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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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sábado, 21 de janeiro de 2012

A OIV e a sua Comissão Nacional - 4 décadas de evolução

Tomei contacto com a atividade do OIV, organização intergovernamental sobre a Vinha e o Vinho (Office International de la Vigne et du Vin, mais recentemente Organisation Internationale de la Vigne et du Vin - www.oiv.int) em 1970, quando fui encarregue de preparar o relatório português ao Congresso da Argentina, sobre a aplicação das técnicas de Cromatografia Gasosa ao estudo dos aromas de mostos, vinhos e aguardentes: o texto foi posteriormente publicado  (Curvelo Garcia A.S., Simões A.M., 1972. Utilização da cromatografia em fase gasosa no estudo dos aromas dos vinhos e das aguardentes, De Vinea et Vino Portugaliae Documenta, II – 6 (1): 1-25), pois a comunicação que escrevi foi apresentada com os nomes de outros autores (longe ainda estavam os princípios de decoro e de direitos de autoria e de uma salutar vivência no âmbito da participação de Portugal nesta organização).
Década e meia depois, em 1984, integrei a delegação portuguesa à 64ª Assembleia Geral do OIV (Póvoa do Varzim, Portugal), onde me comecei a aperceber da necessidade de ter que se inverter o estado provinciano e amador como a representação nacional era assegurada nessa organização.
De então para cá, integrei diversas outras delegações portuguesas a Assembleias Gerais e Congressos do OIV, sempre com apresentação de Conferências nacionais ou convidadas e Comunicações, e já numa completamente diferente forma de se entender a participação de Portugal: 1992 (Madrid e La Rioja, Espanha), 1993 (San Francisco, California, USA), 1994 (Paris, França), 1995 (Punta del Este, Uruguai), 1996 (Cape Town, África do Sul), 1997 (Buenos Aires, Argentina), 1998 (Lisboa, Portugal, integrando a Comissão Organizadora e presidindo à respetiva Comissão Científica local), 1999 (Mainz, Alemanha), 2000 (Paris, França), 2001 (Adelaide, Austrália), 2002 (Bratislava, Eslováquia), 2003 (Paris, França), 2006 (Logroño, Espanha), 2008 (Verona, Itália), 2009 (Zagreb, Croácia) e 2011 (Porto, Portugal, presidindo à respetiva Comissão Científica).
Contudo, a minha mais intensa atividade junto do OIV foi, como seria evidente e lógico, no âmbito da minha especialidade (Métodos de Análise de vinhos e outros produtos de origem vitícola). Participei assim em diversas das reuniões anuais da sua Subcomissão Convencional de Métodos de Análise e de Apreciação de Vinhos, em Paris, integrando a delegação portuguesa de 1982 a 1990 e presidindo à mesma de 1991 a 2003. Desempenhei as funções de 2º Vice-Presidente desta Subcomissão de 1992 a 1997 e de 1º Vice-Presidente de 1998 a 2003, integrando assim o Conselho Científico e Técnico desta organização internacional.
Durante este tempo, fui acompanhado nas atividades da representação portuguesa junto do OIV por diversos colegas, assistindo a um profundo aumento qualitativo dessa representação; num dado momento, chegou Portugal a estar representado por quatro elementos no Conselho Científico e Técnico (eu próprio, como já disse, Luís Carneiro, Secretário Científico da Comissão de Viticultura, Olga Laureano, Presidente do Grupo de Peritos de Formação e Luís Gusmão Rodrigues, Presidente do Grupo de Peritos de Mercados Vitivinícolas; mais tarde, também Amadeu Peixoto de Menezes, Presidente da Comissão de Nutrição e Saúde, Paulo Barros, ainda hoje Secretário Científico da Subcomissão de Métodos de Análise e Luís Peres de Sousa, também ainda hoje Presidente da Subcomissão de Produtos não Fermentados da Vinha.
Também esse enorme aumento qualitativo da representação portuguesa junto dessa organização intergovernamental conduziu a que, pela primeira e única vez, fosse eleito um Presidente português (Fernando Bianchi de Aguiar, 1997-1999) e que fossem universalmente considerados grandes sucessos os Congressos OIV de 1998 (Lisboa) e de 2011 (Porto).
Foi de facto enorme o salto qualitativo verificado na atividade da representação portuguesa junto do OIV, desde os primeiros tempos em que eu a conheci (décadas de 70 e 80) até à atualidade...
Foi um trabalho coletivo, iniciado com a reestruturação do Conselho Técnico e Científico da CNOIV (Comissão Nacional do OIV), pelo Despacho de 1991-02-20 do Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação, logo com a concretização do Forum sobre os vinhos licorosos portugueses (realizado em 1991, no Porto, na Régua e no Funchal). Posteriormente, foi esta estrutura melhorada e atualizada, com diversas medidas regulamentares (despacho de 1992-04-27 do Secretário de Estado dos Mercados Agrícolas e da Qualidade Alimentar; despacho de 1996-03-13 do Secretário de Estado da Produção Agroalimentar; despacho normativo nº 22/2009 de 2009-06-02 do Secretário de Estado Adjunto, da Agricultura e das Pescas).
Um aumento tão significativo verificado na presença portuguesa junto de uma organização intergovernamental de base científica, como é a OIV, resulta da junção de diversos fatores:
a) Uma conveniente e atempada preparação das posições a tomar, face aos projetos de resolução e a outros documentos em análise, bem como inclusivamente a iniciativas tomadas.
b) A oficialização de uma estrutura, inexistente até à década de 1990, com uma conveniente representatividade dos principais centros de investigação e de diversas unidades do setor produtivo nacional, possibilitando assim o referido em a).
c) Um intenso trabalho coletivo de muito competentes profissionais das instituições referidas em b).
Foi assim este conjunto de fatores que, em cerca de três décadas, inverteram completamente o papel de Portugal junto desta organização internacional, passando de tímido e quase invisível Estado-membro para um dos mais ativos e intervenientes...

Uma palavra final para aspetos que ficaram gravados na minha memória, relativamente ao que vivi no seio de uma organização internacional com a importância estratégica desta (recorde-se que o OIV, "nascido" em 1924, portanto mais de duas décadas antes da criação da ONU, tutela ainda hoje mundialmente o setor vitivinícola, ao contrário do que acontece para a generalidade dos outros setores agro-alimentares, completamente tutelados por organizações saídas da ONU: FAO, OMS, Codex Alimentarius, ...):
Presenciei inúmeras vezes a importãncia das discussões prévias, bi ou multilaterais entre os Estados-membros, para acerto de posições e consensos (no seio da UE, entre a UE e os USA e outros países, entre os Estados mais desenvolvidos e os Estados ditos em vias de desenvolvimento, entre os Estados mais proximos e mais afastados geograficamente, até entre os Estados de maior ou menor proximidade linguística).
Assisti ao vivo às implicações de profundas alterações sociais e políticas, a nível mundial, no seio da organização...

Recordo duas que, particularmente, me emocionaram:

A do meu querido colega Andries Tromp (da África do Sul) a apresentar a candidatura deste país para acolher o Congresso do OIV de 1996, pouco tempo depois da queda do sistema do apartheid: ainda hoje tenho na memória aquele enorme homem de quase 2 m de altura, com as lágrimas nos olhos e a voz embargada dirigindo-se às delegações de todos os estados-membros, convidando-os para irem ao Congresso do OIV no seu país, que tinha ultrapassado a vergonha racista e onde agora todos os homens eram simplesmente homens!

Recordo igualmente de, numa reunião em Paris, ter apresentado um ao outro dois colegas e amigos meus por quem nutria e nutro uma enorme admiração e respeito: Julij Nemanic (da Eslovénia) e Vladimir Kovac (da Sérvia), provenientes pois de dois Estados que saíram da antiga Jugoslávia e que estavam na altura com relações tensas, quase em guerra... Nenhum queria conhecer o outro, nem sequer lhe falar. Eu conhecia bem os dois... como grandes investigadores (o primeiro em análise sensorial, o segundo em polifenóis) e como amigos (Nemanic tinha sido meu colega de estágio em Bordeaux, Kovac tinha estado comigo diversos dias em Lisboa). Foi difícil convencê-los... mas lá consegui que tomássemos os três um café depois de um almoço. Ao princípio houve grande estranheza da sua parte... mas a conversa lá foi correndo... e tudo terminou bem: éramos agora três amigos. Nos dias seguintes, curiosamente, iam sempre os dois almoçar juntos. Um dia, chegámos até a sair os três à noite...
O que eu aprendi de vida com esta história: os homens podem sempre ultrapassar o que outros pretendem criar para os dividir!

1 comentário:

  1. Em 20 de julho de 2013, faleceu o meu querido amigo Andries Tromp, da África do Sul, que eu cito nesta crónica! Paz à sua boa alma!

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