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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Santiago do Chile

Santiago do Chile
Visitei Santiago do Chile em 1997, num curto período de três dias. As suas ruas e praças são bem o tipo das de outras cidades da América do Sul, muito movimentadas e com um enorme ruído, mas um ruído que não nos incomoda e nos convida a partilhar aquela grande vida urbana...
Valparaíso
Em Santiago, há duas grandes particularidades de cor e de paisagem... Uma é a permanente visão dos Andes, "aquele muro de milhares de quilómetros de altura" que divide o Chile do resto do continente. Outra é a enorme confusão de "amarelos"  num trânsito automóvel que parece não parar durante as 24 horas do dia: os taxis e os autocarros urbanos são todos amarelos!
Do Chile, pouco mais conheci que Santiago... os milhares de quilómetros de norte a sul me impediram de conhecer mais em tão pouco tempo... mas a sua reduzida largura ainda me permitiu que fizesse uma breve visita ao Pacífico (Viña del Mar e Valparaiso).
Mas foi em Santiago onde mais demorei: teria que ver ao máximo a cidade tão bem descrita por Pablo Neruda e tão sacrificada nos tempos da ditadura de Pinochet!
Um dos dias que estive em Santiago coincidiu com a data do aniversário desse sanguinário ditador Augusto Pinochet, já fora do poder mas ainda vivo! Estava agendada uma manifestação de apoio, por parte de senhoras de família já saudosas dessa sinistra figura... E estavam igualmente agendadas manifestações contra o ditador, por parte de diversas organizações de esquerda e de defesa dos direitos humanos.
A certa altura, estava eu na rua, comecei a ouvir e posteriormente a ver uma fortíssima carga de polícia de choque, com petardos, cães-polícia e tiros, contra tudo o que mexesse!
Que recordações, pelas piores razões, do Portugal dos anos 60 e dos princípios dos anos 70!
Para sair daquela zona, meti-me num taxi... ao taxista apenas disse: leve-me daqui para qualquer lado. O taxista era brasileiro e recordo-me de o ouvir dizer: a ditadura, dizem, já terminou, mas eu acho que não... os militares e as figuras da ditadura continuam por aí, em cargos importantes! Era o povo que falava, mas sempre acertadamente.
Claro que tive de ir ver o tristemente célebre Palacio de la Moneda, em Santiago... onde, cobardemente, o regime legítimo de Salvador Allende, democraticamente eleito, foi sangretamente destruído pelo capital internacional e pelos "donos" das suas minas de cobre e de tantas riquezas deste país, sob o comando do então governo dos Estados Unidos e do beneplácito das ditas democracias europeias.
Palacio de la Moneda, sob o
ataque, no golpe fascista (1973)
Palacio de la Moneda, em 1997
Vejamos duas fotos do Palacio de la Moneda, quando atingido pelo cobarde ataque em 1973 e quando o conheci, em 1997 (ainda bem decorado com as marcas dos projeteis de que foi alvo).

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Foi este o Chile que eu adoro, e que queria aqui homenagear muito simplesmente... e homenagear  de duas formas: com um poema de José Carlos Ary dos Santos e com uma carta, em vídeo de um grande chileno enviada aos americanos por ocasião do "segundo trágico 11 de Setembro"!
Aqui fica o poema de José Carlos Ary dos Santos, Homenagem ao Povo do Chile:

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.




Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Alguns traziam no rosto
um rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso ps que ontém caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.


Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro


E a carta (em vídeo) de Pablo, aquele grande chileno, dirigida ao povo dos Estados Unidos, lembrando-lhes que o sofrimento do seu 11 de Setembro (de 2001) em Nova York não poderá esquecer o sofrimento do povo chileno, em outro 11 de Setembro, este em 1973, onde foi tão importante e decisivo o papel do então governo dos Estados Unidos...

Que nunca se esqueça,,,

Viva o Chile, os seus poetas e o seu Povo!



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