Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Makers of scientific papers


Para além de Cientista,
um Homem
Vi há algum tempo um artigo de António Mexia (O Ensino da Engenharia Agronómica - que futuro?) na revista Ingenium, órgão da Ordem dos Engenheiros (número de maio/junho de 2012).
 
Cito uma passagem desse artigo:
Conto-vos dois exemplos
Em novembro foi publicado um paper na "Science" que apresentava a sequenciação do aranhiço vermelho das culturas agrícolas. São 21 autores. Estes serão os biotecnólogos, os da proteómica e da genómica de amanhã. Mas foi preciso pedir a um taxonomista português que dissesse "preto no branco" que o que tinham sequenciado era Tetranychus urticae. Não é autor, não é coautor e nem teve sequer direito a um agradecimento. Isto é a ciência de hoje e será a do futuro. Mas os sequenciadores que sequenciam genes nestes termos, que é assim que o fazem, precisam dos outros que sabem outras coisas, daqueles que estão em vias de extinção.
Dou-vos outro exemplo do meu Instituto. Um doutoramento isolou, caraterizou e guardou estirpes de bactérias lácticas dos bons queijos portugueses. Para quê? Para arranjar iscos, arranjar fermentos, para fazer melhores queijos, para dar à indústria. Publicou dois papers e teve enormes dificuldades na defesa do doutoramento. Ao lado, um colega pegou naquelas coleções e caraterizou-as genotipicamente. Publicou papers nas melhores revistas e é considerado um cientista de topo. Conseguirá ele dar algum isco aos queijeiros? Mas aquele é um cientista. São só dois exemplos dos tempos modernos.
 
António Mexia é Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia (Universidade Técnica de Lisboa) e foi Diretor da Estação Agronómica Nacional, a mega-Estação do INIA num momento em que eu era Diretor da Estação Vitivinícola Nacional, a mini-Estação daquele INIA.

Estou à vontade para falar deste assunto pois, durante a minha carreira científica, cerca de um quarto das publicações de que fui autor ou coautor (cerca de 50 em 200) o foram em revistas internacionais com painel de avaliação, tendo eu próprio sido diretor duma revista científica internacional por mais de uma década e tendo sido elemento do painel de avaliação de diversas outras.
Por outro lado, sempre tenho defendido que o valor e a verdade da investigação científica terá de ser permanentemente demonstrado pela publicação dos resultados em revistas credíveis, validados no seu impacto junto do meio científico.
Para demonstrar esta minha posição, que julgo que nem seria necessário, a seguir cito dois excertos do artigo deste meu blogue Cultura científica - aprender, inovar, divulgar, cooperar

- Um dos parâmetros mais intrínsecos da atividade científica é a divulgação dos novos conhecimentos obtidos, devendo ter como primeiro e principal alvo a restante comunidade científica, e como principal meio a publicação desses novos conhecimentos em revistas científicas. Evidentemente que não excluem tais factos a importância da complementaridade com outros públicos-alvo (os utilizadores dos avanços da ciência e mesmo a comunidade em geral) e com outras formas de divulgação (outros tipos de publicações, o ensino, a apresentação de resultados em manifestações científicas e técnicas, colóquios). Mas hoje (e sempre foi assim), em Ciência, "resultados não divulgados em publicações científicas não existem !".

- A necessidade de, perante a nossa instituição, perante a nossa equipa e perante nós próprios, tomarmos as necessárias medidas para salvaguardar quer a originalidade dos resultados conseguidos quer a sua eventual adulteração: e o caminho eficaz é a sua publicação em revistas credenciadas (que não é exatamente o mesmo que "revistas com elevado poder de impacto"). A elevada competitividade existente no mundo científico abre caminho à possibilidade de meios menos claros ou mesmo eivados de desonestidade profissional.

Considero pois que um dos pilares essenciais em que assenta a atividade de investigação científica é o da publicação dos seus resultados em revistas credenciadas e avaliados pelos pares.
Mas isto não significa, não pode significar que a atividade científica se resuma a isso... 
O dever do investigador é fazer investigação, divulgando os resultados que vai alcançando... e divulgando-os para a sociedade, incluindo aqui o meio científico, os seus pares, portanto publicando em revistas científicas credenciadas.
Mas não deverá é fazer desses seus artigos científicos o exclusivo da sua atividade. Deverá também interagir com a sociedade civil, com o setor produtivo, no caminho da sua investigação. Deverá também partilhar o seu conhecimento com os seus alunos, com os seus pares, ensinando em partilha!
Que melhor prémio poderá um investigador ter do que ver o seu trabalho refletido na obtenção de um novo produto, de uma nova tecnologia, de uma nova metodologia? Certamente muito mais importante do que o seu CV recheado de inúmeros papers publicados em proeminentes revistas internacionais.
 

1 comentário:

  1. Caro António Garcia tenho uma filha (investigadora) e tb engª química que vai publicando o resultado das teses que antes idealiza e assina por baixo tudo o que tu (mestre) aqui deixas escrito.Ela trabalha as nanopartículas e a sua aplicação nos mais variados domínios. Gosto do que vocês expôem. Obrigado.

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