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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Felizmente havia luar...



1 de Abril de 1965
Mais um plenário de estudantes na Alameda da Reitoria da Universidade de Lisboa. Perspetivas de nova crise académica. A terminar o plenário, foi aprovada uma Moção que determinava a ocupação da Cantina, por forma a forçar a entrada de todos os estudantes (designadamente da Universidade Técnica de Lisboa). Até aí, apenas os estudantes da Universidade Clássica de Lisboa podiam entrar nessa Cantina - uma forma encontrada pelo poder, entre muitas outras, para não permitir grandes afluências de estudantes e de criar divisões entre eles...
Estavam pois impedidos de entrar nessa Cantina os estudantes do Técnico, de Agronomia, de Económicas, de Medicina Veterinária, dos Liceus, entre outros...
A Cantina foi então ocupada pelos estudantes. Lembro-me de ter entrado na Cantina, eu que era do Técnico, curiosamente com a bandeira da Associação de Estudantes de Agronomia, a pedido de um colega meu dessa escola...  Seria cerca de 1 hora da tarde...
Já no interior, decidiu-se que ninguém sairia do edifício, antes da obtenção da garantia das autoridades académicas de que passasse a Cantina a poder ser utilizada por todos os estudantes de Lisboa...
Éramos muitas centenas, talvez mesmo um ou dois milhares... E a decisão foi esta...
Todas as horas que se seguiram foram pautadas por um braço de ferro entre os dirigentes associativos  e a direção do comité de ocupação (no qual já eu estava) e os representantes do Reitor e da Polícia, entretanto chamada. A posição dos estudantes era a referida garantia das autoridades académicas de que passasse a Cantina a poder ser utilizada por todos os estudantes de Lisboa. A posição da Reitoria (e da polícia) era do imediato abandono das instalações, por parte dos estudantes, dando como garantia de que nada aconteceria a quem saísse por livre vontade.
No exterior, víamos já centenas de polícias de choque, rodeando todo o edifício. Ao fundo, junto ao Hospital de Santa Maria, víamos também muitos populares, que nos acenavam (soubemos depois que eram sobretudo estudantes de Medicina, de Direito e de Ciências, mobilizados pelas respetivas Associações, mas também muita outra gente, já informada pelos alertas do "boca-a-boca").
Fomos resistindo... até ao ponto em que ficámos só uma ou duas centenas. Agora, interrogados por um agente da PIDE (António Cordeiro) e pelo Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Paulo Cunha, numa moldura de diversos agentes da polícia de choque, começámos a sair nas conhecidas "carrinhas nívea", num percurso pelo Campo Grande, Av. da República, Saldanha, Marquês de Pombal, Restauradores, Chiado. No exterior, a população de Lisboa não imaginava que iam ali mais estudantes presos. Um amigo meu, sentado a meu lado, dizia-me "felizmente há luar", numa alusão à célebre peça de teatro de Luis de Stau Monteiro, levada à cena só em 1978, retratando a resistência do povo português à ditadura..Chegámos à zona do Chiado. Havia duas hipóteses para terminar o nosso "passeio à noite, por Lisboa": ou a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso ou o Governo Civil, ao lado do Teatro de São Carlos. Felizmente, por razões que todos conhecem, foi aqui que viemos parar. E felizmente havia luar...
Mais interrogatórios, sob a direção de uma sinistra figura de um oficial da polícia, bem conhecido pelas piores razões: Capitão Vilas Boas. Alguns de nós seguiram ainda para outra etapa: a prisão de Caxias. Para esses, nessa noite, já não houve luar. Ainda tenho presente os rostos de despedida de amigos que seguiam para essa outra etapa: o Bernardo, a Vera, a Diana...
Como recordo a raiva sentida, nessa noite, perante a nossa  impotência nesses breves (e tão longos) interrogatórios do Capitão Vilas Boas.
Íamos saindo já noite dentro... Chuviscava... Sentado no passeio em frente do Governo Civil, um amigo me esperava... O João José! Nunca mais na vida esquecerei essa imagem de solidariedade! Levou-me, ainda meio atordoado, para a Cervejaria Portugália... onde me esperavam diversos outros amigos...
Já bem tarde, cheguei à casa da Av. Rovisco Pais, onde tinha alugado o meu quarto de estudante.
No dia seguinte, fui para as aulas...

A casa da Av. Rovisco Pais
Mas, nesse mesmo dia, e durante a minha ausência, foi esse meu quarto, bem como toda a casa, revistado e virado ao contrário por uma brigada da PIDE, perante o espanto e o medo das donas da casa... Levaram apenas alguns exemplares do jornal "Binómio" da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, cujo corpo redatorial eu integrava.
Conforme aliás era nossa intenção, teve esta ação uma enorme repercussão na sociedade, até internacionalmente. Noticiaram alguns jornais estrangeiros o telegrama de protesto enviado ao Ministro da Educação Nacional por 190 intelectuais designadamente franceses, entre os quais figuras como Jean Paul Sartre, Josué de Castro, Louis Aragon, Jean Vilar, Yves Montand, Gurvitch, Schwartz, Jankelevitch, Jacques Demy, Alain Resnais, J. Lefort e Simone Signoret: Nous soussignés, Professeurs, Chercheurs, Ecrivains, Artistes, Cineastes, ayant appris nouvelles alarmantes situation étudiants au Portugal qui luttent pour une Université libre, reforme d'enseignement et autonomie Associations, protestons contre tortures et emprisonnements étudiants stop demandons libération immédiate étudiants emprisonnés. Contribuíu certamente este telegrama para a rápida libertação dos meus colegas que ainda se encontravam na prisão de Caxias.
Pouco tempo depois, recebia a "convocação" do Diretor do Instituto Superior Técnico para "por determinação do Exº Senhor Reitor da Universidade Técnica, comparecer no Tribunal da Relação de Lisboa, a fim de depor em processo disciplinar, perante o Juiz Desembargador Dr. António Acácio de Oliveira Carvalho".
Veja-se onde chegava a intimidade entre os órgãos de gestão de uma Universidade e o poder judicial! Era de fato tudo a mesma coisa...
Esses processos disciplinares foram movidos a cerca de duas centenas de estudantes das Universidades de Lisboa, sendo inquiridor esse mesmo Juiz Desembargador Dr. António Acácio de Oliveira Carvalho. Para que se analise hoje como era a justiça desses tempos, alguns dados: (a) os cerca de 200 arguidos tiveram três dias úteis para consulta do processo conjunto, (b) a consulta era feita aos 20 volumes do processo numa única sala de cerca de 30 m2, (c) nunca houve oportunidade de estar presencialmente com o juiz inquiridor.
E, em Outubro desse ano, por despacho de 15 de Outubro de 1965, fui notificado da sanção que me foi aplicada: seis meses de expulsão de toda a Universidade Portuguesa!
As sanções atingiram 178 estudantes, com penas de expulsão diversas, sendo 52 mais particularmente atingidos, com penas de 3 meses a 8 anos (portanto, com perda de 1 a 8 anos letivos). Só da minha escola, o Instituto Superior Técnico, foram penalizados 21 estudantes, entre os quais toda a direção da Associação de Estudantes (da qual era Presidente Mário Lino) com 2 anos de expulsão.
Do meu processo disciplinar, para além dos acontecimentos do dia 1 de Abril, que referi, constava ainda o fato de eu ser redator do jornal "Binómio" da Associação de Estudantes do IST, com diversos artigos de crítica e censura ao regime e, conforme se lia na acusação, de apelo à violência...
Nesse processo, apenas duas testemunhas de acusação constavam dos autos: o Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Paulo Cunha, e o agente da PIDE Mário Cordeiro (que eu nunca conheci). Por outro lado, tive de limitar a cinco as minhas testemunhas de defesa: as minhas amigas Lucília e Beatriz, da Faculdade de Letras de Lisboa, o meu amigo e colega do IST José Ventura, o Dr. Álvaro Ramos (conhecido médico, da oposição democrática) e o Dr. António Goucha Soares (advogado, também da oposição democrática e meu advogado no processo).

3 comentários:

  1. É bom falar destes acontecimentos,porque parece que os nossos jovens acham que foi sempre tudo fácil,como agora.Precisam de saber que houve gente que teve que lutar e sofrer para obter pequenas conquistas.

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  2. Obrigado, Antonio Sérgio!
    Gostei :)
    Um abraço,
    Tó goucha

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    1. Tó Goucha, hoje também jurista, é filho do meu advogado no processo e que citei nesta crónica.

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