Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Saber ler!

Foi há pouco anunciado uma significativa baixa nos exames de Português, no ensino liceal em Portugal...
Por outro lado, é sabido quanto é importante o conhecimento da língua materna no desenvolvimento cultural...
E também todos sabemos (ou deveríamos saber) como a cultura é a ferramenta indispensável para vencermos todas as crises, incluindo as crises financeiras e económicas...
E quem não acreditar nisto, experimente desenvolver-se mais, culturalmente, e verá como isto é verdadeiro!
Por todas estas razões, refiro aqui um texto, publicado há mais de meio século num jornalito do Liceu onde estudei, escrito pelo meu professor de Português durante cinco anos: José Maria dos Reis Pereira, isto é José Régio...
Complementar com os artigos nº 6 (José Régio) e nº 17 (A importância da cultura na vida)
Saber Ler
Toda a gente culta lamenta que, nos países civilizados, ainda haja muitos seres humanos que não saber ler. Parece-nos isto uma vergonha para a Civilização. De facto o é. Poucos, todavia, de entre toda essa gente culta, chegam a meditar um pouco sobre as vantagens e desvantagens de saber ou não saber ler.
A primeira vantagem de saber ler – primeira, por ser a que imediatamente ocorre a qualquer pessoa – é de ordem prática. Evidente se torna que, neste nosso mundo moderno, o analfabeto está praticamente inibido de muitas coisas. Mas outra vantagem – talvez não menos importante – oferece a leitura, que é de abrir o acesso à cultura. Analfabetos há que, pela experiência da vida, pelo trato com os homens, pelos dons naturais, adquirem aquele grau de cultura já implicada. E homens há que sabem ler mas não sabem dispor dessa estupenda vantagem, e então como que ficam analfabetos apesar de saberem ler.
Nos primeiros se torna particularmente aflitivo o analfabetismo. Pois se, com a simples experiência e os dons naturais, conseguem eles distinguir-se, até onde não iriam se soubessem ler, se pudessem cultivar a leitura? Quanto aos segundos, - são o exemplo dum mal que sempre existiu, mas particularmente alastra nos nossos vertiginosos dias. Sim, não basta saber ler, se por saber ler se entende distinguir uns certos caracteres e dar-lhes significado! Há um saber ler que vai muito mais longe, muito mais alto, muito mais fundo. E só este verdadeiramente abre as portas de oiro da cultura autêntica.
Neste superior sentido – não, não sabe ler o indivíduo que se limita a devorar jornais, revistas, selecções ou romances mais ou menos policiais, com um mínimo de actividade mental. Porque saber ler – no superior sentido – é meditar os grandes autores; dialogar com eles, discutir com eles os problemas que nos propõem; viajar de braço dado com eles, pelos maravilhosos reinos da Sensibilidade, da fantasia, da inteligência; admirar, conscientemente, o que nos ofereçam de grande, belo, verdadeiro; chegar, enfim, a ser digno do seu convívio, e enriquecer o espírito ao calor e à luz desse contacto.
Isto, sim, é saber ler, - porque saber ler é colaborar. Mas isto exige atenção, vagar, concentração, recolhimento, esforço. O profundíssimo prazer da boa leitura é com tal moeda que se paga. Aqui me dirão que a vertiginosa vida actual não chega para tanto! Não dá tempo. E eu bem vejo que em grande parte se substitui hoje a leitura pela Rádio ou a Televisão, como se pudesse o quer que seja substituir a leitura! Bem vejo que se lê onde calha, como calha, ao Deus dará. Por certo é melhor ler mal, que nada. Mas, no fim e ao cabo, ou o homem acabará por sofrer uma degradação, ou, na medida do possível, terá de se opor à vertigem em que hoje vai arrastado. Meus amigos! Em havendo vontade e juventude, há sempre uma medida do possível até contra a mais firme aparência do impossível.

José Régio, O Grito, n.º 5, 1 de Abril de 1960.

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