Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Os Vinhos DOC da Zona de Lisboa

A.S. Curvelo-Garcia
Conferência introdutória nas Jornadas Europeias do Património 2009
(Carcavelos - Um património vitivinícola a preservar)
Oeiras, Auditório Municipal César Batalha, 26 de Setembro de 2009

Os três vinhos DOC da zona de Lisboa (Carcavelos, Colares e Bucelas) representam três das mais antigas denominações de origem de vinhos do nosso país, com mais de um século de existência do seu reconhecimento legal (Carta de Lei de 18 de Setembro de 1808).
Trata-se de três dos vinhos portugueses com mais história e tradição… e tão diferentes! Os vinhos tintos da casta Ramisco, de chão de areia (de Colares), os vinhos brancos da casta Arinto (de Bucelas) e os vinhos licorosos de Carcavelos!
Têm de comum a proximidade geográfica do grande centro urbano de Lisboa, o que determina o maior perigo para a sua existência: a enorme pressão do desenvolvimento urbanístico sobre alguma ruralidade infraestrutural para essa sua existência!
Deriva daí, hoje, a grande importância da preservação desses patrimónios vitivinícolas nacionais.
Os vinhos DOC Colares
Sintra e Colares foram, durante o século XIX e a primeira metade do século XX, uma região onde buscavam refúgio os habitantes abastados de Lisboa, como locais de eleição para férias.
Foi na várzea de Colares que se desenvolveu a cultura da vinha, seja a cultura em chão de areia ou a cultura em chão rijo. Foi a primeira que deu fama ao vinho de Colares, um vinho que sempre esteve presente nas mesas aristocráticas e burguesas, como tão bem foi descrito por tantos autores, onde claramente destacamos o grande Eça de Queiroz.
Desde o século XIII que se encontram registos sobre a cultura da vinha nesta região. No início do século XX, D. Manuel II concedeu à região de Colares o estatuto de região demarcada. Em 1931 foi fundada a Adega Regional de Colares, reunindo atualmente mais de 50% da produção da região e mais de 90% dos produtores, e sediada num imponente e emblemático edifício. Hoje, a DOC Colares é regulamentada pelo Decreto-Lei nº 246/94, de 29 de Setembro.
A correspondente área geográfica situa-se no Concelho de Sintra, entre a Serra de Sintra e o Oceano Atlântico, numa zona junto ao mar, compreendendo as freguesias de Colares, São Martinho e São João das Lampas.
É esta sua localização que muito caracteriza a região, designadamente sob o aspecto paisagístico, com as bem conhecidas proteções das vinhas, dos ventos e da espuma do mar.
Os vinhos de Colares são provenientes de vinhas instaladas em “chão de areia”. Podem no entanto incorporar até um máximo de 10% de uvas ou mostos provenientes de vinhas instaladas em “chão rijo”.
Para a elaboração dos vinhos tintos, em chão de areia, os mais conhecidos desta região, a casta recomendada é Ramisco (mínimo de 80% do total). Nas vinhas de “chão rijo”, a casta Castelão terá de ter uma representação mínima de 80%.
Para a elaboração dos vinhos brancos, a casta recomendada é Malvasia (mínimo de 80%).
Para a produção de vinhos tintos, o rendimento máximo permitido é de 55 hL/ha, e para os vinhos brancos de 70 hL/ha. O título alcoométrico volúmico mínimo é de 10% vol. Para os vinhos tintos, o estágio mínimo obrigatório é de 18 meses em vasilhame de madeira e de 3 meses em garrafa. Para os vinhos brancos, estes mínimos são, respetivamente, de 6 e 3 meses.
Os vinhos tintos apresentam uma cor rubi, são ásperos e adstringentes quando novos, mas, com a idade, adquirem uma acentuada evolução de aroma, sabor e tonalidade. Os vinhos brancos são de cor citrina, com aroma frutado, melhorando com a idade.
A manutenção da atividade vitivinícola na região, considerando as especificidades próprias para a cultura da vinha na região, a necessidade de longos períodos de estágio para a maturação dos vinhos e a enorme pressão urbanística, só tem sido possível pela muito corajosa atividade profissional dos diversos agentes económicos!
Num dos mais importantes momentos, nas últimas décadas, sobre a definição das denominações de origem de vinhos, em Portugal, foi em Colares que se realizou o Congresso de Denominações de Origem de Vinhos, de 15 a 17 de Novembro de 1989, na sua celebérrima Adega Regional.
Os vinhos DOC Bucelas
Bucelas é outra pequena região vitivinícola (em dimensão), mas muito grande (em prestígio), também da esfera de atuação da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa.
Tal como acontece para as outras duas regiões (Colares e Carcavelos), um dos principais problemas destas microrregiões é o de estarem sujeitas à pressão urbanística típica das áreas de influência de uma grande metrópole.
A cultura da vinha distribui-se pelas várzeas do rio Trancão e da ribeira da Bemposta.
A demarcação da região de Bucelas data de 1911. O atual estatuto deste DOC Bucelas foi instituído pelo Decreto-Lei nº 43200 de 17 de Março.
A área geográfica correspondente abrange a Freguesia de Bucelas e parte das Freguesias de Fanhões (lugares de Fanhões, Ribas de Cima, Ribas de Baixo, Barras e Cocho) e de Santo Antão do Tojal (lugares de Pintéus, Meijoeira e Arneiro), do Concelho de Loures.
Os vinhos Bucelas são vinhos brancos de excelência, sobre os quais, já em 1885 Mestre Ferreira Lapa dizia: "Em novos são levíssimos, acídulos, um pouco gasosos, lembram o Chablis, às vezes um Champagne sem espuma. É Yquem, e talvez mais, se tiver pregoeiro que o diga, e campeão que o detenha. Porque há nos vinhos, no fim de tudo, o que há nos cavalos e nas mulheres. Não se lhe atenta bem para a beleza, senão quando é gabada e apregoada bem alto por um primeiro entendedor". É um vinho para apreciadores selecionados, sem possibilidade de, pelos seus níveis de produção, alimentar importantes correntes comerciais.
Os vinhos apresentam uma cor citrina, um aroma e um sabor frutados e um acídulo característico da casta Arinto. São secos, leves e, quando envelhecidos, ganham um belo tom amarelo dourado e aromas terciários complexos.
Está também regulamentada a produção de vinhos espumantes; estes vinhos, dadas as características do vinho base, apresentam-se com aroma e sabor bastante frutados, acentuada frescura, e uma bolha fina e persistente.
As castas autorizadas são Arinto (com um mínimo de 75% do encepamento), Sercial (Esgana Cão) e Rabo de Ovelha.
Os vinhos DOC Carcavelos
Os vinhos licorosos produzidos nesta região têm uma tradição secular. As suas qualidades foram já reconhecidas oficialmente em 1907, tendo a sua demarcação sido confirmada pela Carta de Lei de 18 de Setembro de 1908. Atualmente, é esta DOC regulamentada pelo Decreto-Lei nº 246/94, de 29 de Setembro. Atualmente, a entidade certificadora é também a Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa.
A área geográfica correspondente à Denominação de Origem Controlada Carcavelos abrange os Concelhos de Cascais (freguesias de Carcavelos, Parede, São Domingos de Rana e parte das freguesias de Alcabideche e Estoril) e de Oeiras (parte da freguesia de Oeiras e São Julião da Barra e parte da freguesia de Paço de Arcos).
As castas brancas recomendadas (num mínimo de 75% do encepamento) são: Galego Dourado, Boal Ratinho e Arinto; são ainda autorizadas outras castas brancas (num máximo de 25% do encepamento): Rabo de Ovelha e Seara Nova.
As castas tintas recomendadas (num mínimo de 75% do encepamento) são: Castelão e Preto Martinho; outras castas tintas autorizadas (num máximo de 25% do encepamento): Tincadeira Preta.
Os solos são mediterrânicos vermelhos de materiais calcários normais, solos calcários normais e barros castanho-avermelhados. A região apresenta um clima marítimo.
O rendimento máximo permitido é de 55 hL/ha. O título alcoométrico volúmico mínimo adquirido é de 15 a 22 % vol. O estágio mínimo obrigatório é de 24 meses em vasilhame de madeira e de 6 meses em garrafa.
São vinhos licorosos, delicados, de cor topázio, aveludados, com um certo aroma amendoado, adquirindo um aroma acentuado e caraterístico com um envelhecimento.
Tal como acontece com as outras denominações de origem da zona de Lisboa (Colares e Bucelas), também neste caso só uma corajosa ação competitiva do tecido empresarial evitou o desaparecimento desta denominação, aqui com uma ainda mais forte expansão urbanística envolvente e com uma área de cultura da vinha ainda mais reduzida.
Para contrariar esta tendência para o desaparecimento desta denominação de origem, assistiu-se nos últimos anos, felizmente, a uma decisiva intervenção do sector público, no sentido de inverter esta tendência, com relevo para o papel que tem vindo a ser assumido pela Câmara Municipal de Oeiras e pelo Instituto Nacional de Recursos Biológicos, I.P. / INIA (ex-Estação Agronómica Nacional e ex-Estação Vitivinícola Nacional), com a instalação de vinhas e de oficinas tecnológicas na Quinta do Marquês, com a realização de estudos sobre as tecnologias de preparação dos Vinhos de Carcavelos (procurando-se o desenvolvimento do conhecimento empírico existente, à luz das actuais potencialidades disponíveis, no âmbito da matéria-prima, das tecnologias de vinificação e das tecnologias de envelhecimento). Também o Município de Cascais tomou recentemente algumas medidas que vão no mesmo sentido.



Sem comentários:

Enviar um comentário