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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sábado, 29 de janeiro de 2011

A importância da Cultura na Vida. O papel do AMICITIA - Grupo Cultural de Portalegre

Vi há dias um comentário sobre a importância de se ser culto na nossa vida profissional: um médico é melhor médico se for um médico culto, um advogado é melhor advogado se for um advogado culto, um professor é melhor professor se for um professor culto, um político é melhor político se for um político culto. Falando da minha profissão, um investigador é melhor investigador se for um investigador culto. Isto é válido para qualquer profissão: para um motorista de táxi, para um bancário, para um desportista profissional...
Por isso, a grandeza de um país ou de uma região se mede pelo seu nível cultural... Por isso, um país efetivamente desenvolvido investe claramente na educação e na cultura. Por isso, a grande bandeira da nossa primeira República foi a aposta na Escola Pública. Por isso, o Brasil é de fato um país culto (que outro país teria a coragem de por Gilberto Gil como Ministro da Cultura?).
Por isso ainda, para além das nossas diferenças de ordem política, admiramos figuras como Diogo Freitas do Amaral (li, maravilhado, a sua "Biografia de D. Afonso Henriques"), como Mário Soares (ainda hoje, ouvir uma conferência sua nos faz bem ao espírito), como Jorge Sampaio (ainda hoje recordo as suas palavras nas cerimónias do Nobel...), como Álvaro Cunhal (o historiador, o poeta, o desenhista, o pintor, o escritor, o ensaísta, ...), como François Miterrand, como Winston Churchil, como Barack Obama, como Nelson Mandela, como Agostinho Neto, como Amílcar Cabral, ... e a lista seria interminável!
Por outro lado, como o Mundo é mais pobre quando se observa o tão baixo nível cultural de alguns políticos influentes na vida de milhões de pessoas, como George W. Bush, como Silvio Berlusconi, como Nicolas Sarkozy, como o nosso atual Presidente e como infelizmente tantos outros...
"Prisioneiro amordaçado"
(Júlio Pomar)
Quase sempre as ditaduras têm receio da Cultura. Ficou célebre a expressão de um General Franquista, durante a Guerra Civil de Espanha: "sempre que oiço falar em Cultura, levo logo a mão ao coldre!" E como poderiam os apoiantes de Franco suportar Pablo Picasso, se o seu quadro "Guernica" constituiu (e continua a constituir) uma das maiores Obras do Século XX?
Assim, também durante a Ditadura de Salazar em Portugal, a Cultura que se afastasse de loas ao regime era ferozmente combatida. Os exemplos são inúmeros. Revistas culturais proibidas ou suspensas ("Vértice" e "Seara Nova", entre muitas outras). Livros apreendidos em assaltos da polícia política a livrarias. As sedes da Sociedade Portuguesa de Escritores e da Sociedade Nacional de Belas Artes chegaram a ser assaltadas e vandalizadas. Foram centenas ou milhares os filmes e peças de teatro proibidos pela Censura. Teatros foram fechados. Artistas estrangeiros a atuar em Portugal chegaram a ser expulsos (como, entre muitos outros, Maurice Béjart ou Juca Chaves).
Para situações destas, como poderiam os democratas atuar? Como se poderia resistir? Múltiplas formas foram usadas...
Os livros circulavam clandestinamente; havia livreiros que nos telefonavam a informar que teriam chegado algumas obras...
Víamos cinema de qualidade em Cineclubes, ideia importada de França. Multiplicaram-se os Cineclubes... eu próprio estive ligado a alguns: Cineclube Universitário de Lisboa, Cineclube de Portalegre, Cineclube de Coimbra, Cineclube Imagem, ABC Cineclube de Lisboa.
Víamos teatro em Associações de Estudantes, em salas para teatro amador e por grupos independentes...
Estar com a Cultura e com os Homens de Cultura era pois uma forma de estarmos vivos e de resistirmos contra a mediocridade.
Foi assim que muito aprendi, em Portalegre, com tantos e tantos amigos, da minha geração e de gerações anteriores, no seio do AMICITIA-Grupo Cultural de Portalegre, ligação que ainda hoje perdura, passadas que são quase cinco décadas!
Café Facha, Portalegre (foto de António Branco)
E quanto mais a polícia política nos vigiava, mais força nós sentíamos para fazer mais e mais... Que saudades tenho daquelas Assembleias Gerais e outras reuniões nos altos do Café Facha, no Rossio, que normalmente terminavam com umas ceias em qualquer cervejaria de Portalegre: observados de fora, na rua, por informadores da PIDE, certamente enraivecidos por tão pouca informação que conseguiam para instruir os seus relatos...


Acho que fui quase tudo neste AMICITIA: integrei diversas direções (como Presidente e Secretário) e diversas Mesas de Assembleia Geral, integrei e dirigi diversas Seções (Cinema, Teatro, Oriente-Ocidente, Poesia-Cadernos ALFA, Música, ...). Cito de memória, com alguma nostalgia, alguns desses amigos: Florindo Madeira, Augusto Costa Santos (Tito), Feliciano Falcão, Fevereiro Mendes, António Martinó, Ângelo Sajara, Álvaro Luz e Silva, Fernando Ceia, Augusto Pitta, Álvaro Sousa Ramos, João José Ribeiro, Joaquim Portilheiro, Rui Abreu, António José Drago, ...
Cito aqui dois blogues, de enorme utilidade para compreender a vida cultural de Portalegre desses anos 50 e 60 e especialmente desse enorme AMICITIA:
 http://exdra.blogspot.com/ e http://avozportalegrense.blogspot.com/.
Retiro deles esta afirmação: "Em 22 de Maio de 1958 tinham sido finalmente aprovados por despacho de Sua Excelência o Subsecretário de Estado da Educação Nacional os estatutos do Amicitia – Grupo Cultural de Portalegre, associação de gratíssima memória para a juventude local de então, iniciativa de um grupo onde pontificava Florindo Madeira, que aí desempenhou os mais diversos cargos diretivos e por várias vezes. A legalização do Amicitia, por razões políticas que facilmente se poderão descortinar, constituiu tarefa tão demorada como difícil..."
Formulo pois um voto: que a juventude atual, garante da nossa continuidade coletiva como povos livres, continue a eleger a Cultura como um bem essencial à Vida e exija sempre isso aos poderes políticos!
Nos dias de hoje, sei que os poderes políticos, seguidores fervorosos das regras da Economia e dos sistemas financeiros apenas dedicam atenção ao que dá lucro, ao que é favorável ao crescimento económico e ao que contribui para o reforço dos sistemas financeiros. Mas até aí, a aposta no desenvolvimento da Cultura pode ser rentável! Mas, claro, para entender isto é necessário ter um elevado nível cultural! Deixo-lhes aqui este desafio...

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