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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sábado, 23 de julho de 2011

Portugueses que me fazem sentir orgulho em ser português - Aristides de Sousa Mendes e Alípio de Freitas

Há alguns dias, vi um artigo de opinião onde se desenvolvia o tema de Alguns portugueses que nos fazem sentir orgulho em ser português. E que exemplos eram dados: José Mourinho, Cristiano Ronaldo, Durão Barroso e diversos outros...
Nada me move contra estes portugueses mas, sinceramente, que orgulho eu tenho em ser português quando tantos outros exemplos de portugueses marcaram o Mundo, só nas últimas décadas!
Entre muitos que poderia eleger, escolhi dois: Aristides de Sousa Mendes e Alípio de Freitas!
Aristides de Sousa Mendes

Extrato de um depoimento:
É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:
- Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.
Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, em total exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos.
Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos.
O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos.
No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar, o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima:
- Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...
A grosse Mensche, um grande Homem!

Outro depoimento, um tempo depois:
O meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel. Sou judeu e americano. Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr. Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, em França, passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já partiram para a América, outros ainda estão em Portugal. Também prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito carenciados. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e, apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade. O seu irmão, que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar jamais perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes. Num povoado do Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a albergar muitas famílias de refugiados, às quais, em França, passara vistos para entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa família, foi obrigado a hipotecar todo o recheio. O Dr. Sousa Mendes já não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria. Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá. Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros, estou certo disso.

A história da sua reclamação:
Em 1945, terminada a guerra, desaparecem os condicionalismos políticos que desaconselhavam a reapreciação do meu processo. Envio carta ao Presidente da Assembleia Nacional. A mim me referindo na 3.ª pessoa, reclamo:
«Tendo-lhe sido enviadas instruções pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sobre vistos em passaportes, essas instruções continham na 1ª alínea a proibição absoluta de os dar aos israelitas, sem discriminação de nacionalidade.
Tratando-se de milhares de pessoas de religião judaica, de todos os países invadidos, já perseguidas na Alemanha e noutros países seus forçados aderentes, entendeu o reclamante que não devia obedecer àquela proibição por a considerar inconstitucional em virtude do art.º 8.º n.º 3 da Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca da religião que professa, medida que aliás se lhe tornava necessária para saber a religião dos impetrantes, e assim negar ou conceder o visto.
Nestes termos, se o reclamante não obedeceu à ordem recebida do Ministério, não fez mais que resistir, nos termos do n.º 18 do art. 8º da Constituição, a uma ordem que infringia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião (art.º 8.º, n.º 19).
E não se pretenda que a inviolabilidade de crenças não é, segundo a Constituição, um direito para os estrangeiros visados, por não se acharem residindo em Portugal, único caso em que poderiam ter os mesmos direitos que os nacionais (do art.º 7.º) pois não se trata no caso presente de um direito dos estrangeiros mas de um dever dos funcionários portugueses, que nem em Portugal nem nos seus Consulados, também território português, poderão sem quebra da Constituição interrogar seja quem for sobre a religião professada, para negar qualquer acto da sua competência, o que a admitir-se significaria odiosa perseguição religiosa, mormente quando se impunha o direito de asilo que todo o país civilizado sempre tem reconhecido e praticado em ocasiões de guerra ou calamidade pública.»
Concluo:
«Não alegou na resposta que deu no mesmo processo disciplinar estas circunstâncias, pelo motivo de, lavrando a guerra na Europa, não querer dar publicidade e relevo a uma atitude, por parte de funcionários do Estado, que sobre ser inconstitucional poderia ser interpretada como colaboração na obra de perseguição do governo hitleriano contra os judeus, o que representaria uma quebra da neutralidade adoptada pelo governo.
Não pode porém suportar a evidente injustiça com que foi tratado e conduziu ao absurdo, a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sido severamente punido por factos pelos quais a Administração tem sido elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano, pois os encómios cabem ao país e à sua população cujos sentimentos altruístas e humanitários tiveram larga aplicação e retumbância universal, justamente devido à desobediência do reclamante.
Em resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente “contra a Nação”.
Pede deferimento (a) – Aristides de Sousa Mendes »
Não recebo qualquer resposta. Estou pois definitivamente condenado à miséria e à desonra.

Aristides de Sousa Mendes morre em 3 de Abril de 1954, no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa, de trombose cerebral agravada por pneumonia.
Foi um português que, completamente só, enfrentou uma ditadura e uma Europa em guerra e que, ao não cumprir as ordens superiores que recebera, salvou dezenas de milhares de vidas humanas e projetou Portugal no Mundo, pelas melhores razões!
Que orgulho em sermos seu compatriota!



Alípio de Freitas

Comecemos por ouvir Zeca Afonso que, poeticamente, nos conta a história de Alípio de Freitas


Alípio de Freitas nasceu em Vinhais (Bragança), em 1929. Cristão (foi inclusivamente Padre), sempre focado na justiça social, adepto da Teologia da Libertação, tornou-se alvo da violência da ditadura militar brasileira (1964 a 1985), tornando-se uma reserva moral da resistência a essa ditadura.
Ainda padre, em São Luís do Maranhão (no Brasil), tem, em 1957, os seus primeiros contactos com o movimento camponês, donde sairia a Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão (associação que, em 1962, tinha já cerca de 70 000 camponeses associados).
Foi Professor na Faculdade de Filosofia de São Luís, mantendo uma intensa atividade em diversa imprensa da região. A sua atividade revolucionária foi seriamente reprovada pela Cúria Romana, tendo-se desligado da hierarquia da Igreja. Contudo, e conforme diversos testemunhos publicados, nunca se afastou dos valores cristãos que sempre nortearam a sua vida - a solidariedade universal, a verdade, a prática da justiça, a igualdade de direitos para todos e os sentimentos libertários sem fronteiras (Flavio Dino, http://www.jornalpequeno.com.br/2009/2/18). Assumiu então diversas responsabilidades nas Ligas Camponesas. Foi eleito para a Secretaria Executiva da Frente de Mobilizção Popular. Foi fundador do Partido Revolucionário dos Trabalhadores
Estava no Rio de Janeiro, quando se deu o golpe militar de 1964. Esteve exilado no México e em Cuba, regressando ao Brasil clandestinamente. Esteve preso de Maio de 1970 a 1979 (em oito presídios, entre eles os de Ilha Grande, Carandiru e Ba), tendo então sido barbaramente torturado.
Grande parte do seu tempo de prisão foi no célebre Presídio Cândido Mendes, da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro. Aí se destacou Alípio de Freitas na defesa dos interesses dos presos comuns, aos quais ensinou a ler e a escrever, e a organizarem-se para a defesa das suas reivindicações (http://www.portugaldigital.com.br).
Durante a Ditadura, chegou inclusivamente a perder as cidadanias portuguesa e brasileira (só em 1985 recuperou a cidadania portuguesa). Pela sua postura perante os seus opressores, demonstrando uma força moral impressionante, tornou-se numa figura respeitadíssima por toda a esquerda brasileira.
Voltou a Portugal em 1984, como jornalista e produtor de documentários para a RTP. Em 1999, foi convidado para Professor da Universidade Lusófona de Lisboa.

Também Alípio de Freitas projetou Portugal no Mundo, pelas melhores razões!
Que orgulho em sermos seu compatriota!

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