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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Lisboa

Nasci em Portalegre, onde vivi até aos meus 17 anos (1962). Até essa altura, o meu envolvimento com Lisboa era mínimo. Recordo, em criança, algumas idas a Lisboa, com os meus pais, onde residia o meu avô paterno. Recordo a sua casa de 14 divisões e com um imenso corredor, na Av. 5 de Outubro, e o meu contato, pela primeira vez, com um elevador existente nessa casa (com grades e vidros verdes, e com um banco, para ir do r/c ao 1º andar): tudo isto ainda hoje existe! Recordo igualmente o café, restaurante e tabacaria que ele tinha na Av. da República ("A Cubana"): nesse local existe hoje uma florista. E recordo ainda o Café Martinho, entre o Teatro Nacional e a Estação do Rossio, dum tio meu, cunhado do meu avô: nesse local (era inevitável!), existe hoje uma agência de um banco.
Mas, comecei a viver em Lisboa em 1962, enquanto estudante. E foi a cidade onde depois sempre residi até hoje, com uma pequena exceção (de 1990 a 1995), em que residi próximo, em Oeiras. Lisboa é pois uma cidade que faz em absoluto parte de mim. Evidentemente que adoro aquela Lisboa conhecida dos turistas: o Castelo, as zonas junto ao Tejo, os bairros típicos (como Alfama, o Bairro Alto, a Madragoa, a Graça, ...). Mas as zonas de Lisboa onde cresci e vivi são fundamentalmente outras. Tentarei referi-las por uma ordem que corresponde às minhas etapas de vivência nesta cidade: a Alameda, a Rovisco Pais, a Duque d Avila e o Saldanha (das Pastelarias Mimo, e Rialva, dos Cafés San Remo, Império, Paulistana e Monte Carlo); a Praça de Londres,  o  Bairro do Arco-do-Cego, a Av. de Roma e a Av. EUA (dos Cafés Luanda, Vává, Suprema, Sul-América, Londres, Roma, Capri, ...); Luz e Benfica (do Arabesco ao Califa e ao Ferro de Engomar). Do Estúdio do Império ao 444 e dos Teatros Villaret, Monumental e Vasco Santana. A Lisboa dos filmes do Cineclube Universitário de Lisboa e das peças do Grupo 4 e do Teatro Universitário, parêntesis na mediocridade da cultura lisboeta dos anos 60... Como eu vibrava com as tertúlias no Vává, constituídas por diversos grupos universitários, donde saíram diversos homens e mulheres do Cinema e do Teatro desses anos 60 (Fernando Lopes, António Pedro de Vasconcelos, César Monteiro, Maria do Céu Guerra, Hélder Costa, entre tantos outros...).
Dos meus tempos de estudante em Lisboa, recordo contudo com enorme saudade as "casas de estudantes" onde vivi. A da Av. Rovisco Pais, frente a um dos portões do Técnico, recordando a camaradagem com o José Saraiva (da Covilhã), com o Mário Lança (de Vila Real de Santo António), com o Joaquim Canário (de Castelo de Vide, muito mais tarde e até há pouco Presidente da respetiva Câmara Municipal), com o Jaime (também de Castelo de Vide, e hoje conceituadíssimo médico em Coimbra), com o João José Ribeiro (Vd. o artigo deste blogue: "Alguns amigos especiais"). A da Av. de Roma e a da Av. de Madrid  (partilhada com o meu querido amigo Sérgio de Sousa Bento, que cito no artigo deste blogue: "Alguns amigos especiais", e local de confraternização quase permanente com tanto amigos...). Finalmente, a do Bairro do Arco-do-Cego, já no final dos meus tempos de estudante e até depois desses tempos (dessa altura, recordo a partilha com António Boatch, brasileiro de Curitiba, estagiando no organismo onde eu já estava trabalhando). Recordo com enorme carinho todos esses amigos, não me arriscando a contar aqui tantas e tantas cumplicidades vividas.

Desde muito novo, que aprendi a gostar e a entender o Fado (pois só se pode gostar de alguma coisa se a entendermos!). O Fado na Parreirinha de Alfama ou na Cesária. Ainda cheguei a ouvir cantar o Alfredo Marceneiro e, mais recentemente, a Argentina Santos e o Carlos do Carmo (em casas de fado). Claro que aprecio as recentes evoluções do Fado (Aldina Duarte, Ana Moura, António Zambujo, Camané, Carminho, Dulce Pontes, Joana Amendoeira, Katia Guerreiro, Mafalda Arnauth, Paulo Bragança, Pedro Moutinho,...), mas continuo a deliciar-me com a Beatriz da Conceição, o Fernando Maurício, o Manuel de Almeida ou  a Maria da Fé.
Oiçamos agora Ana Moura, um dos maiores expoentes desta nova geração de fadistas em "Leva-me aos fados" e vamos todos...

Para os leitores deste blogue, que pensavam vir a conhecer mais um pouco desta cidade de Lisboa, perdoem-me se vieram ao engano... Limitei-me aqui a focar recordações de quase meio século... numa cidade que foi o cenário para tanta vivência, tantas causas e tantos e tão queridos amigos... Foi o cenário da minha vida de boémia, alternada com a de estudo. Foi o cenário para uma minha iniciação na vida cultural (desde o Teatro, com os amigos do Grupo Cénico de Direito ao Cinema, das tertúlias do Vává ao Cine Clube Universitário de Lisboa). Foi o cenário para o meu envolvimento nas lutas estudantis e políticas contra a Ditadura. Foi o cenário onde vivi o início da construção da Democracia. E foi, sobretudo, o cenário para o melhor que a vida nos pode dar: a cumplicidade com os amigos! No fundo, o melhor da vida são os amigos... as pessoas! E Lisboa, para mim, é sobretudo a cidade dos meus amigos, das pessoas...

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