Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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domingo, 19 de dezembro de 2010

Elvas

No artigo "Felizmente havia luar..." deste blogue, referi que, por despacho ministerial de 15 de Outubro de 1965, fui notificado da sanção que me foi aplicada em processo disciplinar: seis meses de expulsão de toda a Universidade Portuguesa! Estaria assim impedido de frequentar a Universidade durante um ano letivo. Meu pai, residindo em Portalegre, e sabendo que este meu impedimento me levava a deixar de estar com os meus amigos em Lisboa durante este período, e não querendo vincar ainda mais este meu castigo, propôs-me que eu continuasse
em Lisboa, com a mesma pensão mensal. Obviamente que não aceitei. Entretanto surgiu-me uma hipótese de emprego: professor no Colégio Elvense, em Elvas, até ao final do ano letivo. Aceitei então esta hipótese. Foi o primeiro emprego na minha vida: professor de Matemática, de Desenho (Geometria descritiva) e de Físico-Química a turmas dos antigos 5º e 7º anos liceais. Tinha 20 anos de idade, e os meus alunos eram pouco mais novos que eu. O colégio era um colégio de "meninos-família" (em Elvas, nessa altura, não havia Liceu; o único estabelecimento  oficial de ensino secundário, era a Escola Técnica). Recordo os meus colegas professores desse Colégio: dois padres (um deles, Diretor do Colégio e comensal da pensão onde eu próprio estava hospedado, em pensão completa!), uma professora de Francês, um professor de Inglês e um Engenheiro Civil). Fui substituir um oficial do exército (Major Banazol), muito ligado a movimentos democráticos.
Em plena ditadura, cumprindo uma pena de expulsão das Universidades Portuguesas, por "atitudes contra o regime", venho dar aulas num Colégio de "meninos-família" de uma terra de grandes agrários alentejanos.
Fui evidentemente olhado com bastante desconfiança... Passei inclusivamente a estar "bem enquadrado" por informadores da PIDE" na minha mesa do Café Alentejo, donde fiz o "meu escritório".
Sem nada fazer por isso, fui começando a conquistar amigos, designadamente entre os meus alunos, os amigos deles e até entre os seus familiares. Começaram todos a entender que eu era uma pessoa como eles: tinha pais, tinha amigos, tinha namoradas. Distinguia-me talvez por ler romances, por ler ensaios e por escolher filmes um pouco diferentes. Vinham ao meu quarto da pensão ouvir os Beatles, o Antoine, o Jules Dassin... e a poesia do Daniel Filipe (o autor do célebre poema "Invenção do Amor").
Sem nada fazer por isso propositadamente, fui começando a contribuir por "mudar as cabeças de algumas pessoas". Chegavam a vir acordar-me às 2 ou 3 da manhã, para irmos a sessões de música e de poesia, fora da cidade. Algumas vezes com amigos que vinham de mais longe (de Portalegre, de Campo Maior,  e até de Espanha).
Foi nesta cidade que eu passei cerca de seis meses da minha vida. Uma cidade ao lado de Badajoz, onde nunca fui durante esse período (estava em idade militar e necessitava da respetiva autorização).
Fui sócio do Cineclube: assim sempre poderia ir vendo alguns filmes de qualidade. Como era difícil, nesses tempos, usufruir de cultura, sobretudo numa cidade de província, cristalizada no tempo...
E Elvas era uma cidade muito diferente da minha de origem (Portalegre), embora localizadas a apenas 60 km de distância. Portalegre tinha uma vida cultural relativamente importante para a época (já me referi aqui, em outros artigos, a José Régio, ao pintor João Tavares e às Tapeçarias de Portalegre; referir-me-ei proximamente ao Amicitia-Grupo Cultural de Portalegre). A vida cultural de Elvas era quase inexistente. A vida social resumia-se a pouco mais que a vida na piscina municipal e no Clube Elvense (onde nunca tive permissão de entrar, no jogo das admissões de sócios por bola branca e bola preta!).
Para sobreviver, fui-me socorrendo das conversas de café com as pessoas, com os amigos. Fui-me socorrendo das pessoas, dos amigos. Mais tarde, verifiquei como esta forma de sobrevivência é bem geral. Veja-se, por exemplo, como José Régio resistiu ao tédio, quando foi para Portalegre... (vd. o artigo que escrevi sobre ele, neste blogue).
Entendo hoje perfeitamente: o importante na vida são sempre as pessoas! Tudo o mais constitui só a  sua moldura.
Além de professor do Colégio Elvense, passei também a dar explicações no meu quarto de pensão. A certa altura, já não tinha mais horas... Pagava de pensão completa pouco mais de um conto, e ganhava cerca de 6 contos por mês. Ao fim de 6 meses, estava rico!!! Com esse dinheiro, fiz a minha primeira viagem a Paris (outra das cidades da minha vida, a que me referirei em breve).

Foto: travelpod.com


1 comentário:

  1. Belas fotografias da minha cidade!^

    Bom Ano 2011 !

    Deixo-lhe um pouco de música para começar o ano...
    M.João

    http://falcaodejade.blogspot.com/2010/12/bom-ano-2011-com-billy-holiday-blues.html

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