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Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

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domingo, 16 de junho de 2013

UMA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA SEM MEMÓRIA

Há alguns meses, fiquei profundamente chocado quando, ao entrar nas instalações do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), em Lisboa, deparei com uma autodenominada Feira do Livro do setor vitivinícola, onde se encontrava à venda o livro de que sou autor (Controlo de Qualidade dos Vinhos) e que foi editado pelo próprio IVV, pelo preço de UM EURO! Para além do facto de se ter completamente ignorado o contrato que eu tinha assinado com o editor (IVV), quando da sua edição, contrato esse que assinei na boa fé, e que esta instituição não veio agora cumprir, este facto chocou-me por se colocar à venda por 1 euro, menos que um jornal diário ou um bilhete de Metro, e quase o mesmo que um expresso num café de bairro, um livro que foi o primeiro livro português premiado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho e que ainda hoje, 25 anos depois, continua a ser obra de referência na bibliografia indicada em múltiplos Cursos de Licenciatura e de Mestrado em diversas Universidades e Institutos Politécnicos portugueses e de outros países.
Por ser parte envolvida, não me alongo nestas considerações. E até porque hoje entendo as efetivas razões desta inadmissível ocorrência. Não se deveu a qualquer ação consciente dessa instituição contra mim. Aliás, muitas outras obras de autores portugueses, editadas ou patrocinadas pelo IVV se encontravam nessa "Feira de venda ao desbarato". Tratava-se simplesmente de uma ação de "limpeza" dos armazéns da instituição.
 
Certamente ninguém pensou que, ao limpar os armazéns, se estava a contribuir para uma realidade infelizmente muito típica do nosso país: limpar, melhor dizendo apagar a memória!
 
Por outro lado, relato um facto passado na instituição onde exerci funções, durante mais de quatro décadas e até me aposentar... Falo agora de uma instituição de investigação científica para o setor agrário: INIA, INIAP, INRB, INIAV... são as designações que os poderes dominantes lhe foram atribuindo ao longo dos últimos anos. Aqui, dois dos meus mais jovens colegas, após terem feito todo o seu percurso de formação científica, nessa instituição, incluindo o seu doutoramento e até tendo exercido atividade de pós-doutoramento, foram finalmente contratados como Investigadores... ao abrigo de um programa da Fundação para a Ciência e Tecnologia de auxílio a instituições de Ensino Superior e de Investigação, para rejuvenescimento dos seus quadros de pessoal científico. Note-se que estes dois meus colegas possuem hoje especialidades únicas no nosso país, com notável repercussão nacional e internacional.
Como se sabe, hoje todos os contratos na administração pública são a termo, podendo evidentemente ser prorrogados Pois tem sido muito reduzido o efetivo interesse demonstrado pela instituição na continuação desses contratos. Poderia apontar vários exemplos que demonstram bem esse alheamento da instituição relativamente a esses elementos, inclusivamente com a prestação de erróneas informações para o exterior, referindo que se tratava de elementos que não pertencem à instituição (quando efetivamente pertenciam) ou que já não pertenciam à instituição (quando se encontrava e até ainda se encontra pendente a prorrogação do seu contrato). E foram estas informações prestadas por elementos com responsabilidades na instituição! Esta é pois também uma forma de apagar a memória, deixando assim sem memória uma casa de investigação, conforme aliás um colega meu me disse, quando recentemente um destes exemplos se verificou.
 
Numa casa de investigação, isto é ainda mais grave!
Num artigo que escrevi para este meu blogue ("Geração após geração, cresce a Ciência e o conhecimento do Mundo"), procurei explicar como qualquer Investigador desenvolve a sua atividade, aprendendo sempre com os seus colegas, com os seus pares científicos, englobando aqui os seus colaboradores, os seus discípulos, os seus colegas, os seus mestres.
Daí a enorme importância de haver memória numa casa de investigação!
Muito do meu percurso de Investigador se deve à memória da instituição onde desenvolvi a minha atividade científica. Aprendi a conhecer, por dentro, a importância de uma publicação científica com os Engenheiros Acúrcio Rodrigues e Pedro Manso Lefèvre. Aprendi o sentido de exigência com o Prof. Pedro Amaro. Aprendi a nunca desistir daquilo em que se acredita com o Prof. Vaz Portugal e com o Engenheiro Soveral Dias. Aprendi a considerar como a Ciência Agrária se pode tornar a excelência da Ciência em Portugal com o Prof. Miguel Melo e Mota. Aprendi como é possível em Portugal fazer essa Ciência de excelência, e até com alegria e enorme envolvimento, com o Doutor Manuel Bravo Lima. Aprendi como se faz escola científica, para durar muitas gerações, com os discípulos dos Mestres António de Sousa da Câmara e Joaquim Vieira Natividade. Aprendi com muitos outros tudo o que foram os meus alicerces da atividade científica. Aprendi com os meus colegas da minha geração e da minha Unidade como nada poderá derrubar aquilo que coletivamente construímos.
 
Assim, alguém duvida de que é indispensável haver e preservar a memória, numa instituição de investigação? Mesmo em toda a Administração Pública (isto é, na administração daquilo que é público, daquilo que é nosso)? Mesmo em tudo no nosso País?
Neste sentido, um muito importante facto positivo foi a publicação, há alguns meses, por ocasião do 75º aniversário da criação da Estação Agronómica Nacional (dramaticamente extinta, contudo, antes de cumpridos esses 75 anos), do livro "História e Memórias da Estação Agronómica Nacional - 75 anos de atividade", editado pelo INIAV e pela INCM (Imprensa Nacional – Casa da Moeda).
 
Um país sem memória está sempre a começar do zero! Um organismo sem memória está também sempre a começar do zero! E pode até nem conseguir arranjar energias para começar de novo...
Daí, a principal gravidade dos factos que citei. Penso que são apenas resultantes de incompetências e do "exercício de pequenos (muito pequenos mesmo) poderes", mas poderes pagos pelo erário público!

7 comentários:

  1. É este o motivo pelo qual a nossa actividade científica nunca consegue deixar escola.

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  2. Trata-se infelizmente de uma realidade comum a muitos organismos em Portugal. Sou Professor Universitário e comungo do que diz. Sou de uma área diferente da sua, mas conheço sei como é bem respeitado pelo muito que fez e que pelos vistos continua a fazer pela Ciência em Portugal.
    António Trindade

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  3. Se eu sinto o que dizes, como o sentirás tu, António, que muito mais que eu fizeste pelo INIA, ..., INIAV. Como sabes, saí em setembro passado, já faz um ano dentro em pouco, e já sinto que os desejos formulados sobre a minha colaboração na casa, mesmo aposentado, não passaram de promessas. Já sabia que isto iria acontecer, mas tão rápido!? Como devem andar desmotivados os meus ex-colegas da florestal! Abraço do Mário Tavares

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  4. Mais uma vez a pôr o dedo na ferida, ferida essa que está cada vez maior!. Está de novo a decorrer mais uma "ação de limpeza" e de apagamento da memória do que foi a EAN e a EFN. As energias estão mesmo a esgotar-se...
    Um abraço, Margarida Vieira

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  5. Não há falta de memória apenas nos organismos de investigação...
    Qualquer ministrozinho ao chegar ao poder põe para o lixo o trabalho dos anteriores... e vamos a recomeçar de novo! É um continuo gasto de tempo , energia, dinheiro , além de ser claramente desmoralizante.

    País sem memória , é país sem futuro

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  6. A DEMOCRACIA tem a ver com CARACTER e neste momento só encontramos OPORTUNISMO, INCOMPETENCIA, FALTA DE PUDOR,INSENSIBILIDADE, INCAPACIDADE DE RECONHECIMENTO das COMPETÊNCIAS dos outros, ESCONDER , OMITIR e O APODERAR descarado dos saberes dos outros, FALTA DE RESPEITO....DEMOCRACIA:POR ONDE ANDAS?????!!!!!!! Porque deixamos que isto aconteça?!!!! porque deixamos o 'bichinho' do medo corroer as nossas atitudes?!!!!MAS há uma grande verdade: NÃO EXISTE MAL QUE NUNCA ACABE!!!!! e quando caírem podem ter a certeza que não perdoaremos...ou seja: se os podermos lixar, lixamos mesmo!!!!sem complacência!!!!!!não perdoaremos a quem nos colocou nesta situação, não!!!!Cá vos esperamos!!!!!!esperemos que seja breve!!!....nessa altura vão ter de se esconder dos nossos sorrisos cínicos que merecem...é o que me ocorre dizer desta situação degradante do exercício dos poderes públicos....

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  7. Não o conheço mas consultei o seu livro quando fiz o meu Relatório de Licenciatura na UTAD. Já lá vão uns anos. Considero penoso o que conta da feira do livro do I.V.V. Como vai a incultura neste país. F.J. Morais

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