Andrade Madeira, falecidos antes de eu ter nascido.
António Rodrigues Curvelo, meu avô, faleceu em 1943, com 60 anos de idade. Abandonou a sua profissão de farmacêutico para se dedicar à administração pública, Teve sempre grande atração por movimentos associativos, tendo designadamente sido sócio fundador da Associação dos Bombeiros Voluntários de Portalegre, elemento ativo de diversas outras Associações, Presidente da Associação de Futebol de Portalegre (em 1914) e amador dramático (na representação de diversas peças, no Teatro Portalegrense).
Desde estudante, foi membro do Partido Republicano Português (PRP). Por este partido, foi candidato à Câmara de Portalegre em 1908, com 25 anos e, em 1910, presidia já à respetiva Comissão Municipal de Marvão. Após a implantação da República, presidiu à nova Comissão Administrativa deste município, tendo sido, por diversas vezes, Administrador dos Concelhos de Marvão e de Portalegre, entre 1910 e 1915, sempre em representação do PRP. Foi preso em Outubro de 1918, em Portalegre, juntamente com diversos outros elementos democráticos, durante o consulado sidonista (fato que recordo me ser diversas vezes contado, por minha mãe e minha avó, como exemplo de defesa da Democracia, da Liberdade e dos princípios em que acreditava, em todas as situações).
Apenas há pouco tempo soube que teve ainda um curto período de adesão ativa à Maçonaria: iniciado em 1923 na Loja Humanidade, do Direito Humano, de Lisboa, com o nome simbólico de Heliodoro Salgado. Em 1924, atingiu o grau 3º. Neste ano, fundou e secretariou o Triângulo Amaia, de Portalegre. Em 1926, pediu a demissão (in António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre, Edição Caleidoscópio, 2007). Toda a sua vida de dedicação à causa pública foi descrita por Ângelo Monteiro (in A Rabeca, nº 2491, 20 de Junho de 1968, Portalegrenses do Passado, LXXIII – António Rodrigues Curvelo).
Vitória Pais Freire de Andrade Madeira faleceu em 1930, com 47 anos de idade. Foi professora do ensino primário em Avis, Vale de Açor e Ponte de Sor. Fundou a Escola Uma missão das escolas móveis e integrou a Subcomissão de Ponte de Sor da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Foi membro ativo de diversas associações, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de propaganda Feminina, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a Associação dos Professores de Portugal e a Liga de Ação Educativa. Depois do movimento de 28 de Maio de 1926, foi militante ativa dos movimentos de solidariedade em prol dos deportados e dos presos políticos (in António Nóvoa, Dicionário de Educadores Portugueses, Edições ASA, Porto, 2003; Zília de Castro e João Esteves, Dicionário no Feminino, Livros Horizonte, Lisboa, 2005).
Também há pouco tempo soube que teve ainda uma importante atividade na Maçonaria: iniciada em 1915, na Loja Carolina Ângela nº 380, com o nome simbólico de Liberdade. Mais tarde, passou para a Loja Humanidade nº 276, a trabalhar sob os auspícios do Direito Humano. Em 1923, atingiu o grau 18º (in: António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre, Edição Caleidoscópio, 2007).
Foram pois estas duas personalidades que, por intermédio da minha mãe, me impulsionaram para o meu republicanismo, bem como para os princípios da Liberdade e da Democracia, que tenho procurado seguir na minha vida.
Foi esta a herança que recebi do “ramo republicano” da minha família Curvelo, ramo esse provavelmente liderado pelo meu avô António Rodrigues Curvelo. E digo “ramo republicano” porque houve outro ramo dessa família Curvelo, esse não republicano, ramo esse ao qual pertence hoje, designadamente, Isabel de Castro Curvelo de Herédia, consorte de Duarte Pio de Bragança, pretendente ao trono de Portugal e ao título nobiliárquico de Duque de Bragança. As voltas que o Mundo dá…
Mas, evidentemente, não é só por essa herança que sou profundamente republicano. Sou republicano porque acredito e sempre acreditei nos princípios e nos valores que são o suporte da República.
Os republicanos nunca se quiseram limitar a só trocar um rei por um presidente… sempre quiseram novos valores, assentes na vontade e nas escolhas do Povo, em tudo que diga respeito à vida e ao futuro do Povo, da Nação e da Pátria!
Como referiu recentemente Hugo Filipe Coelho (Diário de Notícias, 27de Setembro de 2010), “a utopia ganhou a revolução com o ímpeto que a desilusão condenou o regime”.
Um dos principais combates da República foi contra o analfabetismo, como sempre é em qualquer movimento genuinamente revolucionário ou progressista – veja-se, a título de exemplos, o que foi prioritário no pós – 25 de Abril, no Brasil pós – Lula da Silva, na Cuba após a revolução, no desenvolvimento de grande parte dos países nascidos do pós – colonialismo. Agora entendo o papel esclarecido dessa minha tia – avó Vitória Madeira, que nunca conheci mas de quem tanto me falaram.
A República portuguesa herdou pois essa denominada “vergonha nacional”, constituída por uma população com uma taxa de analfabetismo superior a 70%. A prioridade foi o ensino primário e os professores primários, “esses obreiros da civilização” que constituíram o grande exército para o futuro da Pátria. No preâmbulo de uma Lei de 1911, reformando o ensino obrigatório, referia-se mesmo, como justificação das medidas tomadas, que “Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias”. Que princípio tão nobre e evidente e, um século passado, tão atual para ser de novo gritado!
Mas a República teve também uma falha importante… A menoridade atribuída ao papel das mulheres na construção da sociedade. Também aí entendo hoje o papel esclarecido e de lutadora dessa minha tia – avó!
Uma nota que vi há dias num jornal: foi em 28 de Maio de 1911 a primeira vez que uma mulher votou em Portugal. Era uma médica, de 40 anos de idade, de seu nome Carolina Ângelo. Para votar, desafiou o regime revolucionário entretanto nascido, reclamando o seu estado de viúva e de chefe de família, aproveitando-se de uma omissão da lei. Tinha, no seu currículo, ter sido uma das duas mulheres que, a pedido dos republicanos, tinha secretamente bordado as bandeiras da República desfraldadas na Praça do Município, em Lisboa, no dia 5 de Outubro de 1910. A República “admitiu” diversas conquistas das mulheres – a sua inscrição em lojas maçónicas, a aprovação da “lei do divórcio”, a eliminação de muitas leis vexatórias para a condição feminina. Mas o voto às mulheres, isso não! Dois anos depois do exercício do voto por Carolina Ângelo, aprovou a República uma lei eleitoral que expressamente referia que o voto era exclusivo do sexo masculino, tal como no regime monárquico.
Isto passou-se há menos de um século, no início do regime republicano! E foi uma norma que durou décadas, embora tivesse sido lentamente melhorada. A minha mãe, que nasceu em 1911, votou pela primeira vez, nas primeiras eleições livres que houve depois de 25 de Abril de 1974 (eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975), portanto com mais de 60 anos de idade!
A face mais radical da Primeira República foi o papel que esta protagonizou no combate às ordens religiosas e na laicização do Estado. Consideraram alguns que este papel constituiu uma das bases do seu insucesso no médio prazo, levando inclusivamente ao aparecimento da Ditadura menos de duas décadas depois, pelo fato de ter virado contra a República uma população rural, inculta, analfabeta e profundamente católica. As origens deste movimento estão na Geração de 70, nas Conferências do Casino de Antero de Quental, ... O principal autor da lei da separação da Igreja e do Estado, de 1911, foi uma das maiores e mais carismáticas figuras da República - Afonso Costa, fundador e líder do Partido Democrático e Chefe de três Governos, e que ficou conhecido por “mata-frades”, alcunha com que a Igreja o apelidou e o tornou famoso. Foi também a esta grande figura de republicano que eu fui beber muito da minha cultura de cidadania, por intermédio da minha família.
Mas o maior homem da República foi certamente Teófilo Braga, Presidente do primeiro Governo Provisório e posteriormente Presidente da República, homem de elevada cultura, de origem açoriana, escritor, filósofo e jurista. O Rei D. Manuel II, que vivia num Palácio, foi “substituído” por este homem, que sempre recusou quaisquer honrarias, um Presidente que se deslocava em Lisboa, viajando de elétrico, com um guarda-chuva debaixo do braço. Era efetivamente o Presidente do Povo!
O grande objetivo era a igualdade dos homens perante a lei, ideal nunca cumprido na totalidade, até hoje! Mas grandes metas foram atingidas, logo em 1910 e em 1911: o direito à greve, a aprovação do descanso semanal, das 8 horas de trabalho diário e das 48 horas de trabalho semanal. Nasceram os primeiros sindicatos. O aspeto mais negro, e que ficou para a História, foi a repressão dos movimentos operários e anarco-sindicalistas. Mas, infelizmente, o pior que nasceu da Primeira República foi a criação das condições que levaram ao “movimento de 28 de Maio de 1926” donde surgiu a Ditadura do “Estado-Novo” que se manteve durante 48 longos e dramáticos anos, até ao libertador “25 de Abril de 1974”.
Por tudo isto, pela “minha história”, pela “minha herança familiar”, pelos princípios da Democracia e da Liberdade em que acredito, pelo que desejo para o meu país, para a minha pátria e para o meu Povo, porque não há alternativa credível para este regime, sempre fui, sou e serei republicano!

VIVA A REPÚBLICA!

1 comentário:

  1. Nem eu sabia dessa "herança familiar" tão rica em valores e personagens "nobres"... Hoje fiquei mesmo um pouco mais rica... as minhas recordações ficam uma geração abaixo da tua... estão nos meus avós, teus pais, que muito contribuiram, a par dos meus pais, os princípios da Democracia e da Liberdade que hoje tento transmitir à tua neta!
    Obrigado Pai por seres quem és! Viva a República!

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