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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Charlie Chaplin

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para a frente. Nós deveríamos morrer primeiro: nos livrávamos logo disso! Daí iríamos viver num asilo, até sermos chutados de lá, por sermos muito novos. Ganharmos então um relógio de ouro e irmos trabalhar. Então trabalhamos 40 anos até ficarmos suficientemente novos para podermos aproveitar bem a aposentação. Então aí curtimos tudo, bebemos, fazemos festas e nos preparamos para a Faculdade. Vamos então para o colégio, temos várias namoradas, viramos criança, não temos nenhuma responsabilidade e nos tornamos num bebezinho de colo. Voltamos para o útero da mãe, onde passamos nove meses a flutuar... E tudo termina com um ótimo orgasmo!
Não seria perfeito?
Este rebobinar do filme da vida ao contrário só poderia ser de um génio, e de um génio do cinema. Claro!
Charlie Chaplin
Ele já nos tinha dito que a única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida!
E é com Charlie Chaplin que hoje fazemos um pequeno tour pela imaginação e pela vida...
Falei em génio... e, claro, Chaplin também falou:
Não preciso de me drogar para ser um génio, não preciso de ser um génio para ser humano, mas preciso do seu sorriso para ser feliz!
Por isso, ele foi feliz: teve milhões de pessoas em todo o Mundo que lhe sorriram. Sobretudo, crianças, crianças de todas as idades...
No fundo, apenas observava e interpretava a vida. Era isso que nos transmitia: "se o que você está fazendo tiver graça, não há necessidade de ser engraçado para fazê-lo". Que lição para os humoristas e, no fundo, para todos nós!
A sua enorme coragem na vida, enfrentando os grandes poderes da época com um sorriso, uma bengala e uns olhos trocistas, teve reflexos até aos dias de hoje: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela. Que esta sua tão simples frase seja lida e entendida por todos os muitos que hoje têm medo da vida!
E numa crise de valores, como a que vivemos, certamente a maior das crises, que bem nos faz ouvir Chaplin: Pensamos demasiadamente, sentimos muito pouco, necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.
E que força nos dá hoje este seu ensinamento: Que os vossos esforços desafiem as impossibilidades, lembrai-vos de que as grandes coisas do homem foram conquistadas do que parecia impossível.

Em toda a sua obra, ressaltam três grandes valores: a imaginação, a beleza e o conhecimento. Sobre a imaginação, disse um dia: num filme, o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação. E referiu-se assim à beleza: a beleza é a única coisa preciosa na vida - é difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo. E sobre o conhecimento: conhecer o homem é a base de todo o sucesso.

Chaplin via a sua obra e a sua profissão, de uma forma peculiar e sublime: se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria. Como génio do mais inteligente e corrosivo humor, disse-nos ainda que o humorismo nos alivia das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo.
E concluiu assim, sobre a transposição do imaginário para a realidade: a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios; por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.
Outra citação sua, espelhando bem o seu sentido de ARTE: o assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até ao ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo: isso é, ou deveria ser, a mais elevada forma de arte.
Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror! Que enorme bandeira a favor da Vida e da Liberdade!
E com é belo o seu sentido de estar com os outros, de amizade, de solidariedade: Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós! Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.
Nesta volta à imaginação e ao belo, em que propositadamente me deixei ir com o nosso querido Charlie Chaplin, era indispensável que citasse o seu Último Discurso (O Caminho da Vida) do filme O Grande Ditador: O caminho da vida pode ser o da liberdade e o da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e para os morticínios. Criámos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos nos fizeram céticos. A nossa inteligência nos fez empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido!

Caros amigos: isto foi dito, numa épica obra-prima do Cinema, há mais de seis décadas! Quem não reconhece, hoje, atualidade plena? No fundo, o que mudou fomos nós! A bestialidade desumana é a mesma, essa não mudou NADA!

E, ainda com Chaplin, avançamos e prosseguimos, mesmo pelo desconhecido: Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão. Creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que, no reino do desconhecido, há uma infinita reserva de poder.

E termino este maravilhoso tour com Chaplin, com esta sua tão humilde e lúcida lição de vida para todos nós:
Hoje levantei-me cedo, pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia-noite. É minha função escolher que tipo de vida vou ter hoje. Posso reclamar porque está a chover ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre a minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não me terem dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus. Posso lamentar deceções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planeei, posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está na minha frente, esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim.

Chaplin foi sempre, para mim, uma das mais fascinantes figuras no século XX: pelo seu humanismo, pelo seu génio, pelo seu poder de intervenção, pelo enorme contributo que deu para mudar este Mundo, para melhor!
Tinha pois que o colocar neste capítulo do meu blogue (Figuras). E, para isso, servi-me (julgo que não abusivamente) dele próprio, de alguns dos muitos ensinamentos que nos deixou.
As minhas últimas palavras são pois para ele:
Obrigado Chaplin pelo muito que nos deste. Espero que não leves a mal estares aqui neste blogue, ao lado de outras grandes Figuras que eu muito admiro: estás ao lado dos meus grandes amigos, estás com outro grande génio da Cultura (como o cientista, o escritor e o músico Luís da Silva Campos, que te amava tanto como eu), estás com o pintor João Tavares que contribuu para o nascimento de uma nova forma de arte no Mundo (as tapeçarias de Portalegre), estás ao lado de José Régio, um dos maiores poetas portugueses do teu século (como terias gostado de interpretar alguns dos seus imortais poemas, que tanto têm a ver com a tua vida), estás com três dos maiores políticos portugueses do teu século, que elegeram a Cultura, como nascida da Política (como tu gostarias que tivesse havido políticos destes na tua Londres e na tua Nova York!) e estás com Che que, à sua maneira, fez na América do Sul o que tu fizeste na América do Norte e na Europa.
Estás pois aqui muito bem acompanhado... Como eu te agradeço todo o bem que me fizeste.
Para sublinharmos esta nossa relação, quis o destino (ou sei lá quem) que viesse a conhecer pessoalmente a tua filha Geraldine, no Outono de 1993, em San Francisco!



A terminar, um Tributo a Chaplin prestado por grandes nomes, também eles (Letra e música de Caetano Veloso, Ney Costa Santos, Vladimir Maiakóvski, Gal Costa)








Querido Chaplin, o Mundo avança com pessoas como tu!


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