Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os Homens e as Mulheres da Cultura na Ditadura de Salazar e Caetano

Esta é uma homenagem a Mulheres e Homens da CULTURA que, durante a Ditadura de Salazar e Caetano (Portugal, 1926 a 1974), como muitos outros cidadãos portugueses e mesmo naturais das ex-colónias, sofreram as maiores barbaridades nas prisões do regime, pagando alguns com a própria vida essa sua inquebrantável coragem!

Fica aqui o exemplo de duas ou três gerações de mulheres e homens da Cultura que, para além das suas obras (na Música, na Pintura, na Escultura, no Cinema, no Teatro, na Poesia, na Escrita, na Filosofia, no Jornalismo, na Ciência, no Ensino), nos legaram ainda a maior Obra de todas: a Liberdade!
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Francisco Pulido Valente - Revolucionou o ensino da medicina quando a crendice ainda era vista como cura. Trouxe para a ciência médica a relação causa-efeito, que permite fazer o diagnóstico a partir da observação dos sinais e sintomas. Opôs-se ao regime de Salazar e pagou por isso - com a carreira. Promoveu tertúlias no consultório em que participavam artistas, políticos e cientistas. O pintor João Abel Manta celebrizou estes encontros no quadro “A Reunião” ou “Grupo do Consultório”, de 1955. Pulido Valente deu nome a um hospital, uma fundação e a dois prémios na área da Medicina.




Mário de Azevedo Gomes nasceu em Angra do Heroísmo (Açores), em 1885. Foi um insigne silvicultor (licenciado em Engenharia Agrónoma, em 1907), tendo exercido funções docentes, e ficando célebre por diversas razões: foi ministro da I República (no governo de Álvaro da Costa, entre dezembro de 1923 e fevereiro de 1924) e mais tarde uma figura importante na oposição ao regime político resultante do Golpe de Estado de maio de 1928. Foi fundador da Estação Nacional Agrícola, e dirigiu a chamada instrução agrícola entre 1919 e 1925. Considerado um "Seareiro" (movimento criado em torno da Revista Seara Nova), foi membro da Comissão Central do MUD (à qual presidiu), juntamente com importantes figuras do mundo académico português, como Bento de Jesus Caraça. Em 1946, e na sequência da redação de um documento sobre a admissão de Portugal no seio da ONU, é-lhe instaurado um processo disciplinar, do qual resultaria a sua demissão da Universidade Técnica, onde lecionava desde 1914, por decisão do Ministério da Educação Nacional. Em 1951 voltaria à Universidade, até 1955. Após a extinção do MUD, foi Presidente da Comissão Central da Candidatura do General Norton de Matos, aquando da sua candidatura à Presidência da República, em 1948. Durante a década de 50 e início dos anos 60, orientou e elaborou vários estudos dedicados ao Parque da Pena: solos, clima e aspetos dendrológicos-florestal. Em 1960 publica a obra que eternizou a sua paixão pelo Parque da Pena: a Monografia do Parque da Pena, na qual descreve detalhadamente o património natural e edificado do Parque e da anexa Tapada do Mouco, bem como de outros espaços adjacentes, como o Castelo dos Mouros, Tapada do Inhaca, entre outras.


Ruy Luís Gomes nasceu no Porto, em 5 de dezembro de 1905. Doutorou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra em 1928, entrou como Assistente na Faculdade de Ciências do Porto em 1929 e foi Professor Catedrático de 1933 a 1947, na mesma Faculdade, ano em que foi afastado do ensino oficial pelo fascismo. Manteve-se em Portugal até ser contratado pela Universidade Nacional del Sur, Bahía Blanca, Argentina, de 1958 a 1961, no Instituto de Matemática. Foi depois contratado pela Universidade Federal de Pernambuco, Brasil, aí se mantendo de 1962 a 1974. Regressou a Portugal, reintegrado como Professor Catedrático da Faculdade de Ciências do Porto, logo após a Revolução do 25 de Abril. Ruy Luís Gomes tinha, há mais de sessenta anos atrás, nas duras condições do fascismo, sem as comodidades que hoje temos com novas tecnologias da informação e com meios de transporte mais rápidos, uma visão científica mais avançada do que aquela que tem muitos dos cientistas portugueses na atualidade. Uma visão revolucionária, na medida em que a sua atividade se diversificou em várias direções, indo longe, com eficácia, em todas elas. Ruy Luís Gomes, para além de ser um professor competente, dedicado e admirado pelos seus alunos, foi um investigador de nível internacional. Ruy Luís Gomes foi um divulgador da Ciência, através de palestras e de artigos. 1945 é o ano da sua entrada na atividade política intensa, quase quotidiana, paralela à sua atividade como cientista. Ruy Luís Gomes apoiou o Movimento de Unidade Democrática (MUD) desde o seu início.

Em Portugal, logo após o 25 de Abril foi primeiro aclamado e em seguida nomeado Reitor da Universidade do Porto, para, aquando da sua jubilação, lhe ser outorgada a distinção de Reitor honorário e vitalício. Em efetividade de funções tratou de ajudar a reparar as injustiças cometidas pelo fascismo integrando na Universidade como professores catedráticos José Morgado e Óscar Lopes, entre outros. Faleceu em 27 de outubro de 1984. Sem sombra de dúvida que relativamente à vida de Ruy Luís Gomes se pode dizer que foi uma afirmação constante da sua «confiança inabalável» na capacidade científica e política do Povo Português, o que faz dele o mais completo homem de ciência do século XX português, um cientista revolucionário.

Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de abril de 1901, em Vila Viçosa, numa modesta dependência do Convento das Chagas, onde se alojavam alguns criados da casa de Bragança. Era filho de trabalhadores rurais. Viveu os primeiros cinco anos da sua vida na “herdade da Casa Branca”, na freguesia de Montoito, onde aprendeu a ler e escrever com um trabalhador, José Percheiro. Fez o curso liceal nos liceus de Santarém e de Pedro Nunes, em Lisboa, que terminou em 1918, ano em que ingressou no Instituto Superior do Comércio, posteriormente designado Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (I.S.C.E.F.), atual Instituto Superior de Economia e Gestão. No 2º ano deste Instituto ( 1 de novembro de 1919) foi nomeado 2º assistente do 1º grupo de cadeiras, pelo professor Mira Fernandes. Licenciou-se com altas classificações em 1923. Em 13 de dezembro de 1924 é nomeado 1º assistente, em 14 de outubro de 1927 professor extraordinário e em 28 de dezembro de 1929 professor catedrático da 1ª cadeira (Matemáticas Superiores - Álgebra Superior. Princípios de Análise Infinitesimal. Geometria Analítica). Integrou o Conselho Administrativo da Universidade Popular Portuguesa desde a sua fundação, em 1919, quando era ainda estudante universitário, tendo assumido a sua presidência em dezembro de 1928, encetando a sua reativação. No âmbito da atividade de esclarecimento cultural deu aulas em cursos de aperfeiçoamento no sindicato do Arsenal da Marinha no princípio dos anos 30, proferindo a célebre conferência sobre A Cultura Integral do Indivíduo- Problema central do nosso tempo, na União Cultural “Mocidade Livre”(1933) e sobre a “Escola Única”, na Sociedade de Estudos Pedagógicos(1935). Em 1938 propôs, com os professores Mira Fernandes e Beirão da Veiga, ao Conselho Escolar do I.S.C.E.F. a fundação do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, de que foi diretor até outubro de 1946, ano da sua extinção por decisão ministerial. Esta verdadeira “enciclopédia do saber”, pioneira mesmo a nível da Europa, publicou 114 títulos, com uma tiragem global de 793.500 exemplares (tiragem média por livro: 6960 volumes). Nela publicou Bento Caraça o seu notável livro Conceitos Fundamentais da Matemática que revolucionou a abordagem da história da Matemática focada dum ponto de vista interdisciplinar e dialético.

A subida do fascismo ao poder leva Bento Caraça a intensificar a sua atividade política, quer a nível clandestino como militante comunista, quer a nível legal e semilegal : participa ativamente na Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascismo e no Socorro Vermelho Internacional; mais tarde participa na fundação do MUNAF, em 1943, e do MUD, em 1945. Constantemente perseguido, nunca abdicou dos seus ideais. Acabou por ser preso pela PIDE e, posteriormente, demitido do seu lugar de professor catedrático do I.S.C.E.F., em outubro de 1946. Publicou diversas obras e numerosos artigos sobre Matemática e colaborou na “Revista do Instituto Superior de Comércio”, “Revista da Economia”, “Técnica”, “Seara Nova”, “Vértice”, no quinzenário “O Globo”, que fundou juntamente com Rodrigues Migueis; e nos semanários “O Diabo” e “A Liberdade”. Resistente antifascista, lutador pela liberdade e a democracia, apontava como horizonte mais vasto profundas transformações sociais, uma sociedade sem exploradores nem explorados, uma sociedade socialista. Homem de cultura, atacava o monopólio cultural das classes dominantes, apontava o caminho da criatividade e da fruição culturais pelo povo e sublinhava o consequente imperativo da solução dos graves problemas económicos das massas trabalhadoras. Deu uma importante contribuição para a democratização da cultura. Apontando o valor e o papel do indivíduo, inseria a sua atividade em realizações coletivas.
Morreu em Lisboa, a 25 de junho de 1948, com apenas 47 anos de idade. O seu funeral transformou-se numa impressionante manifestação de pesar e de homenagem sentida a um dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa que jamais traiu a sua humilde e honrada condição de classe.

Manuel Rodrigues Lapa é, sem dúvida, uma das figuras cimeiras do universo da Língua Portuguesa e da luta pela Democracia em Portugal durante a longa noite da ditadura. Enfrentou as adversidades comuns às pessoas que, nascendo em famílias pobres, pretendem evoluir culturalmente e depois, já adulto e, mercê da sua insaciável sede de saber, teve também, devido às suas convicções democráticas, de lutar contra os obstáculos que o regime ditatorial interpunha entre ele e os seus objetivos. Perseguido, foi forçado a exilar-se. Mas lutou sempre. Desde que deu os primeiros passos em Anadia até quando, também ali, morreu no hospital José Luciano de Castro.
É neste ano 1934 que sai a público uma das suas mais emblemáticas obras - Lições de Literatura Portuguesa: época medieval. A sua atividade como publicista prosseguiu até Salazar desencadear uma das primeiras grandes purgas dos funcionários públicos:–em maio de 1935, demite compulsivamente Rodrigues Lapa, impedindo-o, por decreto-lei, de aceder a qualquer cargo público. Na mesma altura outros 32 funcionários civis e militares são demitidos (entre eles, Norton de Matos, Abel Salazar e Carvalhão Duarte?. A carreira universitária de Manuel Rodrigues Lapa em Portugal chegava ao fim. Prossegue então a sua tarefa de ensaísta, em prol da língua portuguesa e dos direitos de cidadania. Entre as muitas revistas e jornais onde os seus textos são publicados, a Seara continua a ser um palco privilegiado. Em 1939, no ano em que eclode a II Guerra Mundial, Rodrigues Lapa traduz e apresenta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Em 1945, publica na Seara Nova a sua obra de maior êxito editorial – Estilística da Língua Portuguesa.
Apoiou publicamente a candidatura do general Norton de Matos pela Oposição democrática às eleições para a presidência da República. No dia seguinte a uma entrevista ao “Diário de Lisboa”, é preso em sua casa. Está sete dias detido no Aljube, ouvindo bimbalhar os sinos da Sé de Lisboa e vendo as pombas revoar livremente no céu azulChegou o momento de partir. Em maio de 1957 fixa residência no Brasil, em Belo Horizonte. Leciona Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Intensifica a colaboração em jornais e revistas do Brasil, sem deixar de colaborar na “sua” Seara. Em dezembro de 1962 resolve vir a Lisboa, sendo imediatamente preso pela PIDE, logo no Aeroporto da Portela. Apesar de tudo, voltará a viver em Portugal.
Em 21 de abril de 1974, na cidade de Ouro Preto (Minas Gerais, Brasil), recebe a medalha de ouro da Inconfidência Mineira pelos seus trabalhos de investigador do século XVIII brasileiro. É, pois, no Brasil que sabe que no dia 25 o odioso regime, que tanto o perseguiu a ele e a todos os democratas, cai finalmente. Regressa de imediato a Portugal, onde prossegue a sua atividade, publicando textos na Seara Nova e na Vértice, principalmente. Em 1975 publica diversos textos no Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, de Belo Horizonte, na Biblos, de Coimbra e na revista Árvore, do Porto. A Sociedade Brasileira de Língua e Literatura atribui-lhe a Medalha Oskar Nobiling, pelos “relevantes serviços prestados à causa do ensino e da pesquisa científica nos domínios da Linguística, da Filosofia e da Literatura em nível universitário”. É também condecorado pelo Governo português com a comenda de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.
No seu funeral, referiu o Presidente da República Mário Soares: “Desde os tempos em que fui estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, de cujos quadros Lapa havia sido expulso pouco tempo antes, por se recusar a ser cúmplice do despotismo e da mediocridade então reinantes, ele constituiu para mim e para a minha geração inconformista, exemplo do português de um só rosto, de antes quebrar que torcer, que afrontou perseguições e riscos por amor às suas convicções de homem livre”. O Professor Vitorino Magalhães Godinho, por ocasião do seu 70.º aniversário, referiu também: “Portugal não quis ou não soube aproveitar a pleno Rodrigues Lapa. A amargura oprime-nos, ao pensar nos irreparáveis desperdícios de valores autênticos, daqueles que, mais do que quaisquer outros, estavam preparados para trabalhar pela pátria, enriquecendo o seu património pela criação com categoria internacional”.
Desenho de Cunhal
Álvaro Cunhal nasceu em Coimbra, em 10 de novembro de 1913. Em 1931, com dezassete anos, ingressa na Faculdade de Direito de Lisboa, onde inicia a sua atividade política. Neste mesmo ano filia-se no PCP. Em 1934 torna-se representante dos estudantes de Lisboa no Senado Universitário. Terá entrado na clandestinidade em 1935. Em 1936 entra para o Comité Central do PCP, que o envia a Espanha, onde vive os primeiros cinco meses da guerra civil. Em junho de 1937 é preso pela primeira vez. É levado para o Aljube e posteriormente transferido para Peniche.
Ao longo da década de 30, Cunhal foi colaborador de vários jornais e revistas, entre os quais se contam "O Diabo"; "Sol Nascente"; "Seara Nova"; "Vértice"; e nas publicações clandestinas do PCP, "Avante" e "Militante", onde escreveu artigos de intervenção política e ideológica.
Em maio de 1940 é novamente preso e faz o seu exame final na Faculdade de Direito de Lisboa sob escolta policial. Apresenta uma tese sobre a realidade social do aborto, que seria avaliada por um júri composto por Marcelo Caetano, Paulo Cunha e Cavaleiro Ferreira, figuras destacadas do regime Salazarista. A sua classificação final foi de 16 valores.
Em 1941 trabalhou como regente de estudos no Colégio Moderno, altura em que entrou de novo na clandestinidade. A 25 de março de 1949, é preso pela terceira vez, numa casa clandestina do Luso. O seu julgamento ocorreu um ano depois. Neste julgamento Cunhal fez uma declaração em que se afirmava "filho adotivo do proletariado" e dirigiu um forte ataque ao regime salazarista. Foi condenado e preso na Penitenciária de Lisboa, sendo transferido para a prisão-fortaleza de Peniche em 1958. Em 1953 desenvolve-se um movimento internacional de solidariedade pela sua libertação, que conta com a participação de inúmeros intelectuais e artistas estrangeiros. Destes destacam-se Jorge Amado e Pablo Neruda, que lhe dedica o poema “Lámpada Marina”. Dos onze anos que esteve encarcerado, foi mantido incomunicável durante catorze meses e passou oito em total isolamento. Em janeiro de 1960 dá-se a famosa fuga do forte de Peniche. Em 1961 é eleito Secretário-geral do PCP. Em 1962 é enviado pelo PCP para o estrangeiro, primeiro para Moscovo, depois para Paris onde vive clandestino durante cerca de oito anos. Assiste em Paris ao maio de 68 e é lá que a Revolução de abril o vai surpreender. Regressa a Portugal a 30 de abril de 1974.
Álvaro Cunhal contou que, da primeira vez em que foi preso, nos anos trinta do século XX, o colocaram, algemado, no meio de uma roda de agentes, onde foi espancado a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas. Depois, deixaram-no cair, imobilizaram-no no solo, descalçaram-lhe os sapatos e meias e deram-lhe violentas pancadas nas plantas dos pés. Quando o levantaram, obrigaram-no a marchar sobre os pés feridos e inchados, ao mesmo tempo que voltaram a espancá-lo. Isto repetiu-se por numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdeu os sentidos, ficando cinco dias sem praticamente dar acordo de si.
No ano de 1992 abandona o cargo de Secretário-geral do PCP, que passa a ser ocupado por Carlos Carvalhas. Liberto das suas funções de liderança partidária, Álvaro Cunhal, a par da atividade política corrente, assume claramente a sua condição de romancista e esteta. Neste sentido, em 1995 reconhece publicamente ser o romancista Manuel Tiago e um ano mais tarde publica um ensaio sobre estética, onde apresenta as suas reflexões neste domínio:
A Arte, o Artista e a Sociedade
"Constitui um direito à liberdade que um artista concentre exclusivamente o seu talento e a sua criatividade na busca de novos valores formais: o da cor, do volume, da musicalidade, da linguagem. Essa atitude tem conduzido a enriquecimentos e descobertas dando vida à obra por virtude dos novos valores formais conseguidos. Constitui também um direito à liberdade que um artista parta à descoberta de novos valores formais (da cor, do volume, da musicalidade, da linguagem) com o propósito de os tornar adequados e capazes de levar à sociedade, ao ser humano em geral, uma mensagem de alegria ou tristeza, de solidariedade ou de protesto, de sofrimento ou de revolta, em qualquer caso, como é de desejar de otimismo e de confiança no ser humano e no seu futuro." (…)

"Quando se fala de uma arte voltada para o povo, para a sua vida e as suas aspirações e da mensagem que o artista, com a sua obra, leva ao povo, não se pretende que, no domínio da arte e da criatividade artística, o povo seja apenas objeto e destinatário. O povo é também autor, é também criador de valor estético. A criação popular funde o talento individual com o talento coletivamente considerado."
"A imaginação artística dos povos envolve gerações, num quase inimaginável longo processo criativo, que, mantendo vivas mesmo que não evidentes as origens, as enriquece e traduz com elementos e valores estéticos novos." (…)
"Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca."
"(...)É bom que jamais percam a necessidade e o gosto de escrever, de pintar, de tocar um instrumento, de mesmo em silêncio, sem assim se chamarem, continuarem a ser artistas."(p.202)
Álvaro Cunhal (Editorial Caminho, Lisboa, 1996)
Abel de Lima Salazar
Pintor e professor universitário, nasceu em Guimarães em 1889 e morreu em Lisboa em 1946. Médico de profissão e professor catedrático de Histologia e Embriologia na Universidade do Porto, notabilizou-se sobretudo como artista amador, além de ensaísta, historiador e crítico de arte. No campo da ciência criou novos métodos de técnica histológica, entre eles o método tano-férrico que o irá tornar mundialmente conhecido.
A sua pintura, de temática urbana e rural, saída do naturalismo, vai fixar-se numa iconografia de crítica social, com especial incidência na problemática da mulher trabalhadora.
Em 1935, começou a ser perseguido pela Ditadura, por razões de ordem política e foi afastado da sua cátedra. Apesar de expulso da Faculdade e das múltiplas dificuldades que lhe foram levantadas, continuou a publicar importantes trabalhos de índole científica.
Abel Salazar foi também pedagogo ousado, prosador de excecionais recursos, crítico agudíssimo, filósofo criador e sistematizador, divulgador de doutrinas e ideais progressistas, e acima de tudo, homem de honra e homem de coração.
Quadro de Abel Salazar




Abel Salazar: O médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe!

José Afonso continua em 1973 a sua “peregrinação”, cantando um pouco em todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de maio. Na prisão política, escreve o poema «Era Um Redondo Vocábulo». Pelo Natal, publica o álbum Venham Mais Cinco, gravado em Paris, em que José Mário Branco mais uma vez colabora musicalmente.
A 29 de março de 1974, o Coliseu, em Lisboa, enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com Grândola, Vila Morena. Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem Grândola para senha da Revolução. Um mês depois dá-se o 25 de Abril. No dia do espetáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações de Venham mais cinco, Menina dos olhos tristes, A Morte saiu à rua e Gastão era perfeito. Curiosamente, a Grândola era autorizada.



Manuel Alegre nasceu em 1936 e estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, onde participou ativamente nas lutas académicas. Cumpriu o serviço militar na guerra colonial em Angola. Nessa altura, foi preso pela polícia política (PIDE) por se revoltar contra a guerra. Após o regresso exilou-se no norte de África, em Argel, onde desenvolveu atividades contra o regime de Salazar. A sua poesia foi e é um hino à Liberdade e talvez seja por isso que é lembrada por muitos resistentes que lutaram contra a ditadura. É considerado o poeta mais cantado pelos músicos portugueses, designadamente Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília, Manuel Freire, António Portugal, José Niza, António Bernardino, Alain Oulman, Amália Rodrigues e Janita Salomé.
Um dos mais conhecidos poemas de Manuel Alegre é As mãos (de O Canto e as Armas, 1967), simbolizando a esperança pela Liberdade e foi cantado por Adriano Correia de Oliveira, cantor amigo do poeta e companheiro das lutas estudantis em Coimbra.
Anos antes, o convívio entre os dois possibilitou a criação de um poema-cantiga que ficou na história da resistência à Ditadura. Conta-se que numa noite, em plena Praça da República em Coimbra, Manuel Alegre exprimia a sua revolta:
Mesmo na noite mais triste/ Em tempo de servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não. E Adriano Correia de Oliveira disse: mesmo que não fiquem mais versos, esses versos vão durar para sempre! Ficaram. António Portugal compôs a música. E depois o poema surgiu naturalmente. Tinha nascido a Trova do vento que passa. Três dias depois vieram para Lisboa, para uma festa de receção aos alunos na Faculdade de Medicina. Manuel Alegre fez um discurso emocionado, depois Adriano Correia de Oliveira cantou e quando acabou de cantar foi um delírio, teve de repetir três ou quatro vezes, depois cantou o Zeca, depois cantaram os dois. Saímos todos para a rua a cantar. A Trova do vento que passa passou a ser um hino. Como recordo essa noite…
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Muitos outros Homens e Mulheres da Cultura merecem ainda a nossa homenagem, pelo insubstituível valor que nos legaram: a LIBERDADE!
Eis ainda mais alguns:
D. António Ferreira Gomes (Bispo de Portalegre e do Porto), Fernando Lopes Graça, Alexandre Pinheiro Torres, António José Maldonado, António Ramos Rosa, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Eugénio de Andrade, Alberto de Lacerda,Fernando Assis Pacheco, António Gedeão, Sérgio Godinho, José Carlos Ary dos Santos, Joaquim Pessoa, José Jorge Letria
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Referências
-Arquivo da PIDE/DGS no Arquivo Nacional de Torre do Tombo (http://ttonline.dgarq.gov.pt/)
-Vítimas de Salazar - Estado Novo e Violência Política, João Madeira (coordenador), Luís Farinha, Irene Flunser Pimentel, A Esfera dos Livros, 2007,
-Bento de Jesus Caraça – Um pensamento, uma obra para o nosso século (http://www.cgtp.pt/bjc/biografia/biografia.htm)
-Ruy Luis Gomes, Cientista e Universitário (Jorge Rezende)
- Catálogo publicado para acompanhar as Exposições das obras de Abel Salazar durante o ano do 1º Centenário do seu Nascimento (1889 - 1989).
- Manuel Rodrigues Lapa (http://www.vidaslusofonas.pt/RLAPA.htm)
- Fotobiografia de Manuel Rodrigues Lapa, de José Ferraz Diogo (edição da Câmara Municipal de Anadia)

4 comentários:

  1. Que homenagem maravilhosa! Parabéns...
    Isabel Moreira

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  2. E, já agora, D. António Ferreira Gomes Bispo de Portalegre e do Porto, exilado pelo Salazar.

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    1. Concordo e obrigado pela sugestão. Já o referi

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  3. Não sei quantos conhecem ou seguem este blog. Fonte de informação, mas sobretudo de cultura.
    Depois do primeiro contacto não podemos ficar alheios. Prova de que afinal, o tema das nossas conversas não têm obrigatoriamente de passar pelos "cristianos" que por aí proliferam... e, se para mais nada prestarem, poderão sempre auto justificar-se como "comendadores" dos que dizem governar-nos. Com ou sem equivalências...

    Hoje tivemos acesso a mais uma boa lição. Obrigado.
    Mesmo que de momento não sejamos assim tantos a seguir-te, sabes, como agrónomo, que a qualquer momento a boa sazão chegará.
    O problema do retardamento dos outros, já não é problema teu.

    Matias

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