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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Paris

Fora de Portugal, Paris foi certamente a cidade onde mais tempo da minha vida passei. Por razões de ordem profissional, há quase três décadas que passo em Paris, desde alguns dias a diversas semanas, por ano. Houve mesmo anos, que cheguei a ter um apartamento alugado durante uma, duas, três semanas...
Mas, a primeira vez que fui a Paris foi, enquanto estudante, em 1966 (ver, neste blogue, o artigo "Elvas", desta mesma série "As cidades da minha vida"). Aconteceu aí a descoberta do encanto desta cidade única. Descobria aí o que era viver sem ser numa Ditadura! Descobria aí o Cinema sem censura prévia (Eisenstein, entre tantos outros autores) e o Teatro de Ionesco... Estava previsto ficar uma semana, numa residência de estudantes; apenas lá dormi na primeira e na última noite. Nas outras noites, dormi "clandestinamente" em casa de Mário Madeira, um amigo meu que residia em Paris (exilado do Portugal de Salazar) ou no Hotel de 4 estrelas onde ele era recepcionista de noite (o que tinha a desvantagem de ter de acordar cedo, antes dele sair de turno). Foi durante esse período de deslumbramento, que pude também observar a "outra face da moeda das democracias": foi em Paris, nessa altura, que sofri pessoalmente uma atitude de discriminação étnica, tendo sido impedido de entrar num local público, por estar acompanhado de amigos meus, argelinos e libaneses (conforme refiro no artigo "Não podemos ficar indiferentes").
Foi nessa cidade e nessa altura que me apercebi a certa altura dum fato que igualmente me desgostou. Tinha diversos amigos, exilados em Paris, e ligados a diversos movimentos. Comecei a aperceber-me que era "passeado" por alguns deles junto aos cafés dos grupos rivais, como uma demonstração de "mais um companheiro do nosso lado!". Os cafés eram o "Notre-Dame" e o "Luxembourg", a 200 ou 300 m um do outro, no Quartier Latin. Com esta identificação dos cafés, estou certo que muitos dos leitores deste blogue saberão a que grupos me refiro. Posso dizer-lhes, em complemento, que tinha grandes amigos em qualquer desses grupos (e que ainda hoje tenho). Aqui estamos nós, com mais quarenta e tal anos mais...
Em 1969, voltei a Paris, com o meu primo Tó Curvelo.

Ainda hoje, quando chego a Paris, seja de automóvel, de comboio ou de avião (99% das vezes), fico com a respiração cortada... isto, quase cinco décadas depois da primeira vez!
Como em (quase) todas as cidades da minha vida, a cidade é para mim as pessoas... as pessoas que conheci, as pessoas com quem lá fui, até as pessoas que connosco se cruzam na rua...
Por isso, a minha Paris são as 14 linhas do Metro e o RER... São os subúrbios de Arcueil-Cachan (quando fui estagiário da ACTIM, em 1981)...
É o Quartier Latin, com a Sorbonne, o Jardin du Luxembourg, a Notre-Dame, St. Germain-des-Près (onde ainda cheguei a ver Sartre, no seu habitual café), St. André-des-Arts (e o Procope, de Robespierre e Marat), o Boulevard Saint-Michel (onde vi desfilar François Miterrand, quando tomou posse, pela primeira vez, como Presidente da República Francesa)... Até o Quartier Latin do Maio de 1968... "onde estava a praia debaixo das pedras das calçadas das ruas"...
Também a Paris do Chatelet, de Les Halles...
A Paris de Vincennes, da Bastille, do Marais... até a Paris elegante da "rive doite", da Rue de Saint Honoré, da Madeleine, da Opéra, dos Champs-Elysées e dos Boulevards, da Étoile, das Tuilleries... do Louvre, claro.

Mas é mpossível falar de Paris sem ouvir a musicalidade de Edith Piaf

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